A imagem dos magistrados (juízes e procuradores) dada pelo Barómetro do "Expresso", segundo notícia publicada na edição imprensa de ontem do referido semanário, conquanto não de todo inesperada, não deixa de surpreender. De acordo com a sondagem, a actuação dos juízes tem sido: Positiva para 9,9%; Negativa para 48,6%; Nem boa nem má para 28,2% e a dos magistrados do Ministério Público: Positiva para 18% (para mim mais uma surpresa, quando confrontada com a dos juízes, que eu avaliaria de forma contrária); Negativa para 43,3%; Nem boa nem má para 19,2% (A diferença para 100% corresponde à resposta "NS/NR) .
Perante estes resultados, o que nos dizem os presidentes das associações sindicais dos magistrados?
Para António Martins, presidente da Associação dos Juízes Portugueses, " As pessoas não compreendem a realidade da Justiça nem o papel e responsabilidades de cada um. Para o cidadão, o juiz está na linha final do sistema: condena, absolve, manda prender" e acrescenta "Os juízes não fazem as leis. O sistema legal é definido pelo legislador e os magistrados limitam-se a cumprir, com os meios que existem". João Palma, presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, na mesma onda, remata: "É difícil fazer boa justiça com leis más".
Estas tomadas de posição por parte das associações sindicais (às quais, a meu ver, pode ser imputada uma boa parte da responsabilidade pela degradação da imagem das magistraturas) são, além do mais, desculpas de mau pagador, como é evidente para quem tenha alguma noção do que é o Direito e a aplicação da Justiça. Desde logo, a desculpa dos "meios" não convence, pois os magistrados nunca tiveram ao seu dispor tantos "meios" e de tanta qualidade como agora. Por outro lado, se os senhores magistrados (e em particular as associações sindicais) estão à espera de leis perfeitas, podem estar eternamente à espera, porque leis perfeitas é coisa que não houve, não há e não haverá. Aprendia-se isso, no meu tempo, logo nas primeiras lições de Introdução ao Direito, onde se ensinavam também as técnicas disponíveis para os operadores jurídicos ultrapassarem as imperfeições da lei, quer através da interpretação da lei, quer através da integração das lacunas da lei. E até o "legislador" sabe que não é perfeito. Sabe e assume. Tanto assim é que estabeleceu regras para a interpretação da lei (que umas vezes diz mais do que o pretendido e outras vezes fica aquém) e para a integração de lacunas (para os casos nem sequer previstos) .
Dir-me-ão que, mesmo lançando mão de todas as técnicas disponíveis, nem sempre será possível encontrar as melhores soluções. Não me custa a crer que assim seja, mas tal nunca serviu e continua a não servir de desculpa para ninguém se eximir ao cumprimento das suas obrigações.
Façam os senhores magistrados o que estiver ao seu alcance, passem as associações sindicais menos tempo a desculpar os seus associados, por um lado e a lançar, por sistema, as culpas para cima das costas de terceiros e estou certo que "outro galo cantará" no que respeita à sua "imagem". É que o "sacudir a água do capote" não só não resolve nenhum problema, como não fica bem a ninguém e menos ainda a quem não veste capote mas sim beca, que é todo outro traje, até pela dignidade que representa, ou era suposto representar.