Não foi necessário ter nascido duas vezes. Uma vez bastou para não restarem dúvidas sobre a massa de que Cavaco é feito. O seu "discurso" não consente dúvidas: tem a indelével marca da duplicidade.
quinta-feira, 25 de abril de 2013
Endoidou ?
Tudo indica que sim. De facto, alguém que critica e se insurge contra a política de austeridade seguida pela União Europeia e que, ao mesmo tempo, a patrocina no país de que é, infelizmente, presidente da República, é porque não está no seu perfeito juízo.
Um novo 25 de Abril!
O deplorável discurso de Cavaco Silva proferido na Assembleia da República, na sessão solene comemorativa do 25 de Abril, mostrou, à saciedade, que Portugal não tem um Presidente da República, mas um presidente de facção, o que faz com que Portugal, com este governo e com a actual maioria Assembleia da República, se tenha transformado num um país sem qualquer perspectiva de saída para a crise, porque completamente refém da Direita.
Digo deplorável porque o discurso revela que Cavaco é hoje, tal como na anterior legislatura, um factor de divisão e não um fautor dos consensos que o próprio considera indispensáveis à ultrapassagem das dificuldades presentes. Tal ficou bem patente aos olhos de quem viu e ouviu os fartos aplausos da direita, perante a indisfarçável incomodidade e o repúdio por parte de todos os deputados sentados à esquerda do hemiciclo de São Bento.
É caso para nos perguntarmos se foi para isto (um Portugal sequestrado pela Direita mais reaccionária) que os Militares de Abril fizeram o 25 de Abril.
Portugal, está visto, está a precisar de um novo 25 de Abril. Venha ele, seja qual for o dia ou o mês do ano!
segunda-feira, 22 de abril de 2013
Ingratos
É isso: somos mesmo ingratos. Raro será o dia em que não surja alguém a lamentar que Portugal tenha um presidente da República chamado Cavaco Silva, tornado famoso pelos seus "avisos", tão frequentes quanto inúteis.
Cavaco Silva é, na verdade, acusado frequentemente de inacção, o que é uma flagrante injustiça, pois manda a verdade que se diga que Portugal nunca conheceu, desde o 25 de Abril, um Presidente da República tão interventivo. Forçado pelas circunstâncias, é certo, mas nunca tivemos, desde então, um Presidente que tivesse de empossar, semana sim, semana sim, novos membros do governo, o que é, obviamente, uma enorme trabalheira.
Trabalheira que se torna particularmente evidente neste caso: ainda Cavaco não está completamente refeito da última digressão pelo estrangeiro e já hoje tem que empossar mais uma mão cheia de secretários de Estado: uns quantos a preencher lugares vagos na sequência da última remodelação governamental e mais uns tantos a ocupar as vagas deixadas em aberto pela saída de dois secretários de Estado a quem é imputada parte da responsabilidade por mais um "buraco", entretanto descoberto, nas contas das empresas públicas, avaliado em mais de três mil milhões de euros.
E mais evidente ainda se torna o sacrifício de Cavaco quando se verifica que este acto de posse não passa de mais um episódio duma remodelação a conta gotas que não visa outro objectivo que não seja remendar um fato gasto e esburacado.
E sendo assim, é caso para perguntar se vale a pena o sacrifício de Cavaco. Olhando para os nomes de Francisco Almeida Leite e de Berta Cabral, diria eu que não, pois, se o pano já estava roto, mais roto vai ficar.
Façamos, pois, justiça a Cavaco: considerando a inutilidade da remodelação, muita paciência e espírito de sacrifício tem ele para aturar Passos Coelho. Como justa compensação, cabe aos portugueses aturá-lo a ele. Pelos vistos!
terça-feira, 16 de abril de 2013
"É a economia, estúpido"
O apelo dirigido aos bancos, por Passos Coelho, para reforçarem a concessão de crédito à economia teve resposta pronta por parte dos destinatários. Pronta e certeira: se o bancos não estão a conceder mais crédito não é por estrangulamento na oferta,, mas por falta de procura.
Como é evidente, a política arbitrária de austeridade a todo o custo, ao minar a confiança de investidores e consumidores, teve como consequência o arrefecimento e a recessão da economia, por via da queda do investimento e do consumo para níveis muito para lá do esperado.
E se o investimento e o consumo regridem, obviamente também a procura diminui.
Só não vê isto, quem é cego. Ou estúpido.
Tão estúpido que até o banqueiro Fernando-"aguenta, aguenta"-Ulrich se confessa perplexo, com as declarações do (ainda) primeiro-ministro.
Em troca de nada
"Em 2011 e 2012, o governo português programou retirar da economia, sob a forma de aumentos de impostos ou cortes da despesa, 18 mil milhões de euros; todavia, a redução efectiva do défice ficou abaixo de 5,8 mil milhões. Pelo caminho, desapareceram 12,2 mil milhões.
Tenho, por conseguinte, o orgulho de poder anunciar-vos que o nosso pequeno, mas engenhoso país ultrapassou estratosfericamente a façanha dos dois ingleses, queimando nos dois últimos anos uma quantia de dinheiro no mínimo 12 mil vezes superior.
A questão que convém esclarecer é esta: para onde foram esses 12,2 mil milhões?
Por força da política de austeridade aplicada, reduzindo-se a actividade económica, ficou a cobrança de impostos muito aquém do esperado; por outro lado, a quebra da actividade económica implicou mais despesa com subsídios de desemprego. A contrapartida real do desvario austeritário foi, pois, a destruição de riqueza nacional num valor próximo dos 6% do PIB.
Como, apesar da colossal dimensão do sinistro, a notícia passou relativamente despercebida dos portugueses, talvez seja indicado recordar mais devagarinho o que sucedeu: a carga fiscal atingiu níveis intoleráveis; reduziu-se a oferta dos serviços públicos; degradou-se drasticamente a sua qualidade; trouxe-se o desemprego para níveis record; cortou-se drasticamente o rendimento disponível das famílias; milhares e milhares de empresas fecharam as suas portas – e, apesar da escala da austeridade aplicada, foi mínimo o impacto de toda essa loucura sobre o défice público.
Por outras palavras, torrou-se dinheiro em Portugal numa escala e a uma velocidade nunca vistas ou imaginadas.
Pessoas preocupadas com a má despesa pública fulminam a rotunda supérflua, o pavilhão gimnodesportivo subutilizado, a estrada onde passam poucos carros. Mas em todos esses casos, ficou apesar de tudo alguma coisa que podemos ver e, se necessário, utilizar. Ao passo que a obra de Gaspar consiste apenas e só em queimar dinheiro numa pira funerária, provocando directa e activamente a degradação das condições de vida de milhões de pessoas. Destruição a troco de nada, portanto.
Por outras palavras, a delapidação de recursos eventualmente operada por anteriores governos é discutível, parcial e relativa, ao passo que a promovida por este é inquestionável, total e absoluta.
12,2 mil milhões de euros dariam para muitas aplicações simultâneas ou alternativas para todos os gostos e critérios: um novo aeroporto de Lisboa, uma mão cheia de hospitais e centros de saúde, completa renovação do parque escolar, centros de investigação, formação profissional, recapitalização da segurança social – enfim, uma infinidade de bens colectivos ao serviço do bem-estar das populações e do investimento produtivo."
(João Pinto e Castro; "Queimar dinheiro na praça pública")
Sublinhados meus. A ler na íntegra: aqui.
segunda-feira, 15 de abril de 2013
"Quem se mete por atalhos...
Apesar de haver, no partido, vozes autorizadas, como Paulo Rangel, que participou na elaboração da lei de limitação dos mandatos, que se têm manifestado no sentido de que a lei visa impedir, como forma de moralizar a gestão da res publica, novas candidaturas aos presidentes de/da Câmara (o "de" ou o "da" é, quanto a mim, irrelevante quanto à interpretação da norma legal) qualquer que seja a autarquia, o PSD, arrogantemente, resolveu atalhar caminho, não querendo saber das consequências e esquecendo-se, por certo, que cabe aos tribunais aplicar a lei aos casos concretos.
Para já, tem duas decisões dos tribunais a barrar caminho aos dinossauros autárquicos Fernando Seara (putativo candidato à Câmara de Lisboa) e Luís Filipe Menezes (indigitado candidato à Câmara do Porto).
Não se trata ainda de decisões definitivas, mas são já dois indícios que apontam para a inviabilização, pelos tribunais, das candidaturas que se apresentem nas nas mesmas condições. E bons indícios.
O PSD, ao atropelar a lei, só tem que se queixar de si próprio, pois, como diz o ditado, "Quem se mete por atalhos, mete-se em trabalhos".
sábado, 13 de abril de 2013
Matar a esperança, também não
"Falar de esperança não chega", diz Cavaco Silva.
E agir em desconformidade, matando a esperança, também não.
E agir em desconformidade, matando a esperança, também não.
quinta-feira, 11 de abril de 2013
A mais
O tão criticado, quanto estúpido, despacho congelador do ministro Gaspar revela um tal desnorteamento que é sinal evidente de que o governo de Passos, Gaspar & Portas já não é. Simplesmente está. A mais.
Falo em desnorteamento que é a melhor das versões, porque há quem diga que se trata de dramatização, ou de abuso do poder, o que, a meu ver, não melhora o julgamento. Antes, pelo contrário, porque, a ser assim, o governo não passa de um colectivo irresponsável que já não é, nem merece estar.
Em boa verdade, se, como diz o André Macedo e eu concordo, "a eleição deste Governo revelou-se um erro trágico", este governo nunca devia ter acontecido.
Em boa verdade, se, como diz o André Macedo e eu concordo, "a eleição deste Governo revelou-se um erro trágico", este governo nunca devia ter acontecido.
"Erro trágico"
"(...)
A eleição deste Governo revelou-se um erro trágico. Paradoxalmente, é a brutalidade da crise que o segura. Só um louco pode não ter medo da incerteza: os juros a galope, o pouco crédito que desaparece, os bancos que tremem, o segundo resgate que Passos tanto negou (e trabalhou para evitar), mas que agora usa como arma de manipulação maciça. Somos reféns de um primeiro-ministro perdedor e de uma oposição perdida. Assim estamos hoje, ninguém sabe onde estaremos amanhã."
(André Macedo; Que se lixe a economia; Na íntegra: aqui)
quarta-feira, 10 de abril de 2013
"Atrás de mim virá, ...
... quem de mim bem dirá."
Hoje, através de Baptista Bastos, em "A fraude e a barafunda":
"(...)
A intervenção do antigo primeiro-ministro suscitou uma espécie de erisipela na Direita e algumas angústias metafísicas em sectores socialistas. Comparando-a com as conhecidas, é mais contundente e menos hipócrita do que as de Marcelo e as do seu epígono Marques Mendes. Quanto ao programa do dr. Sarmento, a pequenez deste ficou no estado natural, aumentando, contudo, a índole do seu carácter ressentido e rancoroso. Transformá-lo no contraponto de José Sócrates é um disparate pegado.
(...)"
A cratera
Inesperadamente, dum dia para o outro, surgiu em terras de Marvão, uma cratera ou, melhor dizendo, um enorme buraco com a profundidade de mais de cem metros.
Os geólogos ainda andam à procura duma explicação, mas eu julgo não estar enganado se disser que se trata dum aviso da natureza, ou, se se preferir, da "Divina Providência": Portugal, caso o governo, com o apoio de Cavaco, continue a seguir a via da austeridade não só caminha para o precipício, como se arrisca a levar sumiço de vez. Para já, fica o aviso. Que é muito sério, pois só assim se explica a existência, não de um, mas de três sumidouros.
terça-feira, 9 de abril de 2013
Sem trela
Cavaco tirou-lhes a trela ou, se preferirem, deu-lhes rédea livre e os resultados não se fizeram esperar. Por despacho, Gaspar "proibe todas as entidades do sector público de assumir novos compromissos, sem autorização prévia da tutela".
As consequências também estão à vista e bem expressas no comunicado do Reitor da Universidade de Lisboa, António Sampaio da Nóvoa, intitulado Não é fechando o país que se resolvem os problemas do país.
Vale a pena ler.
Democrata, mas pouco
"Pedro Passos Coelho não gostou da decisão do Tribunal Constitucional que chumbou quatro normas do Orçamento do Estado de 2013. O seu descontentamento era previsível. O que não se esperava era que o primeiro-ministro usasse quase metade do tempo da comunicação que fez domingo à tarde ao país na sequência da decisão do Tribunal Constitucional para criticar o próprio Tribunal Constitucional.
Começou bem e disse o elementar: "É evidente que o Governo respeita e cumprirá as decisões do Tribunal Constitucional. Não podia ser de outra maneira num Estado de direito democrático que preza as suas instituições."
Mas nos dez longos minutos seguintes, o primeiro-ministro demonstrou justamente o contrário.
Tratou o Tribunal Constitucional como se fosse um parceiro com o qual se discute política ao mesmo nível, de igual para igual, escolhendo - num discurso preparado e escrito - um tom de desqualificação em relação ao mais elevado órgão do poder judicial do país que vai para além do incómodo ou do simbólico.
O primeiro-ministro poderia ter pedido desculpa por ter violado a Constituição (muito improvável, embora fosse do agrado de alguns constitucionalistas) ou poderia ter dito que agira em boa-fé e acreditava que nenhuma norma do seu Orçamento era inconstitucional (mas não seria credível). Ou poderia ter optado por falar sobre isso, mas pouco, e usar os 18 minutos de antena para dizer o que vai o Governo fazer na sequência do chumbo do Orçamento.
A estratégia do primeiro-ministro foi radicalmente oposta. Sem brilho, num tom punitivo e revanchista, Passos Coelho desfiou a sua longa lista de críticas. Sobre o Tribunal Constitucional não teve uma ou duas coisas a dizer. Teve 15. É este o rol: o Tribunal Constitucional não tem "grande realismo" nem "uma consciência aguda dos imperativos impostos" pelas actuais circunstâncias; as futuras alternativas "poderão" pôr em causa "valores importantes da Constituição"; a decisão "tem consequências muito sérias para o país"; "torna a posição portuguesa mais frágil" nas negociações com a troika; "introduz incerteza e imprevisibilidade"; "corre em sentido contrário à orientação estratégica de regresso aos mercados"; é "um risco para todo este processo"; "coloca obstáculos muito sérios à execução orçamental de 2013"; "torna problemática a consolidação orçamental para os próximos anos"; deixa a sétima revisão da troika inconcluída; bloqueia a transferência do montante previsto; torna "a vida dos portugueses mais difícil" e "o sucesso da recuperação nacional mais problemático" e, pelo meio, o primeiro-ministro ainda conseguiu deixar a ameaça no ar de que a decisão do Tribunal Constitucional pode vir a contribuir para a saída de Portugal do euro.
(...)
Mais do que se ter revelado como político, Passos revelou o seu entendimento da democracia portuguesa."
(Bárbara Reis, directora do Público; "Sou democrata, mas...". Na íntegra: aqui)
Ao serviço dos credores e dos interesses estrangeiros
"A defesa do território já não é o principal objectivo do novo Conceito Estratégico" escreve-se no Público de hoje.
A opção tem lógica: tal como o governo está ao serviço dos credores estrangeiros, sob a batuta da senhora Merkel, também às Forças Armadas passou a ser atribuída, como prioridade, a participação em missões de paz no âmbito da União Europeia (UE) e da NATO, relegando a defesa do território nacional para segundo plano.
Tem lógica, dizia eu, mas também seria lógico, em tais condições, que as despesas deste governo fossem custeadas pela senhora Merkel, em representação dos credores internacionais e que os custos com a manutenção das Forças Armadas portuguesas fossem pagos, em primeira linha, pela UE e pela NATO.
Mais um "buraco"
As exportações portuguesas regressam às quedas em Fevereiro, o que significa que a economia portuguesa continua a deteriorar-se, com naturais reflexos nas contas públicas. Por esta via, abre-se mais um "buraco" sob os pés do agressivo e vingativo primeiro-ministro.
Não sei a quem é que, desta vez, Passos Coelho vai atribuir as culpas, se ao Tribunal Constitucional (o bode expiatório mais recente) se ao sector exportador, mas já era boa altura para que quem de direito lhe fizesse saber que os sucessivos "buracos" são, em boa medida, fruto da sua incompetência e da do seu governo, criado à sua imagem e semelhança, bem como da sua pertinaz política de empobrecimento e, tirando daí as necessárias consequências, lhe apontasse o caminho da rua.
(reeditada)
(reeditada)
segunda-feira, 8 de abril de 2013
Eleições para lavar nódoas
"(...)Infelizmente não há, como para mentirosos os detetores de mentiras, máquinas para detetar os dead men walking. Se houvesse tal máquina, tal como a rapidez de responder apanha os mentirosos, aquela precipitação para os microfones mostraria o morto em pé, o condenado a caminho do cadafalso. Não interessa qualquer análise ao discurso, tudo é tarde para Passos Coelho, primeiro-ministro. O País já não o espera mais. A 6 de junho de 2011, dia seguinte a Passos Coelho ter ganho as eleições, escrevi aqui que, dada a crise, era este o caminho: "as obrigações de hoje (e do resto dos dias da nossa dívida) exigem uma larga maioria", um Governo comprometendo todos, PSD, CDS e PS, numa responsabilidade comum. Cínico, eu reconhecia na crónica que ela era para ser lida "daqui a seis meses"... Hoje, nem diria "daqui a quase dois anos" porque sei que protagonistas como Passos não entenderam nada. E é ele que apela, agora, à responsabilidade conjunta dos "partidos do arco da governação"! Ele que não entendeu que a política conjunta teria servido para que uns vigiassem os outros, porque política é isso, acordos. A ter havido política, o cortar a direito à la Gaspar não teria existido. Continuando a crise, e até com ela piorada, a solução, sim, é a mesma, de conjunto. Mas há que passar por eleições, para lavar os partidos das nódoas reveladas."
domingo, 7 de abril de 2013
Comporte-se como democrata, se for capaz, ou demita-se
Um alegado primeiro-ministro (que tem já uma longa carreira política, que iniciou como militante e presidente da JSD, e que já leva quase dois anos no exercício das actuais funções) que tem o desplante de fazer uma declaração como a que produziu hoje em que mais não fez de substancial que não fosse atacar a decisão do Tribunal Constitucional, atribuindo-lhe a responsabilidade pelo descalabro das contas públicas, fazendo de conta que o problema só surgiu agora e não por culpa da política de austeridade sobre mais austeridade do seu governo, é porque, além de ser irresponsável, também entende que a Constituição da República é papel de embrulho e porque não tem a mínima noção do que é a independência dos tribunais.
Em resumo, um tal primeiro-ministro, que assim se comporta, ainda não sabe o que é uma democracia, nem conhece as regras de funcionamento dum regime democrático. Logo, não sabe viver e muito menos governar em democracia.
É óbvio também que se Portugal tivesse um verdadeiro Presidente da República e não uma espécie de presidente da República, tal primeiro-ministro, a esta hora, estava já no olho da rua.
"Estamos fritos"
Reunir em Conselho de Ministros de urgência para no final produzir uma declaração que mais não faz do que zurzir na decisão do Tribunal Constitucional que, no fundo, se limita a reafirmar a doutrina já fixada anteriormente, sem apresentar uma saída para o sarilho em que se meteu ao reincidir em soluções já vetadas anteriormente; correr, de rabinho entre as pernas, até Belém, para ouvir umas palavras de conforto do "padrinho"; lançar, por interposto "padrinho", uns apelos lancinantes ao maior partido da oposição para que o ajude a sair da embrulhada fruto da política de austeridade "custe o que custar"; será próprio de um governo digno desse nome? Obviamente, que não.
E que dizer da actuação dum presidente da República que, perante a ultrapassagem de todos os limites dos sacrifícios, que, para ele, já tinham sido ultrapassados há dois anos, continua a defender a "legitimidade" dum governo só pelo facto de contar com uma maioria par(a)lamentar? Com este tipo de argumentação, bem pode o barco ir ao fundo que não será Cavaco quem o impedirá, sejam quais forem os rombos que o governo do "afilhado" provoque no casco do navio. Está visto.
Perante o descalabro a que o governo conduziu o país, em face dum governo que não sabe o que fazer, e na presença de um presidente da República que só leu e jurou uma pequena parte da Constituição, é óbvio que o país está numa situação de impasse. Ou, como alguém já disse, "estamos fritos". E não é em lume brando.
sábado, 6 de abril de 2013
Oxalá!
Acaba de ser anunciado, após a reunião do Conselho de Ministros em que foram analisadas as consequências do chumbo de algumas normas da Lei do Orçamento pelo Tribunal Constitucional, que Passos Coelho pediu uma reunião de urgência a Cavaco Silva.
Quem me diz a mim que ainda hoje vamos ter razões para comemorar o fim da Comissão Liquidatária (vulgo: governo) liderada pelo dito Coelho.
Oxalá!
Adenda:
Parece que ainda não é desta, mas não deve tardar. Por ora, o patrono não deixa. Pelos vistos, Cavaco ainda não se apercebeu de que quanto mais tarde pior.
Adenda:
Parece que ainda não é desta, mas não deve tardar. Por ora, o patrono não deixa. Pelos vistos, Cavaco ainda não se apercebeu de que quanto mais tarde pior.
sexta-feira, 5 de abril de 2013
Uma decisão salomónica
É óbvio que a decisão do Tribunal Constitucional (TC), referida nesta notícia, ao declarar como inconstitucionais algumas normas da Lei do Orçamento do Estado não facilita a vida ao governo de Passos Coelho, mas esperar o contrário seria pura estultícia, tão evidente era a enfermidade de que algumas dessas normas padeciam.
Em todo o caso, parece-me também evidente que o TC não foi tão longe quanto seria de esperar, o que, do meu ponto de vista, só pode ter uma explicação: o TC não se limitou a fundamentar a sua decisão em argumentos puramente jurídico-constitucionais, mas deu, sem dúvida, acolhimento a alguma argumentação de outra natureza. De base política, designadamente.
Explico-me:
Se, por um lado, considerou como inconstitucional a suspensão dos subsídios de férias dos funcionários públicos, trabalhadores do sector público e reformados, fê-lo, porque, em boa verdade, não podia, em coerência, tomar outra decisão, face à doutrina já firmada no acórdão sobre a mesma matéria em relação ao Orçamento de Estado para 2012. E bem se compreende que, desta feita, o TC não tenha limitado os efeitos da decisão, ao abrigo do nº 4 da Constituição, atento o desrespeito do governo pela doutrina anteriormente assente, desrespeito bem evidenciado pela reincidência governamental sobre a matéria.
Mas, por outro lado, é surpreendente que o TC tenha considerado como conformes à Constituição outras normas que os constitucionalistas consideraram, quase unanimemente, com feridas de inconstitucionalidade, como é, por exemplo, o caso da norma relativa à contribuição extraordinária de solidariedade (CES) incidente sobre as reformas acima de 1.350 €, norma que, a crer nas teses defendidas pela generalidade dos constitucionalistas, fere frontalmente o princípio da igualdade. E, assim sendo, não se vê, de facto, como é que, neste caso, a decisão pode ser explicada com base em argumentação puramente jurídica. Ainda que, naturalmente, não venham a ser explicitadas como tal, a decisão só pode compreender-se, cabalmente, à luz de considerações de outra natureza.
Recordo, a propósito, que, aquando da conferência de imprensa dada por Filipe Pinhal como representante de um grupo de ricos reformados (ou reformados ricos) a contestar a referida medida, não faltou quem tivesse afirmado que Pinhal, titular de uma reforma verdadeiramente milionária, estava a prestar um mau serviço à grande maioria dos reformados. Suponho que a decisão do TC sobre a matéria acaba de razão a quem fazia tal vaticínio. O risco de o TC poder ser visto como defensor dos interesses de reformados como Pinhal, pesou, sem dúvida, na decisão sobre a matéria.
É mais um caso em que paga o justo pelo pecador.
quinta-feira, 4 de abril de 2013
Um dia assim, assim
Miguel Carvalho, jornalista do Público não faz a coisa por menos: a demissão do ministro Miguel Relvas constitui, só por si, razão para proclamar que hoje é "Um bom dia para Portugal". Porque Miguel Relvas encarnava, escreve ele, "os principais vícios do Portugal videirinho, matreiro e disposto a todas as cumplicidades, a todas as negociatas e a todas as manobras de poder para fazer carreira."
Estou muito longe de alimentar tanto entusiasmo até porque as perguntas que ele faz ("porquê tanto tempo? Será que só agora Relvas deu conta da falta de “condições anímicas” para continuar? Será que Passos Coelho o manteve em funções apenas para mostrar que é ele quem manda e que não cede à vox populi? Será que a amizade urdida nos congressos laranja e cimentada nos negócios falou mais alto?" continuam por responder.
Daí que me pareça um perfeito contra-senso afirmar que "A decência regressou a São Bento". Como assim, se continuam por explicar as razões por que Passos Coelho permitiu que a novela da demissão de Miguel Relvas se prolongasse por tão largo tempo e se, entre os polémicos negócios em que Relvas esteve envolvido, se contam os da Tecnoforma, onde o seu "parceiro de dança" era, nem mais nem menos, que o ainda primeiro-ministro. Como assim, repito, se os dois (Relvas e Passos) até eram considerados como "irmãos gémeos"? Sendo assim, os vícios de um não serão, mutatis mutandis, os do outro?
A demissão de Miguel Relvas é uma boa notícia, mas "Um bom dia para Portugal? Não exageremos. Com alguma boa vontade poderá dizer-se que foi um dia assim assim. Nos tempos que correm, já não é mau.
A demissão de Relvas
Se a anunciada demissão do ministro dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, só peca por tardia, por razões sobejamente conhecidas, não é menos verdade que, com a saída de Relvas, o governo de Passos Coelho não fica menos fragilizado do que já estava. Se, do ponto de vista ético, a manutenção de Miguel Relvas era, de há muito, insustentável, também era voz corrente que Relvas era o braço direito do primeiro-ministro Passos Coelho que, se "impreparado" já era, mais desamparado fica. E, com ele, naturalmente todo o governo que, não tendo caído com a moção de censura, se vai, no entanto, esboroando cada vez mais aceleradamente.
Mais um abanão, e cai. Haja esperança.
quarta-feira, 3 de abril de 2013
Um governo de "sucessos"
Derrotada a moção de censura apresentada pelo PS, o governo de Passos, Gaspar & Portas manter-se-á, por ora em funções. Assim o decidiram os deputados da maioria (PSD/CDS) que, pelos vistos, entendem que o governo vai no bom caminho. Terei de estar de acordo, se falhar todas as metas acordadas for sinónimo de êxito e se por "bom caminho", se entender o caminho para o precipício.
O governo, de facto, é já recordista em "sucessos" vários: no número de desempregados; no aumento da pobreza e da exclusão social; no aumento, em tão curto espaço de tempo, da dívida pública; na queda, no mesmo espaço de tempo, da economia; e no aumento de impostos.
Não sei de que mais precisam os deputados da maioria para concluir que este governo é uma desgraça que o país dificilmente pode suportar por mais tempo.
Pelos vistos, não será mais este "sucesso" (Número de casais desempregados atinge valor mais elevado de sempre) que é mais um recorde, que os fará abrir os olhos, mas esse dia, duma forma ou doutra, terá que chegar.
Censurado
Ainda que, previsivelmente, a moção de censura apresentada pelo PS seja derrotada pelos votos contra dos partidos da maioria, uma coisa coisa é certa: o governo de censurado por todas as oposições já não passa. E não é menos certo que, caso os parlamentares do CDS votem contra a moção, como se anuncia, Paulo Portas não mais pode dizer que tem as mãos limpas da "porcaria" que este governo é e faz.
E, claro, Cavaco já não pode escusar-se a intervir, sob o pretexto da existência de um vasto consenso. Este já não existe. Felizmente.
terça-feira, 2 de abril de 2013
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