Mostrar mensagens com a etiqueta União Europeia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta União Europeia. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Uma "desgraça" nunca vem só...

Perante estas notícias Pedro P. Coelho dirá com toda propriedade: - é bem certo que "uma 'desgraça' nunca vem só".
Estas notícias são excelentes para Portugal, mas para P. Coelho são mesmo autênticas desgraças. De facto, à medida que se vão acumulando os bons resultados da actual governação, vão-se também encurtando os dias que lhe restam até ter que largar a pose de "primeiro-ministro no exílio". A pose e a "pele".
(Imagem daqui)

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Uma besta, com todas as letras!

O ministro da Finanças da Alemanha, Wolfgang Schäuble, tendo em conta a completa irresponsabilidade das afirmações que faz, porque, além do mais, não são minimamente conformes com a realidade, só pode ser uma besta. Com todas as letras!
Não se arranja ninguém capaz de lhe substituir a língua de trapos por uma língua de gente?

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Para além do final feliz

Não há dúvida que o psicodrama iniciado com a instauração contra Portugal de um processo visando sancionar o país pelo défice excessivo verificado nos anos de 2013 a 2015 (Passos Coelho e Paulo Portas chamados à cabina de som!) teve um final feliz, visto que a Comissão Europeia acabou por tomar a decisão de não propor qualquer multa contra Portugal, reconhecendo assim que, tal como defendia o Governo português, a aplicação de qualquer sanção não só era um contrassenso, como "não tinha justificação, nem base legal".
Tal não significa, porém que, neste caso também se aplique o dito "Tudo está bem quando acaba bem", porque, de facto, nem tudo esteve bem e nem tudo continua a estar bem. Deixando para outra oportunidade uma apreciação da actuação, durante todo o processo, dos partidos da direita e muito em particular de Passos Coelho e de Maria Luísa Albuquerque, os principais responsáveis pela situação de incumprimento do défice durante o período considerado, há que reconhecer que  a Comissão Europeia esteve muito longe de ter actuado com o sentido de responsabilidade que lhe é exigível. Os avanços e recuos verificados durante o andamento do processo, as declarações, em regra, dissonantes, emitidas por vários comissários foram de molde a criar alguma incerteza sobre a evolução da economia portuguesa, com consequências negativas para o país, designadamente, no que respeita à dinamização do investimento de que Portugal bem carecido anda de há uns anos a esta parte.
Bem andou, ao invés de Comissão, o Governo português. Não só soube contrariar, com argumentos irrebatíveis, que as sanções eram de todo injustificadas, como teve a coragem de anunciar com toda a clareza e de forma a não deixar dúvidas a ninguém, que o Governo português se bateria contra as eventuais sanções em todas as instâncias comunitárias, dispondo-se, inclusive, a recorrer ao Tribunal de Justiça da União Europeia para fazer valer os seus argumentos na defesa dos interesses do país,
Isto, há que dizê-lo, apesar de os líderes dos partidos da direita (PSD e CDS) se terem manifestado contra o recurso ao Tribunal de Justiça por entenderem que era ousadia a mais que poderia vir a ficar cara ao país. Seria, de facto, ousadia a mais, se o actual Governo seguisse as pisadas do executivo liderado por Passos Coelho o qual, enquanto governou, foi incapaz de abandonar a posição de cócoras perante as instituições europeias e a senhora Merkel. Os tempos, porém, são outros. Felizmente.
Até Passos Coelho e Assunção Cristas terão de o reconhecer. Mais tarde ou mais cedo.
(Imagem daqui)

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

"Na mão de tacanhos"

A começar pelos de cá, digo eu, mas o melhor é passar, desde já, a palavra ao Ferreira Fernandes, que de crónicas, bem como desta e de outras matérias, percebe muitíssimo mais do que eu:
«Foi agorinha, acabámos de ver fechada a fronteira da Croácia com a Sérvia, e mais à frente a fronteira da Eslovénia que se fechou, porque os que estão lá dentro já não entram na fechada Áustria... Querem investir? Façam-no na Chaves do Areeiro ou no cimento para muros ou nos fardamentos, que os polícias e militares vão ser mais nas alfândegas dos que eram os guardas-fiscais. Tirem as estrelinhas da bandeira da UE, ponham aloquetes. Não é crítica, é expressão dos factos: é assim porque tem de ser assim. Já tivemos o nosso breve período Facebook, like, like, polegar generoso, mas a verdade é esta: nenhuma sociedade humana pode ter a porta toda aberta (nem mesmo a da sede do Partido Libertário Mundial). A crise humanitária síria devia ser tratada não pela autogestão das vítimas, mas por uma política centralizada europeia. Por a questão ser grave a Europa devia ser clara e pensada - e uma. E aqui chegamos à fórmula de ironia grosseira com que abri a crónica: "Foi agorinha..." Não foi! O primeiro barco de refugiados (duma África agónica) chegou à siciliana Lampedusa em 1992. Malta, em 2007, explodia de imigrantes pelas costuras. Calais é um gueto há anos... A Europa tratou disso vesga, como na crise financeira. Nesta, ao menos tiveram jeito para alguns, a Alemanha safou-se. Mas, agora, até ela vai na enxurrada, fechou a fronteira e sente-se cercada. Choramos o fim da livre circulação porque deixámos a Europa na mão de tacanhos.»
(Quando voltamos a parar em Vilar Formoso?

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Um anão em bicos de pés

Passos Coelho reclamou para si próprio a paternidade da ideia que terá contribuído para ultrapassar o último obstáculo à obtenção do acordo entre a Grécia e os demais países da zona euro. Afirmou ele:"Devo dizer até que, curiosamente, a solução que acabou por desbloquear o último problema que estava em aberto, que era justamente a solução quanto à utilização do fundo [de privatizações], partiu de uma ideia que eu próprio sugeri. Quer dizer que, por acaso, até tivemos uma intervenção que ajudou a desbloquear o problema".
Há que reconhecer que é extremamente curioso que o mérito pelo desbloqueamento da situação tenha de ser atribuído a um indivíduo mais conhecido pelas suas mentiras do que pela sua criatividade, como é o caso de Passos Coelho. 
Mais curioso ainda é o facto de ainda não ter aparecido nenhum outro participante na cimeira do Eurogrupo a atribuir a Passos Coelho a paternidade da ideia luminosa.
Diz o povo que "elogio em boca própria é vitupério".  E com razão. É óbvio que Coelho não conhece o ditado. Se o conhecesse teria evitado cair, uma vez mais, no ridículo.
(Citação e imagem daqui)

"Parem esse homem"!

«A maior ameaça que paira sobre a Europa hoje não é a de Putin ou do fundamentalismo islâmico, dos EUA ou da China, dos eurocéticos ou dos populistas. A maior ameaça que paira sobre a Europa hoje é a que representa Wolfgang Schäuble, ministro das finanças da Alemanha.

Peso bem as palavras. Schäuble está no coração do poder. O que os outros só podem tentar fazer a partir de fora, ele conseguirá com muito mais eficácia ao liderar uma corrente de opinião entre os governos da zona euro que, se levar a sua avante, não poderá resultar senão na destruição daquilo que foi construído por todas as gerações europeias do pós-guerra.

Isto começou há alguns anos, quando Schäuble se auto-proclamou uma espécie de supremo tribunal europeu — arbitrário, parcial, absolutista e, pior do que isso, sistematicamente errado. Qualquer gesto de solidariedade ou partilha no quadro da União Europeia, dos eurobonds à mutualização da dívida, era excluído por Schäuble sob o pretexto de que os tratados não o permitiam. No entanto, ao seu olhar cirúrgico escaparam construções de base legal duvidosa ou puras ilegalidades, da troika às políticas desta, para não falar do próprio eurogrupo que se descobriu recentemente que era “puramente informal” enquanto governa os destinos de 350 milhões de europeus.

Schäuble sabe que não precisa de ter razão. Basta-lhe ser ministro das finanças do país mais rico da UE. Nenhum outro governo lhe tem feito frente. Na verdade, das poucas vezes que o verdadeiro Tribunal de Justiça da União tem sido chamado a pronunciar-se sobre as políticas centrais da zona euro há uma regularidade que se verifica: as medidas a que Schäuble se opunha são compatíveis com os tratados; muitas das que ele defendeu são de legalidade duvidosa.

A situação piorou agora quando Schäuble decidiu tirar da cartola que a reestruturação da dívida grega era impossível segundo os tratados, mas que seria muito necessária e até razoável desde que a Grécia saísse do euro por um mínimo de cinco anos. Para tal citou o artigo 125 do Tratado de Funcionamento da União Europeia que, muito claramente, não fala da zona euro, mas da própria União. Se este artigo fosse impedimento a uma reestruturação (não é) a Grécia teria de sair da própria União. Mas, mais uma vez, Schäuble sabe que há muitas formas de fazer a reestruturação da dívida grega de forma legal e compatível com os tratados. Só que, antes de lá chegar, deseja impôr aos gregos outras condições ainda mais escandalosas, nomeadamente forçando-os a consignar valores do estado num montante de 50 mil milhões de euros a um fundo controlado pelos credores.

Esta exigência, que parece vinda do pior colonialismo e imperialismo do século XIX, não pode ser entendida senão como uma provocação com o intuito de fazer fracassar qualquer negociação. Não é por acaso que os Verdes alemães anunciaram levar Schäuble ao Tribunal Constitucional do seu país por violação do objetivo constitucional de participar na construção de uma Europa “democrática e social” (artigo 23 da Constituição Alemã).

Têm toda a razão. Wolfgang Schäuble não é apenas um perigo para a Europa, mas também uma vergonha para a Alemanha. Parem esse homem, se não for já demasiado tarde.»
(Rui Tavares; "O Sr. Anti-Europa")

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Na tragédia grega não há inocentes (II)

«Confirmado o referendo em Atenas e suspensas as negociações em Bruxelas, nunca esteve tão eminente o pior dos cenários para o povo grego é para a zona euro: a saída desordenada da Grécia. Na lógica simplista da política prevalecente nas modernas sociedades mediáticas, um desastre de tamanhas proporções precisa, obviamente, de um culpado, alguém a quem possam ser imputadas responsabilidades pelas consequências da ruptura a que se chegou. Ao que parece, o candidato natural é Alex Tsipras. Mas nem sempre o que parece é. 

Sem dúvida, Tsipras fez mais do que o suficiente para partilhar pesadas responsabilidades. Oriundo de uma formação política radical, o jovem primeiro-ministro grego subiu na vida política vendendo ilusões e prometendo o que não podia cumprir. Apostou tudo numa atitude negocial de confrontação - e falhou. O seu falhanço, como se vislumbra já, não é coisa pouca: implica o caos no sistema financeiro e no funcionamento da economia e do Estado. Ao longo de meia dúzia de meses, Tsipras tardou em apresentar propostas convincentes e acabou, no final, por ser forçado a consentir em quase tudo o que antes dizia rejeitar: primeiro, o agravamento da austeridade (via enorme aumento de impostos) e, depois, o pedido de um terceiro resgate. Como se não bastasse, foi dele a iniciativa de abandonar unilateralmente as negociações (que depois, desesperadamente, tentou retomar) e foi dele a ideia de convocar este bizarro referendo (enquanto ainda mantinha uma intensa troca de cartas com propostas negociais). Entretanto, o seu ministro das Finanças, Varoufakis, acenava aos eleitores com a derradeira ilusão, anunciando o propósito de regressar na segunda-feira à mesa das negociações como se nada fosse, mas em posição reforçada por um "grande não", para fechar "rapidamente" (!) um acordo imaginário, sabe-se lá com quem. Embora convocado em nome da democracia, este apressado referendo decorre sob pressupostos de tal modo falsos e em condições de tamanha anormalidade que só pode constituir um monumental equívoco democrático. 

Dito isto, que é tudo verdade, é preciso dizer também que seria um gravíssimo erro esconder as responsabilidades maiores dos credores por trás das responsabilidades do Syriza e da sua liderança. Desde logo, convém recordar que as "instituições" são responsáveis por terem imposto à Grécia e aos seus sucessivos governos uma política de austeridade errada e absolutamente devastadora, que agravou em muito o problema da dívida pública ao mesmo tempo que retirava à economia a capacidade para gerar a riqueza necessária para que essa dívida pudesse ser paga. Nesse ponto - que é o ponto essencial e que deveria inspirar não apenas um acordo mas um acordo diferente - era Tsipras que tinha razão. Sucede que as "instituições" se recusaram sempre a reconhecer o fracasso da política de austeridade e a necessidade de construir uma solução para a dívida pública grega. Pelo contrário, preferiram teimar na fracassada receita austeritária, sempre fiéis à inspiração alemã e correspondendo às inqualificáveis exigências de governos como os de Portugal e de Espanha. 

Em bom rigor, porém, também não foi a insistência na austeridade que impediu a conclusão deste acordo. De facto, não pode contar-se a história destas tumultuosas negociações ignorando um facto essencial: no início da semana passada, o Governo grego apresentou uma proposta que foi efusivamente saudada pelos parceiros europeus como "credível" e em que Tsipras cedia praticamente em toda a linha (a ponto de deixar em risco a sua própria sobrevivência política). Como aqui escrevi há oito dias, quando ainda subsistia a esperança num acordo, "depois de todas as cedências feitas pelo Governo grego, já não será possível responsabilizar o Syriza pelo falhanço das negociações". Foi o que escrevi e mantenho. Está por explicar a razão pela qual essa proposta, dita "credível", não chegou, aos olhos do FMI e das "instituições", para servir de base a um acordo que poupasse a Grécia e a zona euro ao cenário de catástrofe que agora se anuncia.
A verdade é que, do princípio ao fim, a "linha dura" fez tudo o que estava ao seu alcance para impedir um acordo que pudesse legitimar a afirmação de uma alternativa ao pensamento dominante. (...)»
(Pedro Silva Pereira; "A culpa" . Fonte)

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Na tragédia grega não há inocentes

«(...)
Alexis Tsipras teve um mérito e cometeu três erros crassos. O mérito, como já aqui referi na semana passada, consistiu na tentativa de sobrepor a dimensão política à discussão técnica no relacionamento com os parceiros e credores do seu país. Os erros foram os seguintes: a celebração de uma coligação com a direita hipernacionalista, o recurso a uma retórica antigermânica primária e a incapacidade de estabelecer alianças pragmáticas com governos de outros países. Notoriamente não esteve à altura das suas responsabilidades e muito menos das expectativas que chegou a criar, acabando por lançar o seu país numa situação caótica e desesperada. O balanço da governação do Syriza não poderia ser mais negativo: começou na exaltação nacionalista e acabou na rendição ideológica. A partir daqui, o Syriza, como perspectiva de uma solução alternativa, soçobrou. Revelou todas as insuficiências características das propostas extremistas – completa incompreensão da realidade, valorização de uma atitude declamatória alheia à satisfação das reais necessidades das pessoas, exibição de um moralismo purista desprovido de qualquer consequência política prática. É hoje evidente que o Syriza constituiu um monumental falhanço histórico. Confrontado com o seu próprio desespero, o primeiro-ministro grego decidiu-se pela convocação de um referendo de discutível legitimidade democrática que suscitou já a reprovação por parte dessa organização insuspeita que é o Conselho da Europa. No próximo Domingo a escolha só não será entre a continuidade ou não na União Europeia porque o Syriza está cada vez mais destinado a fazer parte de um parêntesis histórico desprovido de excessiva importância. A Grécia faz parte da Europa e a Europa faz parte da Grécia.

Tudo isto é verdade, mas não permite iludir as enormes responsabilidades europeias na presente crise. Ainda ontem Matteo Renzi deu provas da mediocridade das presentes lideranças nacionais ao afirmar que “é impensável que a Itália e os outros governos financiem as pensões gregas”. São palavras indignas de um primeiro-ministro empenhado na promoção de um verdadeiro projecto europeu. Infelizmente, à esquerda como à direita, é este tipo de discurso que tem prevalecido. O discurso primário do egoísmo, do nacionalismo bacoco, do populismo acrítico. A União Europeia há muito que tem falhado na abordagem dos problemas dos países do Sul. Se uma solução política caricatural como aquela que o Syriza representa pôde ter sucesso eleitoral tal deve-se em grande parte à obstinação ideológica de alguns governos pouco preocupados com o futuro da Europa. Que o governo português se tenha associado a essa mesma obstinação só revela a sua verdadeira natureza servil e medíocre.

Uma vez mais se constata que a extrema-esquerda, na sua profunda irresponsabilidade, constitui a melhor aliada da direita europeia. É o que se passa também no nosso país. Razão teve António Costa em se demarcar nitidamente das posições do Syriza, procurando deixar bem claro que pode haver no espaço europeu um projecto político alternativo ao populismo conservador e liberal que nos tem conduzido a um verdadeiro abismo económico e social. Contrariamente ao que a direita interesseira e alguma esquerda ingénua têm vindo a propalar, o Secretário-Geral do PS nunca manifestou especial apreço pelas soluções preconizadas pela extrema-esquerda grega. Sejamos sérios, António Costa limitou-se a dizer aquilo que qualquer observador lúcido diria: que o voto no Syriza significava uma reacção desesperada face às trágicas políticas austeritárias impostas ao povo grego. Aliás, basta ler com atenção o programa eleitoral do PS para compreender a intransponível distância que o separa das vacuidades demagógicas do Syriza. A verdade é que entre a direita e a extrema-esquerda sempre houve um caminho alternativo. Esse caminho designa-se por socialismo democrático ou social-democracia e é responsável pelo melhor da experiência histórica das últimas décadas europeias.»
(Francisco Assis: "O drama da Grécia": Na íntegra: aqui. Destaques meus)

terça-feira, 30 de junho de 2015

Foi v. quem pediu uma "almofada"?

Desde que as negociações entre o Governo grego e as instituições (UE, BCE e FMI) começaram a descarrilar, o governo português garantiu, desde a primeira hora, que do eventual falhanço das negociações não decorria qualquer risco para Portugal, graças à já famosíssima "almofada" de mais de uma dezena de milhares de milhões de euros (de dívida entretanto contraída a pensar no pior). O país, com a dita "almofada", estaria preparado para durante uns quantos meses (até ao final do ano?) fazer face a eventuais reacções adversas por parte dos mercados financeiros.
Parece não haver razão para duvidar da existência da "almofada". Sobra, no entanto, a pergunta sobre a razão da sua existência, pergunta que não vejo devidamente esclarecida, nem pelo governo, nem pela comunicação social. Compreende-se porquê. É que a constituição da dita "almofada" é a prova mais provada de que a actuação deste governo  ao longo de toda a actual legislatura não se traduziu, ao invés do proclamado, num sucesso, mas sim num rotundo e inconfessado fracasso. Como é óbvio, só precisa de "almofada" quem se sente desconfortável com a situação em que se encontra. Se este governo se deu ao trabalho de constituir a dita "almofada" é porque ele próprio se não sente confortável com a situação em que se encontra o país, o que vale por dizer que nem o próprio governo acredita nas reformas cujo êxito vem reclamando, nem nos benefícios do "ajustamento" por via da  "austeridade" dita expansionista. 
Não acredita e com razão: o país, de facto, está mais pobre, a economia não passa da cepa torta e, surpreendentemente, até a dívida pública aumentou assustadoramente nos últimos quatro anos, passando de 96% do PIB, no final de 2010, para mais de 130%, actualmente. 
Digo surpreendentemente, porque é mesmo uma surpresa verificar que a dívida pública aumentou exponencialmente, em vez de diminuir, como seria de esperar, tendo em conta os cortes (de salários e de pensões) os aumentos de impostos nunca antes vistos e a venda dos últimos anéis, venda esta tão acelerada que está mais que justificada a atribuição a este governo do título de  Comissão Liquidatária. 
Com uma dívida pública muito superior à existente no final de 2010, é evidente que se, entretanto, surgir algum incidente de percurso que, na óptica dos "mercados", ponha em causa a viabilidade e o futuro do Euro, não haverá "almofada" que nos valha. Diga o que disser o governo ou o eminente "matemático" Cavaco.

"Se ao menos houvesse o decoro de permanecer em silêncio" *

«O ponto de não retorno talvez já tenha sido transposto. A entropia está em marcha. Portugal está agora na linha da frente da crise europeia. Como estava previsto no relatório da UBS, de setembro de 2011, sobre as graves consequências da eventual saída da Grécia da zona euro. Ou no relatório da Fundação Bertelsmann, de setembro de 2012, que vinculava a saída da Grécia à queda de Portugal, e a custos astronómicos para toda a zona euro, incluindo a Alemanha. Durante cinco anos a Grécia funcionou no dominó disfuncional da zona euro como um dique protetor perante as fragilidades de Portugal. Um governo português, formado por pessoas medianamente inteligentes e patrióticas, teria apoiado, mesmo que moderadamente, qualquer governo grego, fosse ele do Syriza ou de qualquer outro partido. Deveria fazê-lo por razões jurídicas e morais, mas também por puro egoísmo político. A Grécia era um dique protetor do interesse nacional. Infelizmente, o governo de Passos Coelho e o seu eco de Belém fizeram tudo para humilhar, enfraquecer e fragilizar Atenas. Agora, só um milagre poderia evitar que o dique grego se desmorone. Os nossos juros estão a subir, a desvalorização do euro significará desequilíbrio externo e perda do valor do aforro. Os "cofres cheios" vão começar a ser esvaziados. Quando mais precisávamos de estadistas, limitamo-nos a ter em Portugal os veteranos que utilizaram a malha larga da política partidária para se promover. Nos tempos de fartura, isso seria suportável. Pelo contrário, nos dias excecionais, como os que estamos a viver, tanta incompetência pode ser mortal para a sustentabilidade do Estado. Se ao menos houvesse o decoro de permanecer em silêncio.»
[VIRIATO SOROMENHO-MARQUES (na imagem): "O dique grego" . Daqui]
(*Infelizmente, nem isso)

segunda-feira, 29 de junho de 2015

A "grande descoberta" de Passos Coelho

Depois de sucessivas declarações do próprio e de outros membros do seu governo de que a crise que a Grécia atravessa não viria a ter reflexos em Portugal, graças à famosa "almofada", Passos descobriu finalmente que "ninguém pode estar imune àquilo que possa vir a acontecer". E fez a grande descoberta, exactamente no dia em que a bolsa portuguesa sofreu um rombo superior a 5%,  batendo, na queda, toda a concorrência. Sem apelo, nem agravo. Uma "inteligência" este Coelho!
(Imagem daqui)

domingo, 3 de maio de 2015

"No limite, a prisão por dívidas"

(...)
8. A “direita” hoje chama-se “realidade”, e não há arrogância maior, nem maior prosápia do que essa. Não só são donos da “realidade”, que só a eles cabe definir, como, mais do que isso, eles são a própria “realidade” incarnada. Isto significa que as suas políticas são as únicas possíveis e não há alternativas. O seu quadro impositivo, a que todas as políticas se tem que conformar, é uma variante pouco complexa de uma folha de Excel, um “modelo macroeconómico” cujas variantes são apenas as permitidas pelo pensamento único do “economês”. Não é neutro, significa interesses. Na prática, significa para Portugal (ou a Grécia) apenas “pagar aos credores”, atitude benévola se a dívida pudesse ser paga sem ser pela tísica do pagador ou a morte a prazo do devedor. Resta, no limite, a prisão por dívidas. Tudo isto é um absurdo e, como de costume, uma história bem mais complicada do que aquela que nos contam. (...)
(José Pacheco Pereira; Os estragos na cabeça)

Num longo texto que recomendo e de que extraio este parágrafo apenas para abrir o apetite para a sua integral leitura, José Pacheco Pereira mostra como os europeus têm vindo a ser de tal forma manipulados que a democracia está em vias de se transformar numa caricatura, se é que não está já reduzida a uma simples paródia.

domingo, 22 de março de 2015

"Bom aluno" é favor

«(...) É embaraçoso, para não dizer vergonhoso, (...) [o] que aconteceu no final desta semana, quando no meio de uma reunião do Conselho Europeu Tusk, Juncker, Draghi, Dijsselbloem, Hollande e Merkel se fecharam numa sala com Tsipras para discutir o futuro da Grécia no euro. O primeiro-ministro belga veio dizer que estava furioso: "Não demos nenhum mandato nem à França nem à Alemanha para negociar em nosso nome." Passos Coelho, claro está, veio dizer que não está “nada incomodado”. O bom aluno até é bom aluno quando não o deixam entrar na sala.» (Editorial do "Público" de hoje. Destaque meu).

("Bom aluno", salvo seja, pois bom aluno não é quem se comporta como um serviçal da senhora Merkel. Para grande vergonha do país.)

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Os "milhões" dados à Grécia pelos "beneméritos" Cavaco & Passos, vistos à lupa

«(...)
A Grécia recebeu até agora dos parceiros europeus qualquer coisa como 194 mil milhões de euros, com características muito diferentes. 52,9 mil milhões são empréstimos bilaterais, decididos antes da criação do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira, para os quais Portugal contribuiu com 1,1 mil milhões de euros (2% do total). Este dinheiro é remunerado à Euribor a três meses, adicionada de um "spread", o que supera o custo de financiamento do país no curto prazo. O dinheiro conta para a dívida pública nacional, mas é descontado para efeitos de medidas das regras europeias de dívida e défice.

Nesta frente Portugal não paga nada aos gregos, só não faz dinheiro com a Grécia. Além disso, participa de acordo com a chave de capital no BCE (com ligeiros ajustamentos), como a maioria dos restantes países pelo que não se distingue especialmente. Convém ainda lembrar que este dinheiro foi emprestado por solidariedade, mas também por interesse nacional como mandam as relações entre Estados: o objectivo frustrado era o de travar uma crise sistémica no euro e o contágio a Portugal.

Há depois os cerca de 142 mil milhões de euros emprestados à Grécia pelo FEEF (o mesmo que emprestou dinheiro a Portugal), que se financia no mercado (não pesa na dívida pública dos Estados-membros) e cobra à Grécia um ligeiro "spread" sobre os seus custos de financiamento. Neste caso, Portugal também não paga nada e a solidariedade nacional é ainda mais interessante de medir. É que por também ter sido resgatado, Portugal não participou nas garantias dadas pelos Estados-membros ao FEEF. Isto significa que eventuais perdas não teriam impacto em Portugal (nem na Grécia, Chipre e Irlanda). Colocar sobre si os holofotes da solidariedade para com a Grécia parece, por isso, inadequado.

Finalmente, há "os muitos milhões" dos lucros das obrigações gregas na posse do Banco de Portugal que Portugal transfere. Em causa estão compras de títulos pelos bancos centrais da Zona Euro para tentar conter a crise grega (de resto também compraram obrigações portuguesas). A particularidade no caso grego é que, dadas as dificuldades helénicas, os países da Zona Euro decidiram transferir para Atenas os lucros que fazem com esse investimento – o qual foi financiado a custo zero com dinheiro novo impresso pelo BCE. Devolver os lucros é uma ajuda, mas significa simplesmente deixar de ganhar com a desgraça alheia. (De acordo com a Conta Geral do Estado de 2013 e Orçamento de 2015 estão em causa qualquer coisa como 70 milhões de euros por ano).
(...)»
(Rui Peres Jorge; "Os gregos, os milhões de Cavaco e o esforço de Passos" Na íntegra: aqui. Destaques meus.)

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Shame on you!

Cavaco, não querendo deixar todo o protagonismo ao "alemão" Passos Coelho, fez questão de também se pronunciar sobre a actual situação da Grécia. A tal propósito, afirmou Cavaco que '"Muitos milhões de euros estão a ser tirados dos bolsos dos portugueses" para apoiar a Grécia', afirmação que é bem reveladora duma mentalidade mesquinha. Na medida em que foi proferida por alguém que faz as vezes, embora muito mal, de presidente da República, uma tal afirmação é motivo de vergonha para todos os portugueses que nela não se revêem. Como é o meu caso.
(Imagem daqui)

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Um rombo no porta-aviões ?

«(...) quase surpreende que Vítor Bento, num longo e estruturado ensaio publicado no Observador, venha dar um tiro no porta-aviões da doutrina da austeridade expansionista e, na mesma leva, na narrativa oficial do Governo do "temos de empobrecer" e "andámos a viver acima das nossas possibilidades". (...)
Sendo, como é, um perene conselheiro de Estado, e até há pouco tempo (...) um dos mais consensuais economistas da direita portuguesa, é um rombo importante na doutrina dominante. 
Porque, agora, já se pode dizer que, como já aqui assinalámos em Setembro de 2014, a Alemanha tem de perceber de uma vez por todas que se quer que os demais Estados-membros lhe subsidiem uma moeda com câmbio mais baixo, o que a mantém competitiva, e lhe dêem livre acesso a um mercado de 500 milhões de habitantes, tem de partilhar esses ganhos.
Não é uma questão de pedir ao contribuinte alemão o que é dele, é pedir-lhe que devolva o que não lhe pertence, que é o que o "dispor de um excesso de competitividade que é subsidiado pelos sacrifícios dos Deficitários, obrigados a um ajustamento unilateral" de Vítor Bento quer dizer em português corrente.
E qual será o montante desse subsídio? Vítor Bento não arrisca um valor, remetendo para um paralelo com o movimento recente do franco suíço, mas recorrendo aos cálculos de Dominick Salvatore, da Fordham University, podemos estimar que um "euro alemão" valeria pelo menos mais 40% no mercado cambial. Um subsídio e tanto.
O rei vai nu e há que sublinhar que "aqui reside a grande falha da argumentação moral que tem subjazido à condução do processo, pois que não são os Excedentários que têm estado a sustentar o bem estar dos Deficitários, mas o contrário.".
Numa altura em que a Grécia afronta os dogmas europeus o Governo português teima em negar a evidência e manter o rumo. A Grécia lutará pelos interesses dos Gregos mas não conte com o apoio do Governo de Portugal, por muito que os interesses do povo português sejam semelhantes: menos austeridade, para garantir a sustentabilidade da Economia e das contas públicas.

Estamos num momento da história em que essa teimosia se traduz em mais pobres, mais desempregados, menos protecção social. Não é culpa da Chanceler Merkel que está a lutar pelos interesses do seu país: aquilo do "Deutschland, Deutschland über alles" é mesmo para levar a sério. Infelizmente para nós, para Passos Coelho também.»
(Marco Capitão Ferreira; "Já se pode dizer?". Na íntegra: aqui)

Sublinho o "para Passos Coelho [o alemão, digo eu] também".

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Atenção ao "conto do vigário"!

«(...)

Fala-se do irrealismo do programa do Syriza como se o programa de ajustamento grego (e já agora o português), com as suas mirabolantes metas, tivesse algum dia sido realista. Acusa-se o Governo grego de egoísmo e de só pensar nos seus interesses, como se os alemães e restantes europeus legitimamente não defendessem os seus interesses. Passos Coelho compara as ideias de Tsipras às de um "conto de crianças", esquecendo o conto do vigário que ele próprio contou aos portugueses no seu programa eleitoral.

A escolha dos gregos nas eleições de domingo foi feita à beira do precipício. Em vez de se agarrarem aos pedregulhos da Acrópole, decidiram atravessar o precipício sobre uma corda sem rede por baixo levados por um misto de desespero e orgulho. Nunca conseguirão tudo o que querem, mas já começaram a travessia. E fazem-na de cabeça erguida e isso merece todo o respeito

(Manuel Esteves; "A Europa não pode dar lições de realismo". Na íntegra: aqui)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Passos Coelho contrariado...

«(...)

Os dogmas em que se fundou a política de austeridade, que orientou a resposta errada da União Europeia à crise financeira, estão a cair uns atrás dos outros. Afinal, nem o mandato do BCE impedia uma resposta mais eficaz à especulação instalada nos mercados de dívida soberana, nem as regras do Pacto de Estabilidade e Crescimento são incompatíveis com uma política orçamental menos danosa para a economia e para o emprego. Sem alterar uma vírgula no Tratado de Lisboa ou nas regras do Pacto, o tom da resposta europeia à crise começa a mudar: primeiro, graças à política monetária expansionista do BCE (em breve reforçada com um programa de Quantitative Easing); depois, pela nova orientação da Comissão Juncker, com o seu plano de investimento (público e privado) e a sua abertura à flexibilidade orçamental.

Duas razões explicam esta evolução. A primeira, é a própria evidência do fracasso da política de austeridade. A segunda, é a forte pressão política dos socialistas em todas as frentes da política europeia: no Parlamento Europeu (em que o seu voto é decisivo); no Conselho (graças à liderança de Matteo Renzi na presidência italiana) e no interior da Comissão (desde que o socialista francês Pierre Moscovici substituiu o liberal Olli Rhen nos assuntos económicos). Não será ainda a mudança de que a Europa precisa mas é bastante melhor do que tinhamos com a Comissão Barroso - que era nada.

Finalmente, a "flexibilidade" orçamental deixou de ser um conceito vazio para ganhar sentido e substância, embora com latitude diferente para quem esteja ou não em défice excessivo. Doravante, a Comissão promete tomar em conta o contexto do ciclo económico e a realização de reformas estruturais na ponderação dos esforços orçamentais de cada país e mesmo na permissão de desvios em relação às metas do défice. Mas também promete uma política orçamental mais amiga do investimento, por duas vias: primeiro, não contabilizando no défice as contribuiçoes dos Estados para o novo Fundo europeu de investimento; segundo, adoptando uma interpretação mais generosa da chamada "cláusula de investimento" de modo a permitir que os Estados que não estejam em défice excessivo se desviem temporariamente das metas do défice para aumentarem o investimento público.

Esta evolução, embora ainda tímida e compromissória, é da maior importância também para Portugal. É certo que a nova formulação da "cláusula de investimento" não permite aos Estados em situação de défice excessivo, como é o nosso caso, isentar do défice a comparticipação nacional dos projectos financiados com fundos comunitários da mesma forma que se isentam as contribuições para o Fundo europeu de investimento - um manifesto absurdo, que importa corrigir.

Mas, além das vantagens indirectas que sempre virão para as exportações portuguesas de políticas orçamentais menos restritivas dos nossos parceiros europeus com mais margem de manobra, Portugal beneficia directamente de três importantes implicações desta nova flexibilidade: primeiro, pode desde já aceder a um calendário de ajustamento mais alargado em contrapartida da realização de reformas esruturais; segundo, as suas metas passam a ser definidas e avaliadas ponderado o impacto orçamental das quebras da actividade económica que escapem ao controlo do Governo; terceiro, a despesa pública que Portugal fizer em contribuição para o Fundo europeu de investimento não será contabilizada para o défice. Tudo isto, é claro, Passos Coelho combateu, sempre fiel à "linha dura" da austeridade. Mas de tudo isto Portugal poderá beneficiar, apesar dele.»
(Pedro Silva Pereira; "Melhor que nada". Na íntegra: aqui)