quinta-feira, 11 de julho de 2013

Conselheiro matrimonial

Cavaco Silva, como presidente da República tem nas mãos o poder formidável de dissolver a Assembleia da República para assegurar o regular funcionamento das instituições, funcionamento que, na sua perspectiva, tendo em conta a sua declaração de ontem, não está assegurado.
Em vez de exercer tal poder, armou-se em conselheiro matrimonial indo ao ponto de patrocinar um  casamento a três. Não podendo ignorar as mais que evidentes incompatibilidades dos parceiros de tão estranho casamento, devia saber que tal união era, nas actuais circunstâncias, uma vera impossibilidade, até porque o proposto "compromisso de  salvação nacional" a ser aceite por um dos parceiros convidados (o PS) significaria mais ou menos a destruição deste. Nem Seguro é tão tolo que não consiga antever o resultado.
Está, pois, mais que visto que a ideia de Cavaco não tem pés para andar, e, por isso, o PR está metido numa grandíssima embrulhada donde não estou a ver como é que ele vai conseguir sair de forma airosa.
Uma vez que recusa a dissolução imediata da Assembleia da República, limitando por essa forma  as suas possibilidades de actuação e sabendo-se que continua a haver uma maioria que apoia o governo na Assembleia da República da qual o governo depende politicamente, como Cavaco tem feito questão de lembrar repetidamente, o PR tem que engolir a "refundação" do governo nos termos que lhe foram propostos e não tem forma de evitar essa humilhação. Se já é um presidente enfraquecido e se as coisas chegarem a esse ponto (e tal é perfeitamente possível, por sua exclusiva culpa) é óbvio que Cavaco deixa de contar seja para o que for.
Não passará, então definitivamente, de um verbo-de-encher que ninguém levará a sério.

Bem me enganou esta "santa"!

"A presidente da Assembleia da República lida muito mal com contrariedades. Lida pior com desafios ao seu autoritarismo. E não suporta as manifestações de descontentamento popular que, volta e meia, acontecem na hemiciclo de São Bento.
Esta tarde, 11 de julho, perante um numeroso grupo que nas galerias gritava "demissão!", Assunção Esteves não se enervou apenas. Fez uma sugestão, uma declaração e uma citação.
A sugestão foi que se repensasse a possibilidade do público deixar de ter acesso à casa da democracia. A declaração foi a de que "não fomos eleitos para sermos amedrontados, desrespeitados". E a citação foi de Simone de Beauvoir: "Não podemos deixar que os nossos carrascos nos criem maus costumes".
Beauvoir escreveu esta frase a propósito da opressão nazi sobre os franceses durante a II Guerra Mundial. Equiparar cidadãos portugueses que se manifestavam na casa da democracia a torturadores e carrascos nazis é inadmissível - e é totalmente inaceitável que seja a presidente da Assembleia da República a fazer essa comparação.
O povo português merece seguramente um pedido de desculpas por parte de Assunção Esteves. E quem em democracia tem medo do povo, não merece seguramente ocupar o segundo cargo na hierarquia de um Estado democrático."
(Nicolau Santos; "Os carrascos de Assunção Esteves". Aqui)

Um beco sem saída

Paulo Portas fez uma birra, Passos Coelho armou em parvo ao recusar a demissão de Portas e ao não promover a sua imediata substituição e Cavaco Silva, tarde e as más horas, entendeu que era tempo de acabar com a brincadeira.
O que levou Cavaco, que ainda há dias manifestara enfaticamente a sua confiança no executivo de que era, aliás, forte esteio, a distanciar-se da solução governativa proposta é ainda um mistério, mas não será despropositado, julgo eu, chamar à colação a carta de demissão  do "impressionante" e arrogante ex-ministro Gaspar, onde este deixou claro que o plano de ajustamento falhou e que o governo de Passos não tem condições para o levar a bom termo, ou então, é outra hipótese, Cavaco tem na sua posse dados que demonstram que a situação é bem mais grave do que a propalada pelo governo e  a divulgada pelos media que o governo, duma forma ou de outra, controla.
Fossem quais fossem as suas motivações, Cavaco tinha à mão duas formas de resolver a situação com clareza, independentemente de poder serem consideradas boas ou más, consoante a perspectiva dos vários actores políticos e dos cidadãos em geral.
Optou por uma terceira via, absolutamente surpreendente, que, além de nebulosa, foge, por inteiro, ao seu controlo e e que, por isso mesmo, mais não é do que um beco sem saída.
Melhor dizendo, há uma saída, pressupondo que os actuais governantes são uns homenzinhos. Efectivamente, perante a desconfiança manifestada por Cavaco na actual fórmula governativa, desconfiança que se traduz numa desautorização clara do actual executivo, se Passos Coelho fosse homem à altura das circunstâncias só tinha um caminho a seguir: pedir de imediato a sua demissão. Não o fazendo, pode antecipar-se com toda a segurança que os tempos de instabilidade vieram para ficar, com todas as consequências perniciosas que não são difíceis de adivinhar. A tal respeito convirá que não tenhamos ilusões. A degradação da situação atingirá tais proporções que é mais que certo que a curto prazo os portugueses serão chamados a pronunciar-se. O real tem horror ao vazio, como suponho que já alguém disse e o  vazio está mesmo à frente dos nossos olhos.

Ainda não foi desta que Cavaco acertou o passo com o interesse do pais.

Não se pode negar que Cavaco Silva conseguiu surpreender toda a gente, a começar pelo governo Passos/Portas que viu recusada a proposta por ele apresentada para solução da crise. Manifestamente, Cavaco Silva, que até agora tem servido de esteio a este execrável governo, já não acredita que a actual coligação governamental seja capaz de "entregar a carta a Garcia". Infelizmente, porém, não tira daí as consequências que se impunham. Para ser consequente com a desconfiança que agora tardiamente veio manifestar, é óbvio que teria de dissolver a Assembleia da República e convocar eleições legislativas a realizar no mais curto espaço de tempo possível.
Em vez disso, opta por propor um acordo entre os partidos do impropriamente designado "arco da governação",  remetendo a realização das eleições para o período pós-troika.
É manifesto que a solução proposta por Cavaco Silva não tem a mínima hipótese de concretização, a menos que o PS, seguindo o exemplo de Paulo Portas, venha também ele a dar o dito por não dito, hipótese em que não consigo acreditar. Trata-se, pois, de um caminho sem saída, pois nem o PS quererá cometer suicídio, nem o Cavaco tem meios para impor o acordo.
Acrescente-se, entretanto, que, independentemente da possibilidade  de vir a concretizar-se, ou não,  o acordo proposto, a fórmula avançada pelo PR para resolver a crise política não só tem todos os inconvenientes associados por Cavaco à realização imediata de eleições antecipadas, como os agrava.
De facto, a recusa de Cavaco em aceitar a solução que lhe foi proposta por Passos e Portas tem o indiscutível significado de que ele já não reconhece, nem força, nem legitimidade ao governo formado pela actual coligação PSD/CDS. O governo que já era um "cadáver adiado", mais fraco ainda ficou. Não se vê, por isso, que vantagens haverá em prolongar-lhe artificialmente a vida. Os inconvenientes, pelo contrário são bem visíveis e mais que muitos, pois a situação de crise política vai manter-se e o governo, depois desta recusa, não passa de um governo de gestão. mesmo que formalmente o não seja. Não me parece que seja uma solução que agrade à troika, aos parceiros europeus e aos investidores em geral, ou seja a todos aqueles cuja reacção Cavaco teme.
Decididamente, Cavaco Silva,  um dos maiores responsáveis pela situação de desastre a que o país chegou pelo apoio até agora dado à política seguida por este governo, não há maneira de acertar o passo com os verdadeiros interesses do país.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Desfeito em cacos

Diz-se que "o silêncio é de ouro" e consta que Cavaco vai quebrar o silêncio ás 20 horas e 30 minutos.
Conhecidos os antecedentes e sabendo-se que Cavaco, depois de se ter cansado a ouvir partidos e parceiros sociais, já não vai dar-se ao trabalho de convocar o Conselho de Estado, pode já antecipar-se facilmente a decisão: Cavaco vai abençoar, uma vez mais, a partilha do poder pela dupla responsável pelo desastre actual, dupla que, desde a primeira hora, tem contado com o seu empenhado patrocínio e a sua conivência. 
A decisão não tem nada de surpreendente, por muito que desagrade a milhões de portugueses, para os quais a decisão significa que o nosso "ouro" (a esperança em melhores dias) já em grande medida estilhaçado, com a quebra de silêncio por parte de Cavaco vai ficar de vez desfeito em cacos.

Que Portas não se lembre de voltar a pôr, tão cedo, os pés na América Latina

Paulo Portas arrisca-se, com a sua decisão de recusar a escala, em território português, do avião do Presidente boliviano, Evo Morales,  a ser "queimado" como tem vindo a acontecer com a bandeira portuguesa, um facto inédito, em tais paragens.
Para não importar um problema, como ele disse na Assembleia da República, Portas, enquanto ainda ministro demissionário do governo, criou sérias dificuldades no relacionamento a curto e a longo prazo com os países da América Latina. 
Obedecendo às pressões do "amigo" americano, Portas, ao impedir "a importação do problema", até pode ter seguido a orientação do governo no que respeita à restrição das importações, mas esqueceu o pormenor de que os países da América Latina além de serem países amigos (sem aspas) estavam a ser, no seu conjunto, um destino cada vez mais importante para as exportações portuguesas.
Mesmo pondo de parte a relação import/export, a decisão de Portas só pode ser vista como desastrosa. A imagem de Portugal ficou indelevelmente manchada em toda a América Latina. Que outra razão pode haver para a bandeira portuguesa andar ali a ser queimada, a não ser para lavar a mancha?
O respeito e a amizade dos outros povos não se alcançam sem tempo e sem esforço. Para os destruir basta uma decisão impensada e mal explicada, como esta.
No deve e haver da política, Portas, com esta decisão, saiu a perder. Se Portas, que já é consensualmente tido como um político não confiável, com esta decisão, revelou que a sua inteligência, melhor dito, a sua esperteza também não está à altura da fama.
Diga-se que pouco importa que Portas não tenha ganho louros com a decisão que tomou, porque o que releva é o facto de Portugal ter perdido a amizade e o respeito de um sem número de países duma parte do globo muito importante para a diplomacia portuguesa.
Se este governo tiver alguma dúvida sobre este ponto, que faça a experiência. Candidate-se a um qualquer lugar com importância na cena internacional e veja se consegue repetir os êxitos alcançados durante os Governos de José Sócrates.
À cautela, digo eu, o melhor é nem tentar. Os bons tempos daquele tempo já eram!

terça-feira, 9 de julho de 2013

Uma vergonha!

Esfalfa-se Cavaco a ouvir partidos, governador do BdP, e parceiros sociais para decidir a forma de resolver a crise política desencadeada pelas demissões de Gaspar e Portas, mas tal é a consideração que as instâncias europeias têm pelo presidente da República de Portugal que dão como já resolvido o assunto, ainda antes de Cavaco abrir a boca. 
Tal é o ponto a que se chegou na falta de respeito pela soberania portuguesa e pelas instituições que a representam, a começar pela Presidência da República! Uma vergonha, para quem assim nos trata e para quem, sem ao menos um reparo, se deixa tratar desta forma: Governo e Presidência da República!
(Imagem do Jornal de Negócios, roubada aqui)

A urgente reforma do Estado

Um Estado que permite, por um lado, que um chantagista assuma formalmente, na sequência da chantagem, o cargo de vice-primeiro-ministro e, de facto, as funções de primeiro-ministro e que, por outro lado, atribui a um "impressionante" ex-ministro das Finanças, confessadamente falhado, o lugar de consultor especial do Banco de Portugal, onde lhe está já a ser preparado um gabinete, supostamente também especial, é, sem margem para dúvidas, um Estado carecido de urgente reforma.
A pouca vergonha é tanta que nunca a reforma foi tão necessária. Porém e seguramente, a indispensável reforma não vai acabar com a pouca vergonha, porque a anunciada reforma vai por outro caminho. Um caminho que é mais uma vergonha a acrescentar a tantas outras e que só com a remoção do actual governo se poderia evitar.
Uma impossibilidade, como já se sabe, enquanto o actual inquilino ocupar o Palácio de Belém.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

"Em terra de cegos, quem tem um olho é rei"

A chantagem desencadeada com a demissão (irrevogável, mas pouco) de Paulo Portas do cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros só produziu efeito porque o chantageado não passa de uma nulidade agarrada ao "pote" como uma lapa. 
A dimensão das cedências, com a entrega a Paulo Portas do controlo da economia, das finanças e do relacionamento com a troika, não só transforma o ministro demissionário no verdadeiro primeiro ministro, como revela o que de há muito era evidente: Passos Coelho nem sequer é um líder "impreparado". É um líder de coisa-nenhuma.
Temos assim, que o êxito de Portas vem uma vez mais confirmar que "Em terra de cegos, quem tem um olho é rei".
Com a coordenação política das pastas governamentais mais relevantes entregues a Portas, a que tarefas se pode dedicar, a partir de agora, o indivíduo que formalmente continua a ostentar o título de primeiro-ministro ? 
Para dizer a verdade, não sei.
O que me espanta é a falta de reacção do PSD à humilhação sofrida pelo seu partido às mãos de Portas. Será que a  fraqueza do líder também afecta as "tropas", ou, mais prosaicamente, tudo se aceita desde que cada um salve o seu "tacho"?
(reeditada)

Cristo terá sido convidado?

Pelo que relatam os Evangelhos, Jesus Cristo, enquanto andou cá pela terra, viveu entre os marginalizados,os pobres e os pecadores e nunca conviveu, tanto quanto se sabe, nem com Pilatos, nem com os demais dignitários do seu tempo.
Assim, pois, se alguma coisa se pode dizer a propósito da entrada solene do novo patriarca de Lisboa, rodeada de toda a pompa e circunstância, contando com a presença de Cavaco Silva, Passos Coelho, Paulo Portas, Mota Soares e outras figuras do regime, alegadamente, com o estatuto de convidados, é que  todo este aparato está em completa desconformidade com a pregação e a prática de Jesus Cristo.
Não admira, por isso, que Cristo não tenha comparecido. Pelo menos, ninguém o viu, nem há registo fotográfico da sua presença física.
Terá sido convidado? Por certo que não, pois até o novo patriarca sabe que Cristo se sentiria, no mínimo, desconfortável em tal ambiente e numa tal companhia, sendo mesmo muito provável que acabasse por expulsar os vendilhões do templo. 
Um mau começo, Manuel Clemente.

sábado, 6 de julho de 2013

Casa de orates

É altamente improvável, dados os antecedentes e o  comprometimento de Cavaco com este governo e com a política de austeridade por ele prosseguida, que o actual presidente da República não venha a sancionar o acordo a que terão chegado os desavindos partidos da coligação, entretanto  aparentemente reconciliados, não se sabe por quanto tempo.
Cavaco invocará a necessidade de preservar a estabilidade governativa, pese embora o facto de o governo continuar entregue a dois protagonistas (Pedro e Paulo) que já deram provas de que com eles tal objectivo não é alcançável, porque um é um líder incapaz, autêntico "boneco de palha", no dizer de Pedro Bidarra e o outro é o protótipo de político não fiável, como os seus recentes ditos por não ditos amplamente comprovam. Limitar-se-á, pois, Cavaco. a repetir a lengalenga de que o governo não depende politicamente do PR, não lhe cabendo a ele derrubar o governo.
Paradoxalmente, Cavaco, em nome da estabilidade, vai, pois, na verdade, perpetuar a actual situação de instabilidade, uma vez que o país vai continuar a ter à frente dos destinos do país, com toda a probabilidade, os dois principais responsáveis pela política de desastre que está em vias de transformar o país num sítio infrequentável para a grande maioria dos portugueses, como já o é para milhares de cidadãos, sobretudo para os pobres, os desempregados e os jovens, tantos deles forçados a emigrar para sobreviver.
Aos olhos de muita gente (v. comentários parcialmente transcritos em vários "posts" aqui publicados durante o dia de ontem) a manutenção deste governo, remendado ou não, com Portas ou sem Portas ,parece uma loucura, mas não é de estranhar que tal venha a acontecer quando estes governantes estão a transformar o país numa casa de orates e a loucura, pelos vistos, é contagiosa. 
Com a crise política desencadeada, nos últimos dias, pelo próprio governo, Cavaco teve uma excelente oportunidade para se redimir perante o país dos erros entretanto cometidos, erros que começaram com o derrube do anterior Governo por ele escandalosamente patrocinado e que prosseguiram com a colagem excessiva à actual fórmula governativa, tornando-se, por esta via, também responsável pelo completo falhanço da política prosseguida pelo governo, falhanço que é hoje inquestionável por alguém de boa fé, uma vez que foi reconhecido, sem ambiguidades, pelo ex-ministro das Finanças, Vítor Gaspar, um dos seus principais mentores. 
Duvido que Cavaco venha a ter uma oportunidade tão boa quanto esta para evitar que se lhe cole definitivamente a imagem do pior presidente da República que Portugal já teve, em tempos de democracia.
Dir-se-á que o problema é dele, o que só em pequena parte é verdade. De facto, quem sofre as consequências dos seus erros e omissões é o país e não estou a ver como é que se livram dessas consequências todos cidadãos obrigados a permanecer nesta casa de orates, por falta de alternativa. Fecha-se a "loja"? 

A causa das cousas

A explicação por António Costa

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Eleições já ! (VI)

"(...)
Internamente ninguém acredita nesta trupe de trapezistas e contorcionistas que nos entedia em degradantes espetáculos. Externamente, perdemos capacidade política para negociar o que quer que seja. Todos sabíamos que chegaríamos aqui. Nem todos imaginavam era que fosse tão depressa. É por isso que, à falta do guionista mexicano, é imperiosa a intervenção do presidente da República. Até porque se Cavaco Silva dizia há tempos que não podemos juntar uma crise política a uma crise económica tem agora todos os condimentos para finalizar esta novela."
(Alfredo Leite; "Bem-vindos ao Circo Portugal". Na íntegra: aqui)

Eleições já ! (V)

1. A pior coisa que nos pode acontecer neste momento é ficarmos tolhidos pelo medo. O facto é claro desde 15 de setembro: os portugueses não querem Passos Coelho nem as pessoas que pensaram ser possível fazer a TSU. Uma ideia tão absurda como esta, face à realidade do país, eliminou a credibilidade do primeiro-ministro para liderar Portugal. Até Gaspar o compreendeu quando se quis demitir em outubro. Passos deve sair o mais urgentemente possível de cena. Só mesmo ele não percebe que se tornou o principal entrave para sairmos desta crise política. Mas como não parece perceber, alguém tem de lhe fazer um desenho. Ou seja, a rua. Passos está à espera de ser vítima da revolta popular. Vai lançar a polícia de choque contra manifestantes revoltados pela falta de legitimidade de quem quer manter-se no poder a todo o custo. Senhor primeiro-ministro: quer que isto vire definitivamente a 'Grécia', humilhando-nos internacionalmente ainda mais?

2. Sejamos lúcidos: façamos eleições já. A economia privada e exportadora vão tentando remar contra a maré mas Passos e Gaspar conseguiram sempre tornar mais difícil o que já era hercúleo. Quanto mais cedo se clarificar isto, melhor. Um novo ciclo não tem de ser pior do que a situação atual. Estamos sob a 'proteção' do empréstimo da troika até setembro de 2014 - antes de chegarmos aos mercados. Não precisamos de crédito já. Não estamos a sofrer com as "subidas" dos juros de ontem - é falso, é virtual! Façamos isto já porque há liquidez nos cofres do Estado para aguentar as contas até ao fim do ano e entretanto teremos um rumo diferente que os mercados acabarão por valorizar - se tivermos uma estratégia. (...)

3. O ponto central é que não há investimento nem confiança com este primeiro-ministro e este projeto de Governo - e isso é que é decisivo. "Esta estabilidade" não nos dará taxas de juro melhores para a dívida portuguesa se não houver crescimento e emprego. E é mentira que percamos tudo o que sofremos até agora só por irmos para eleições. Se continuarmos assim é que a troika fica cá para sempre.

(...)

8. Este não é um tempo para meias-medidas e meias-palavras. Este Governo acabou. Se não for a bem, infelizmente vai ser a mal.

(Daniel Deusdado; "Sem medo, pânico ou resignação". Na íntegra: aqui)(Destaque por minha conta)

Eleições já! (IV)

"(...)
Exigir eleições, nestas circunstâncias, é exigir o mínimo de decência. É combater o sequestro de um país inteiro por um pequeno grupo de experimentalistas delirantes ao serviço de uma pequena elite financeira com a cumplicidade chocante do Presidente da República. A coisa é simples: Portugal não tem governo, precisamos de eleições para preencher esse vazio indisfarçável. Tudo o resto é insulto para a democracia."
(José Manuel Pureza; "Réquiem"; Na íntegra: aqui)

Eleições já! (III)

"Convenhamos que não faz qualquer sentido um primeiro-ministro escolher a ministra das Finanças sem ter, previamente, merecido a concordância da liderança do parceiro da coligação. Não faz mesmo qualquer sentido...
E, muito embora tenha, desde sempre, sido dos que, na área do Partido Socialista ( que o mesmo é dizer, da social-democracia ), se mostraram a favor da manutenção do actual Executivo até ao final do mandato, não vejo como se apresenta possível, nas presentes circunstâncias, evitar eleições antecipadas.
Que as mesmas representam um custo elevado para o País, é verdade. Mas, quais são, neste momento, as alternativas? Um Governo de iniciativa presidencial? Se há alguma certeza sobre o que o Presidente pensa acerca do exercício das suas funções, é que entende que não deve substituir-se aos partidos e ao Poder Executivo.

(...)
O Governo caiu. O Governo PSD-CDS já não existe. E, por conseguinte, goste-se ou não da solução, não me parece que exista qualquer alternativa à realização de eleições. Mas, convirá, em primeiro lugar, sublinhar a actuação inaceitável do Primeiro Ministro. Jamais deveria ter proposto para o lugar de Ministra das Finanças alguém que não merecia o apoio do parceiro da coligação. É de uma irracionalidade total, completa e absoluta, para além de condenável ao nível dos valores. Em segundo lugar, convém sublinhar a actuação infeliz, para não dizer desastrosa, de sua excelência o Presidente da República.
(...)
(António Rebelo de Sousa; "Sem sentido". Na íntegra: aqui) (Destaque da minha conta)

Eleições já! (II)

"(...)
Este Governo está a implodir, e por culpas apenas próprias. Por muito que quem tem o poder a ele se queira agarrar é inevitável que, senão já, a muito breve trecho, o Governo se demita, ou que seja dissolvida a Assembleia da República. Vamos, mais dia menos dia, para eleições. Não acaba aí o Mundo. O fim da história não chegou. A ‘troika' esperará pelas eleições e falará com quem as ganhar. A Europa também. Os países em assistência ou perto dela já todos passaram por eleições e não houve nenhum dos cataclismos com que agora nos acenam.
Sabendo-se que teremos de ir para eleições, o melhor momento é já. Duas razões: os investidores gostam de tudo, menos de incerteza, e quanto mais cedo souberem com quem vão ter de lidar melhor e, neste momento, há liquidez para um ano e não vamos ter nenhuma ruptura de pagamentos. O Orçamento do Estado seria apresentado mais tarde e entraria só em final de Janeiro ou início de Fevereiro. Mas daí também não virá nenhum mal ao Mundo. Antes isso que este Governo apresentar um Orçamento para 2014 e depois haver eleições e só termos um orçamento de 2014 definitivo muito mais tarde.

(...)"
(Marco Capitão Ferreira; "A brigada do reumático". Na íntegra: aqui. Destaque meu)

Eleições já! (I)

"(...)
Com este cenário, ao fim de três dias e múltiplas reuniões, Passos Coelho e Paulo Portas continuam a brincar à política partidária e incapazes de apresentar uma solução. Hoje foi mais um dia sem Governo. E, se alguma surgir, será sempre fraca e má. A ruptura dentro da coligação é profunda e, mais importante, os portugueses perderam o respeito por este Governo. Mesmo que continue em funções, não terá força, nem apoio, para fazer as reformas necessárias para tirar Portugal da crise. Por tudo isto, só há uma solução para este imbróglio: eleições, o mais rapidamente possível."
(Bruno Proença; "Eleições já". Na íntegra: aqui)

O problema

quinta-feira, 4 de julho de 2013

A "brincadeira" continua

Dizem que Paulo Portas (PP) é muito inteligente. Pode ser, embora as suas atitudes mais recentes indiquem  precisamente o contrário. Em qualquer caso, do que não restam dúvidas, é que PP não é consequente, ao dar o dito por não dito. 
O impossível, há dois dias, está a caminho de se tornar viável, visto que, ao que se anuncia, as negociações para manutenção da coligação governamental estão bem encaminhadas, tudo apontando para a hipótese de Portas vir a assumir a pasta da Economia.
Se as divergências entre Passos e Portas eram assim tão fáceis de resolver, muito  se estranha que não tenham sido resolvidas atempadamente. A remoção do "Álvaro" da pasta da economia, reclamada desde a primeira hora, nunca foi obstáculo de monta.
Os factos demonstram à saciedade que Passos e Portas não têm um mínimo de sentido de estado; que Passos não vê um palmo à frente do nariz; e que Portas não é de fiar. Remendado ou não, o governo perdeu de vez a credibilidade e a instabilidade veio para ficar. Se Cavaco persistir em apoiar esta solução governativa, é mais que certo que a "brincadeira" vai continuar.
(imagem daqui)

Os dias contados

Quando um jornal como o "Público" escreve em editorial que "O Governo tornou-se uma vergonha ambulante" e que "se continuar será um factor de instabilidade", é sinal de que o governo de Passos & Portas tem os dias contados.
Se os líderes dos dois partidos da coligação governamental tivessem em alguma conta o interesse nacional e a credibilidade externa do país, Passos, em vez de se agarrar ao poder com os braços que já não tem, teria, de imediato, pedido a sua demissão de primeiro-ministro, seguindo o caminho deixado aberto pela demissão de Paulo Portas. De facto, é hoje evidente que, quaisquer que sejam os remendos deitados no pano roto, a credibilidade, a legitimidade e a autoridade deste governo estão definitivamente postos em causa.
Espera-se, por isso, em nome do interesse nacional e da credibilidade externa do país, que Cavaco não volte a dar a extrema-unção a este governo moribundo. Se insistir em manter o governo (remendado ou não) em funções, só estará a contribuir para lhe prolongar a agonia. Com consequências desastrosas para o país, consequências, que, de resto, estão já bem à vista.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Giroflé, flé, flá!

Sobre Passos Coelho já ouvimos, da boca de dirigentes do CDS e em vários tons, que é um primeiro-ministro "impreparado" e "incompetente", ideia que, tendo em conta a carta de despedida do ex-ministro Gaspar e por ele tornada pública, parece também ser partilhada pelo "impressionante" ex-ministro das Finanças.
Mas o  que dizer de um partido como o CDS que depois Paulo Portas, o líder do partido, ter anunciado a sua demissão de ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, afirmando tratar-se de uma decisão irrevogável, aceita renegociar a coligação, mandatando (imagine-se!) o mesmo líder que acaba de bater com a porta,  para se reunir com o "incompetente" Passos Coelho de forma a encontrar uma "solução viável do Governo"?
Esta gente, com Paulo Portas à cabeça, como é óbvio, anda por certo a brincar com a vida dos portugueses e a comissão executiva que tomou tal decisão só pode ser encarada como uma cambada de garotos reunidos num jardim infantil apostados em continuar com a brincadeira.
Haja quem ponha termo à brincadeira, porque a governação do país não não pode estar entregue a esta garotada. 
Haverá? Em circunstâncias como as actuais é que se nota a falta que faz um Presidente da República. Com Cavaco, pelo menos até agora, não houve.
(reeditada)

Sobre a destruição em curso

Há, ou não há, Presidente da República?

"Passos Coelho e Paulo Portas podem querer continuar a reclamar terem ganho a batalha da credibilidade externa do País. Mas aprestam-se para deixarem os juros da dívida pública nacional de novo bem acima dos 7%, acompanhada de um exército de desempregados, um défice ainda descontrolado, um endividamento crescente, uma espiral recessiva instalada, centrais sindicais na rua e confederações patronais unidas na recusa deste caminho para a economia.
Esta é a realidade - e ela desmente o discurso do primeiro-ministro, que tem da ação do seu Governo uma perspetiva delirante.
É obvio que esta crise é má para Portugal. Mas sendo Passos Coelho e Paulo Portas os únicos responsáveis pelo que se está a passar, um elementar sentido mínimo de bom senso deve aconselhá-los a saírem de cena muito rapidamente. Se lhes faltar isso, resta esperar que Cavaco Silva saiba sair do estado de hipnotismo em que entrou e acabar com a palhaçada. O pós-troika, agora, vai ter de esperar. E o País precisa de saber se tem ou não Presidente da República."
(João Marcelino; "Uma crise patética". Na íntegra: DN) (Os destaques são da minha responsabilidade)

O naufrágio

A Bolsa de valores a cair estrondosamente e os juros da dívida pública a subir de hora a hora, são sinais evidentes de que a situação do país já não é apenas pantanosa. Para os "mercados", pelos vistos,  a situação que o país enfrenta é já a emergência de um naufrágio.
Enquanto isto, o Coelho náufrago limita-se a esbracejar e Cavaco, a quem a Constituição impõe o dever de garantir o funcionamento das instituições da República, dando-lhe os meios e os poderes para o assegurar, limita-se a observar.
Haja alguém que explique o comportamento dos dirigentes políticos a quem o povo entregou a responsabilidade de dirigir o país, sem fazer apelo ao conceito de insanidade. Haverá?

terça-feira, 2 de julho de 2013

O pântano

Quem se tenha dado ao penoso trabalho de ouvir a declaração de Passos Coelho motivada pelo demissão de Paulo Portas não deve ter ficado com muitas dúvidas sobre a sanidade mental do ainda formalmente primeiro-ministro dum governo que, de facto, já não existe. O "rapazola" entrou definitivamente em estado de negação. 
Para Passos Coelho, pelos vistos, há já sinais de que o país vai no bom caminho e ele está pronto a tudo fazer para se manter em funções e para dar continuidade à política em que já ninguém acredita, nem os seus ministros, como resulta, com meridiana clareza, dos pedidos de demissão dos únicos ministros de Estado do governo, Gaspar e Portas.
Certo é que, não tendo Passos Coelho tirado as devidas consequências do pedido de demissão de Paulo Portas, o país vai entrar num período de turbulência com consequências gravíssimas.
Pesa sobre Cavaco a responsabilidade de pôr termo a esta situação pantanosa. Por muito que ele se escude sob a alegação de que o governo não depende politicamente da Presidência da República, certo é que é ao PR que cabe assegurar o regular funcionamento das instituições e este está manifestamente em causa. Não pode Cavaco continuar a lavar as mãos como Pilatos. A gravidade da situação não lho consente. Acho eu.

Pum!

Os estilhaços terão chegado até onde? É só o que falta saber, sendo certo que dificilmente o governo de Passos conseguirá sair ileso deste evento, tendo em conta que estamos perante a demissão do líder do segundo partido da coligação governamental.
A queda imediata do governo seria, a todas as luzes,  a consequência normal desta demissão, mas, como a política portuguesa com estes dirigentes (Cavaco, Passos e Portas) se transformou numa grande palhaçada não me atrevo, para já, a antecipar qual será o desenvolvimento do caso, tanto mais que, para Cavaco, aparentemente, tout va bien.

"Certidão de óbito"

"Vítor Gaspar sai do Governo como não se esperava, especialmente de quem assumiu todo o protagonismo, e nunca o recusou, zangado com a sua incapacidade para levar a efeito a reforma do Estado, zangado com o primeiro-ministro por ausência de uma liderança de suporte ao ajustamento, zangado com os seus colegas de Governo. E assinou (...) a certidão de óbito deste Governo. Só falta saber a data.
(...)
Quando são muitas as dúvidas sobre a capacidade do Governo de levar a cabo a reforma do Estado, Vítor Gaspar deixa claro que não tem dúvidas nenhumas. Não será mesmo para fazer, ou, então, muita coisa tem de mudar. A certidão de óbito está passada, é mais grave do que qualquer declaração de António José Seguro ou qualquer greve geral, e tem a assinatura do mais insuspeito dos subscritores, o próprio Gaspar."
(António Costa, director do "Diário Económico". Na íntegra: aqui)

Coelho ou rato?

A carta de demissão que ex-ministro Gaspar, num gesto inédito, tornou pública, pode, sem necessidade de grande esforço interpretativo, ser vista como uma estocada no debilitado  e "impreparado" Coelho. e na sua liderança. Há quem estranhe que, perante  a virulência, ainda que camuflada, do ataque, se não tenha ouvido uma palavra de Passos Coelho e que este se mantenha calado que nem um rato.
Ainda haverá quem tenha dúvidas sobre a espécie a que pertence o (ainda) primeiro-ministro?

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Em desespero de causa

Não vale a pena disfarçar o que é mais que evidente: a demissão de Gaspar representa, nem mais nem menos, do que o completo reconhecimento do seu próprio falhanço no cumprimento das metas acordadas com a troika e, bem entendido, o falhanço da política de austeridade prosseguida pelo governo, na medida em que era sob a sua batuta que se regia a orquestra desafinada, formalmente liderada pelo "impreparado"  Passos  Coelho.
Tendo em conta que o seu pedido de demissão já não é recente, tal significa que Gaspar há muito tinha consciência desse falhanço. Estranhamente, só Cavaco Silva, entretanto transformado em simples marioneta manipulada por Passos, (como se se viu recentemente com o caso da promulgação ultra-rápida da lei que protelou o pagamento do subsídio de férias dos funcionários públicos, dos reformados e pensionistas, para o mês de Novembro) é que ainda não se apercebeu disso. 
Que Cavaco vai continuar a esconder  a cabeça na areia para não ver o que se passa, tenho poucas dúvidas. Melhor dizendo, nenhumas.Será  que Portas vai continuar a fazer o mesmo?
É que se a saída de Gaspar do governo acaba por  ser reveladora da decomposição a que o actual executivo governo chegou, a escolha da pessoa encarregada de o substituir (Maria Luís Albuquerque) torna ainda mais claros os sinais da decomposição.
Como é evidente, a "ilustre" secretária de Estado do Tesouro, agora, estranhamente, promovida a ministra das Finanças, deveria, se neste governo existisse um réstia de decência, ter seguido o mesmo caminho que o trilhado por dois dos seus colegas de governo, responsáveis, tal como ela, pela contratação de swaps, caminho que só poderia ser o do olho da rua. A qualificação eufemística ("exóticos", por contraponto a "tóxicos") atribuída aos swaps em que ela interveio em nada modifica o julgamento, porque, substancialmente, não se consegue enxergar qualquer diferença.
Mas, o que torna esta nomeação ainda mais inverosímil, para não dizer inconcebível, é o facto de a "excelente senhora" ter acabado de ser desmentida pelo ex-ministro Gaspar em relação a firmações feitas por ela no Parlamento ao negar que o Governo anterior tivesse prestado a informação de que dispunha sobre swaps. Passos Coelho não escolheu seguramente a pessoa indicada para tomar conta do Ministério das Finanças, mas, ao que tudo indica, encontrou uma sucessora à altura de Miguel Relvas no que respeita ao tratamento da verdade a que o Parlamento tem direito.
Pelo que fica dito, a nomeação da nova ministra das Finanças tem todos os ingredientes de um verdadeiro escândalo, para o qual só vejo uma explicação: Coelho não encontrou, por certo, nenhuma personalidade com perfil e credibilidade que aceitasse ser ministro/a das Finanças de um governo em decomposição. Por isso, Maria Luís Albuquerque tem de ser vista como uma escolha em desespero de causa.