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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

"Homo genuflexus"

«Pedro Passos Coelho, depois de ter sido durante quatro anos no governo um exemplar Homo genuflexus, apresenta-se agora na oposição como modelo do Homo firmus e erectus na relação com Bruxelas. É verdade que para usar na lapela o verbo "social-democracia sempre" tem de apagar do cadastro as máculas neoliberais - não vale a pena negar o óbvio, aquilo que se fez no Portugal do ajustamento foi privatizar a eito, cortar despesa pública para reforço do setor privado, aumentar impostos à bruta e desregulamentar o mercado de trabalho para facilitar o capitalismo selvagem - que lhe iluminaram o caminho da governação. Mas, mesmo na retórica de campanha eleitoral, exige-se decoro. Se António Costa "ajoelhou" perante a Comissão Europeia veremos mais adiante. É verdade que a austeridade não acabou e, como diz Passos Coelho com razão, foi rebatizada, com o Orçamento a passar de austeritário a restritivo. Como já aqui disse, a austeridade de direita foi substituída pela da esquerda. De uma a outra, venha o diabo, mas esta é seguramente mais equitativa e, por isso, mais justa do ponto de vista social já que não recai sobre os rendimentos do trabalho e, pelo menos, impõe aos habituais isentos de esforço a obrigação de contribuírem para a comunidade. Mas, pelas almas, que autoridade tem o anterior primeiro-ministro para encher a boca com tais denúncias? Seguramente que nem os seus acólitos mais entusiastas se esquecem das idas regulares à chancelaria alemã para fazer provas de diligência e promessas de ir além da troika à senhora Merkel. Ou das imagens recorrentes da subserviência de Vítor Gaspar em Bruxelas perante o poderoso senhor Schäuble. Ou mesmo da exibição de Maria Luís Albuquerque em Berlim, em vésperas de eleições, como modelo de aluna bem-comportada. Ajoelhar é isto. Aceitar tudo sem questionar ou sequer tentar negociar. Aquilo que o atual governo fez foi, apesar de tudo, diferente. Negociou, cedeu como é próprio destes processos, e, como escrevia Freitas do Amaral nesta semana na Visão, conseguiu na Comissão Europeia e no Eurogrupo a aprovação de um Orçamento social e não neoliberal, o primeiro desde a criação do euro. De Passos Coelho aquilo que temos para recordar são anos a fio a genufletir e a resignar, por opção ideológica, em nome de uma saída limpa que, confirmamos hoje, está crivada de nódoas.»
(Nuno Saraiva:"E por falar em ajoelhar"

sábado, 1 de novembro de 2014

A mentir descarada e continuamente desde 2011. Pelo menos.

"A 16 de Junho de 2011, por ocasião da assinatura do acordo de coligação com o CDS, Pedro Passos Coelho reafirmava aquilo que já tinha repetido algumas vezes em jeito de promessa eleitoral: "Não usaremos nunca a situação que herdámos como uma desculpa para aquilo que tivermos de fazer. Daremos, por uma vez, um bom exemplo de poupar ao país durante meses o exercício de evocar a circunstância que herdámos. O país conhece-a, e conhece-a suficientemente bem para não ter tido nenhuma dúvida quanto à necessidade de mudar e de mudar profundamente". Mais adiante reforçava que o Portugal tinha todas as razões para estar tranquilo porque iria ter um governo que "não se vai desculpar com o que aconteceu antes nem com as dificuldades do presente para entregar o resultado que os portugueses querem receber".

Ao fim de pouco mais de três anos, este compromisso solene - quiçá por preguiça ou patetice - mereceu o mesmo destino de todas as outras promessas, isto é, o caixote do lixo.

Nos últimos dois dias, durante o debate do Orçamento do Estado, lá foi o passado trazido, mais uma vez, para o presente em nome, imagine-se, da pesada herança ou, para citar Paulo Portas, "tal era o pesadelo que vocês [socialistas] nos deixaram".

Por entre fantasmas e assombrações, o vice-primeiro-ministro acabou por confessar que a atual maioria não tinha alternativa senão pedir sacrifícios. Com esta afirmação Paulo Portas descaiu-se e, se dúvidas restassem, fez cair a máscara de Pedro Passos Coelho. Descodificando, aquilo que o líder do CDS está a dizer é que o atual primeiro-ministro, enquanto líder da oposição e candidato à chefia do governo, sabia que aquilo que prometia em matéria de impostos, salários e pensões, a troco de votos em 2011, não era para cumprir e, por isso, mentiu deliberadamente aos eleitores.
(...)
Vejamos então: será por culpa do governo anterior que o caos se instalou nos tribunais com o crash do Citius, o sistema informático da Justiça? Terá sido por causa do "pesadelo" socialista que ainda hoje centenas de alunos não têm os professores todos colocados e, por isso, não têm aulas? Terá sido por responsabilidade de quem esteve no poder até 2011 que Vítor Gaspar se demitiu de ministro das Finanças assumindo em carta pública que a receita tinha falhado e que, por isso, já não tinha credibilidade para continuar? Serão os governos anteriores responsabilizáveis pelo fracasso constante no cumprimento das metas do défice e pelos erros de previsão na evolução da trajetória da dívida pública portuguesa? E será por delito das anteriores maiorias que a economia não cresceu como prometido pelo primeiro-ministro logo em 2012 e depois em 2013 e que o PIB caiu em nove trimestres consecutivos?
(...)"
(Nuno Saraiva; "A pesada herança"; Na íntegra: aqui. Destaques meus)

Felizmente e ao contrário dos profissionais da aldrabice, "Os números não mentem"