Retomo aqui, depois de alguns dias dedicados à "observação dos pássaros", as considerações sobre as eleições europeias, para destacar o quanto foram surpreendentes os resultados e as "vitórias" eleitorais do BE (de que ora trato) e do PSD (que fica para ulterior reflexão).
A primeira surpresa relativamente à votação no BE é o facto de, em termos eleitorais, este partido ter ultrapassado o PCP como terceira força eleitoral (possibilidade que as sondagens já apontavam, salvando assim, pelos mínimos, a honra do convento, já que no mais falharam redondamente) e a segunda o próprio resultado em si.
Sabendo-se que o BE não dispõe, nem da organização, nem da capacidade de mobilização do PCP é, sem dúvida, digno de registo o facto de aquele "bater" este, em termos eleitorais.
Julgo eu que, em boa medida, os resultados destas duas forças políticas são fruto do chamado voto de protesto. Considero, no entanto, que, tendo em conta tal carácter, o BE teve sobre o PCP a vantagem de o voto a seu favor ser isso (voto de protesto) e pouco mais que isso: toda a gente sabe qual o projecto de sociedade que o PCP defende, porque o próprio tem o cuidado (honra lhe seja) de nos esclarecer, ao indicar quais os países que considera empenhados na construção do socialismo, mas duvido que alguém possa dizer, com rigor, qual é o projecto do BE para Portugal. Para quem não queira fazer extrapolações a partir dos partidos que o originaram, o mais que pode dizer é que o projecto político do BE é uma enorme e impenetrável nebulosa.
Este aspecto parece-me essencial para compreender o voto no BE: aos eleitores não agradam as dificuldades actuais e não curam de saber (até porque isso implica algum trabalho de reflexão) se as causas da actual situação são internas ou externas. Logo, opta-se pelo mais fácil: protesta-se, votando em quem, fazendo coro com os protestos, menos problemas de "consciência" levanta, porque o voto no BE (ao contrário do voto no PCP) não é uma opção em termos de projecto político concreto. O facto de o BE se assumir tão só como um partido de contrapoder, recusando responsabilidades no plano da governação, é mais uma ajuda no mesmo sentido.
Diria, pois, que o voto no BE, nestas eleições europeias (ao contrário do voto no PCP) foi um voto fácil. E, pelas mesmas razões, volátil.