Que o PSD foi o partido vencedor das eleições europeias é um facto e reconhecê-lo é obrigação de qualquer democrata. Tal não significa, no entanto, que assista ao PSD qualquer legitimidade para, na sequência de tal vitória, vir, uma vez mais, exigir que o Governo se abstenha de tomar decisões, como se a sua legitimidade se tivesse esgotado com estas eleições. Tal exigência não é legal, nem constitucional: as eleições realizadas ontem foram eleições para o Parlamento Europeu e não para a Assembleia da República de cuja composição resulta a formação do Governo. Enquanto Manuela Ferreira Leite (ou alguém por ela) não se submeter a sufrágio, em eleições legislativas, o PSD não conta com mais deputados na Assembleia da República do que os que já tinha, continuando, por isso, em minoria e, de acordo com as regras constitucionais, é como tal que terá de intervir na vida política. Constitucionalmente, com esta vitória do PSD, nem a actual maioria parlamentar ficou enfraquecida, nem os partidos vencedores viram a sua posição reforçada. Não subsiste, pois, do ponto de vista constitucional, qualquer dúvida sobre legitimidade do actual Governo nem sobre a sua capacidade para o pleno exercício da acção governativa. Sobre esse exercício se pronunciarão os cidadãos na altura própria e dirão de sua justiça.
Até lá, o PSD tem todo o direito de se regozijar e de festejar a sua vitória e de tirar todo o proveito dela, se o conseguir. O que não pode é fazer exigências que a lei lhe não consente. Proceder de tal forma é, no mínimo, revelador de um espírito pouco democrático. E, já agora, diga-se, arrogância a mais, face à modéstia dos números: contando o PSD com 31,68 % dos votos(menos de um terço dos votantes) num universo constituído por cerca de um terço dos eleitores inscritos, tal significa que o PSD recebeu o apoio da nona parte do eleitorado, se a minha matemática não falha. Não parece ser caso para grande embandeirar em arco! Acho eu.
(reeditada)