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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

A hipocrisia em alta

«Se por estes dias os mercados têm estado altamente instáveis e em baixa, em contrapartida a hipocrisia política tem estado em alta. Um alemão, um holandês, um irlandês e um português, todos com elevadas responsabilidades, são a prova disso.

O alemão chama-se Wolfgang Schauble, é ministro das Finanças e a personalidade que verdadeiramente manda no Eurogrupo com mão de ferro. Na última semana, Schauble entendeu pronunciar-se duas vezes sobre a situação portuguesa. Num dia afirmou que “Portugal deve estar ciente de que pode perturbar os mercados financeiros se der impressão de que está a inverter o caminho que tem percorrido. O que será muito delicado e perigoso para Portugal”. No dia seguinte voltou à carga: “Portugal tem de fazer tudo para responder à incerteza nos mercados financeiros”. E acrescentou que Portugal ainda não tem “resiliência”.

Ora Portugal não terá resiliência e pode estar a inverter (pouquinho) o caminho austeritário que vinha trilhando. Agora imputar responsabilidades a Portugal pela perturbação dos mercados financeiros parece um bocadinho exagerado, sobretudo quando o maior e mais importante banco alemão, o Deutsch Bank, está no centro de uma brutal crise, que levou a que as suas ações perdessem 50% do seu valor entre agosto de 2015 e a atualidade; que existam sérios rumores de que o banco está com dificuldades em pagar os cupões de obrigações contingentes convertíveis; que tenha registado prejuízos de 6,8 mil milhões em 2015, o que não acontecia desde 2008; que tenha 1,2 mil milhões em ações de litigância no ano passado e que isso vá continuar por estar acusado de envolvimento na manipulação da taxa Libor e de suspeitas de fuga ao fisco; e de não estar a gerar resultados para pagar dividendos.

Sobre este “pequeno” problema, Wolgfang Sachauble disse simplesmente: “Não, não tenho receios em torno do Deutsch Bank”. Não, verdadeiramente o problema dos mercados e de Schauble é Portugal – e não um banco alemão que tem um papel central na Alemanha, a economia mais poderosa da zona euro, tão central que não existe comparação a nível mundial.

Provavelmente há uma relação umbilical: com mercados em baixa, a hipocrisia política está em alta. Quatro exemplos: Wolfgang Schauble, Jeroen Dijsselbloem, Enda Kelly e Pedro Passos Coelho

O holandês chama-se Jeroen Dijsselbloem, é ministro das Finanças do seu país e presidente do Eurogrupo. Consta que é socialista, mas disfarça bastante bem. Tem sido dos mais duros com os países do sul, em particular com a Grécia e agora com Portugal. É dos que mais combate a ideia de que possa haver uma alternativa à receita seguida de cortes em salários, pensões e no Estado social para enfrentar a crise. E no entanto, Jeroen, tão implacável com os mais fracos, tem prosseguido de forma metódica a consolidação da Holanda como um paraíso fiscal, onde estabelecem a sua sede fictícia as empresas dos países periféricos para aí pagarem impostos muito reduzidos dos lucros que obtêm nos seus mercados de origem, enfraquecendo ainda mais, do ponto de vista da receita fiscal, esses países. Mas sobre isto, não se ouve um pio do histérico Jeroen.

O irlandês chama-se Enda Kelly, é o atual primeiro-ministro, e está em plena campanha eleitoral, liderando uma aliança entre o Fine Gael e o Partido Trabalhista. O problema de Kelly é que as intenções de voto na sua coligação andam na casa dos 36%, longe dos 44% necessários para obter uma maioria absoluta. Kelly teme assim o que aconteceu em Portugal e está a acontecer em Espanha, no que toca às soluções governativas pós-eleitorais. E vai daí nada melhor do que apontar o dedo para aqui, gritar que somos um mau exemplo e que Portugal está a pagar um preço elevado – que classificou como “horrendo” – devido à instabilidade política que se terá instalado no país na sequência das eleições de outubro passado. “Não queremos ser como Portugal”, afirmou. E, claro, a luta é entre a estabilidade (Kelly) ou o caos (a oposição). A solidariedade europeia é desvanecedora.

Finalmente, por cá há um patriota a quem a possibilidade de investidores chineses entrarem no capital da TAP está a incomodar fortemente. Chama-se Pedro Passos Coelho e afirma: “não sabemos de que maneira é que o interesse público está definido e defendido.” Por acaso este Pedro Passos Coelho é o mesmo que foi primeiro-ministro de Portugal entre 2011 e 2015. Por acaso foi durante o seu consulado que a empresa pública chinesa China Three Gorges se tornou o maior acionista da EDP; que a chinesa State Grid se tornou, com 25% das ações, a maior acionista da REN – Rede Elétrica Nacional; que o grupo chinês Haitong comprou o BESI; que o grupo privado (?) chinês Fosun comprou a Fidelidade e a BES Saúde, hoje Luz Saúde…

Felizmente, nessa altura, Passos Coelho sabia muitíssimo bem de que maneira é que o interesse público estava definido e defendido. É uma pena que não tenha decidido partilhar essa definição e essa defesa com os seus concidadãos. Mas, claro, este caso da TAP é gravíssimo.
(...)»
(Nicolau Santos: "Da hipocrisia na política europeia e portuguesa", in Expresso de 15/02/2016. Destaque meu. Via)

terça-feira, 23 de outubro de 2012

O papel de Passos no jogo dos tabuleiros

Temos de jogar em dois tabuleiros. Estar totalmente disponíveis para cumprir e, em segundo lugar, trabalhar em paralelo para conseguir melhores condições e outros pressupostos que possam aliviar [o programa de ajuda financeira]” acrescentando que "Portas devia falar mais sobre a Europa
Ao comentar aqui estas afirmações do eurodeputado Paulo Rangel, admiti que este estivesse a dirigir uma "indirecta" a Passos Coelho pela sua manifesta falta de intervenção na cena política da União Europeia.
Inequivocamente, estava errado. Digo isto, porque o eurodeputado retoma o assunto numa crónica publicada no Público de hoje, intitulada "Gaspar, Portas e os dois tabuleiros" (sem link) onde o nome de de Passos Coelho nem sequer é citado, pelo que é lícito presumir que, para Rangel, Passos Coelho, pelo menos no plano em que se coloca, nem sequer existe. Se ele não "existe", é evidente que Rangel não poderia estar a dirigir a Passos Coelho, nem uma crítica directa, nem uma indirecta.
Erro meu. Assumo.

Mas vejamos, a traços largos, o que diz Rangel, na sua crónica : "Tenho escrito bastante sobre política geral na União Europeia, mas menos do que seria recomendável sobre a política europeia do Estado Português. E aí, de há muito que propus a adopção consciente daquilo a que chamo (...) a "doutrina dos dois tabuleiros".
"(...) O primeiro corresponde grosso modo, à política do "bom aluno"(...) A condução dos trabalhos neste tabuleiro cabe ao ministro ao ministro das Finanças (...)

A actuação neste tabuleiro, acrescenta Rangel, "não nos deve impedir nem nos impede de recorrer a um segundo tabuleiro. Um tabuleiro em que se joga, com impacto mais forte no imediato, a eventual mudança de algumas das condições dos programas de ajustamento (...) É aí, a meu ver, que entra o papel decisivo do ministro dos Negócios Estrangeiros, o qual se tem mantido demasiado discreto na condução dos assuntos europeus e, especialmente, na  apresentação da sua visão sobre a Europa"

E conclui Rangel: "Mostrar disponibilidade para cumprir o que nos é exigido, mas demonstrar que esse não será talvez o melhor caminho; creio que anda por aí a solução para mais uma crise da nossa independência. Oxalá, os ministros de Estado [Gaspar e Portas] a compreendam*.

Perante esta explícita referência aos dois ministros de Estado e a falta de menção à pessoa do primeiro-ministro, omissão que só pode ser levada à conta de ostensiva, porque é ao primeiro ministro que cabe definir as linhas gerais da acção governativa e coordenar toda a equipa ministerial, impõe-se a pergunta: neste jogo de tabuleiros, qual o papel atribuído papel atribuído por Rangel a Passos Coelho?
Aparentemente, nenhum. Em matéria de tabuleiros, Rangel, pelos vistos, reserva para Passos Coelho o papel de participante na "Festa dos Tabuleiros", em Tomar, papel este que Passos Coelho está apto a desempenhar, como o testemunha a fotografia supra.
(*Negrito meu)
(imagem daqui)

sábado, 29 de setembro de 2012

Ainda ficas a nadar em seco!


Uma pequena nota assinada por A.S. na página 9 do Primeiro Caderno do Expresso de hoje relata, ipsis verbis e sob o título 'PM disse "não" a Monti', o seguinte:

'Mario Monti convidou Passos Coelho, enquanto líder do PSD, para a reunião da Internacional do Centro (que inclui o PPE, de que o partido de Passos faz parte) mas o primeiro-ministro decidiu não ir a Roma. Passos alegou razões de agenda (nesse dia havia debate quinzenal na AR e Conselho de Estado). O líder do PS propôs por escrito adiar o debate caso o PM quisesse ir à reunião com os homólogos italiano e espanhol, mas o Conselho de Estado manteve o bloqueio da agenda. Só que Passos nem se fez representar em Roma. Fonte oficial explica: 'Não é a nossa praia'".

Já se sabia que a "praia" de Passos é lá mais para o lado das águas frias do Reno.No entanto, ninguém me tira a ideia de que Passos Coelho, ao desprezar as águas quentes do Mediterrâneo, está a correr o sério risco de, mais dia menos dia, ficar a nadar em seco, pois fica a depender inteiramente dos humores da senhora Merkel.