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quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Florilégio em honra da "santa" Joana

«(...) O soez ataque de carácter a Mário Centeno, caluniando o mais relevante político português no atual quadro europeu como alguém que se vende por um prato de lentilhas, talvez não seja só iniquidade espontânea. Talvez seja maldade industrial.(...)»
(Viriato Soromenho-Marques: "A indústria da desconfiança contra a democracia". Na íntegra: aqui)

Ou "maldade" institucional, receio eu.

terça-feira, 30 de junho de 2015

"Se ao menos houvesse o decoro de permanecer em silêncio" *

«O ponto de não retorno talvez já tenha sido transposto. A entropia está em marcha. Portugal está agora na linha da frente da crise europeia. Como estava previsto no relatório da UBS, de setembro de 2011, sobre as graves consequências da eventual saída da Grécia da zona euro. Ou no relatório da Fundação Bertelsmann, de setembro de 2012, que vinculava a saída da Grécia à queda de Portugal, e a custos astronómicos para toda a zona euro, incluindo a Alemanha. Durante cinco anos a Grécia funcionou no dominó disfuncional da zona euro como um dique protetor perante as fragilidades de Portugal. Um governo português, formado por pessoas medianamente inteligentes e patrióticas, teria apoiado, mesmo que moderadamente, qualquer governo grego, fosse ele do Syriza ou de qualquer outro partido. Deveria fazê-lo por razões jurídicas e morais, mas também por puro egoísmo político. A Grécia era um dique protetor do interesse nacional. Infelizmente, o governo de Passos Coelho e o seu eco de Belém fizeram tudo para humilhar, enfraquecer e fragilizar Atenas. Agora, só um milagre poderia evitar que o dique grego se desmorone. Os nossos juros estão a subir, a desvalorização do euro significará desequilíbrio externo e perda do valor do aforro. Os "cofres cheios" vão começar a ser esvaziados. Quando mais precisávamos de estadistas, limitamo-nos a ter em Portugal os veteranos que utilizaram a malha larga da política partidária para se promover. Nos tempos de fartura, isso seria suportável. Pelo contrário, nos dias excecionais, como os que estamos a viver, tanta incompetência pode ser mortal para a sustentabilidade do Estado. Se ao menos houvesse o decoro de permanecer em silêncio.»
[VIRIATO SOROMENHO-MARQUES (na imagem): "O dique grego" . Daqui]
(*Infelizmente, nem isso)

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Um governo neoliberal e incompetente

"No seu famoso clássico Da Guerra (Vom Kriege, 1832), Carl von Clausewitz (1780-1831) explicou que só a lógica política consegue ter a visão de conjunto do que se joga numa guerra, e, por isso, só o poder político pode tomar as decisões mais ajustadas. A componente militar tem uma técnica própria, que ele exemplificava no saber "colocar sentinelas", mas é um simples instrumento da política. Lembrei-me frequentemente de Clausewitz nestas semanas ao acompanhar a entrada em vigor da famosa reforma do mapa judiciário. Não está em causa, agora, discutir o recuo territorial das instituições de soberania (neste caso, os tribunais). Não é a escolha política que me preocupa. O mais grave é perceber que na gramática operacional o Ministério da Justiça está a falhar rotundamente. Contudo, a paralisia do portal Citius, que aparentemente foi prevista em vários alertas que a tutela parece ter desdenhado, não é uma falha meramente técnica. Trata-se de evidente incompetência política na implementação de uma escolha estratégica. Um governo que decide avançar com a maior reforma judiciária dos últimos 200 anos (segundo as palavras da titular do cargo) sem cuidar dos instrumentos logísticos do quotidiano das instituições abrangidas, só pode ser comparado com um Estado que entrasse em guerra com um exército de objetores de consciência. Este escândalo judiciário é, na verdade, um sintoma. Veja-se, também, a descoordenação sazonal na colocação de professores. Este Governo colhe os frutos da sua ideologia anarcoliberal. A administração está em mergulho entrópico. Qualquer dia, o mais humilde ofício de qualquer repartição terá de ser feito em regime de outsourcing."
(Viriato Soromenho-Marques; "Colocar sentinelas". Daqui.Destaques meus)

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

"Futuro exíguo"

«Muito antes desta crise, a voz lúcida de Adriano Moreira alertou para a transformação de Portugal num "Estado exíguo". Onde os néscios de turno observam "gorduras", a inteligência descobre a esclerose funcional das instituições. Para uma comunidade nacional de dez milhões de cidadãos residentes, e com o nosso histórico código genético, a exiguidade do Estado sempre foi o preâmbulo para uma crise na viabilidade política nacional. As grandes tragédias fazem-se anunciar como símbolos. Numa altura em que existe uma clara renacionalização das políticas europeias - que em breve será acentuada no Reino Unido e na França - com sinais de protecionismo económico e exigências de devolução de soberania, o atual Governo continua, em claro registo de contraciclo, a desfazer-se das derradeiras alavancas económicas do País. A venda dos CTT, empresa prestigiada a nível mundial, até envergonharia os liberalíssimos EUA, que têm nos serviços postais uma das mais antigas empresas públicas federais. A venda da TAP - uma das maiores marcas de Portugal, um instrumento de política externa e um expoente da segurança no transporte aéreo - é um escândalo. Vamos terminar este ano com um défice de 10% do PIB (por mais que os malabarismos contabilísticos o queiram camuflar) e com uma dívida pública astronómica, mesmo sem incluir o aumento do perímetro orçamental exigido pelas novas regras do Sistema Europeu de Contas. A cultura do Governo, com a cumplicidade silenciosa de muita da oposição, parece ignorar que nenhum ranking internacional de competitividade substitui a decisiva missão da política, que é a de garantir o futuro da comunidade de destino a que chamamos Portugal.»
(Viriato Soromenho-Marques. Aqui. Destaque meu.)

domingo, 12 de janeiro de 2014

Sem futuro

"(...) Na verdade, um dos partidos do governo, o CDS-PP, hoje reunido em Congresso, é o maior partido unipessoal da democracia portuguesa, o partido de Paulo Portas (PP). Tanto assim é que na longa tentativa de suicídio estival do executivo ninguém ensaiou a hipótese - perfeitamente normal numa democracia com partidos normais - de conciliar o dilema moral de um ministro que apresentara a sua "irrevogável" demissão, com as aflições de um país inteiro que se arriscava a ser defenestrado segunda vez pelos mercados, através de uma remodelação que afastasse Portas, mantendo, contudo, a coligação.
(...) Há vinte anos, o CDS-PP tinha propostas nítidas. Poderia não se gostar, mas era um partido conservador com pensamento próprio. Foi a substância das ideias que levou ao afastamento, em 1992, do seu fundador, Freitas do Amaral, num voto pelo Tratado de Maastricht, que a crise atual revela ter sido mais ditado pela "convicção" do que pela razão. Em 1994, Portas juntava a sua voz na crítica aos riscos para o País da UEM (tal como o fez também o PCP, e vozes atentas como as de João Ferreira do Amaral). Nessa altura, o CDS era um partido sem poder, mas com uma visão para o futuro de Portugal. Numa estranha versão "burguesa" do culto estalinista da personalidade, hoje o CDS é um partido de poder, mas esvaziado de futuro. O seu "programa" confunde-se com os estados de alma do seu chefe perpétuo."
(Viriato Soromenho-Marques; «O congresso dos "PP"»; Na íntegra: aqui)

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

"Antes que a pilhagem seja irreversível"

"(...)
Leio pelos jornais que um membro do Governo de Passos Coelho, chamado Maçães, foi à Grécia envergonhar o nosso país. Apesar de, a acreditar pelo CV publicado no sítio do Governo, ele ter alguma escolaridade em matéria de Direito e Ciência Política, a sua recusa perentória de uma frente de países do Sul (onde se incluiriam até a França, a Itália e a Espanha) contra a política que Merkel está a impor à Europa inteira revela que, no mínimo, ainda não atingiu aquele grau de estabilidade emocional e hormonal a que uns chamam maturidade e outros, simplesmente, juízo. A indigência intelectual deste Governo está a ultrapassar todos os limites. Desde quando um secretário de Estado vincula o seu país numa situação tão estrategicamente delicada? Desde quando um país em hemorragia aberta pode descartar alianças com aqueles, mesmo que sejam "diabos", que têm objetivos comuns (interromper a austeridade destrutiva)? Desde quando é sensato aderir incondicionalmente a uma política (do Governo de Berlim) que é diametralmente oposta ao interesse nacional? A imprensa grega não tem razão ao chamar "alemão" a Maçães. Os alemães não se confundem com o seu Governo conjuntural, como os portugueses não podem ficar ostracizados pelo trágico episódio desta coligação. O seu problema foi diagnosticado por La Boétie, no século XVI: só há tirania porque há demasiada gente pronta à "servidão voluntária". Este Governo é um equívoco dos "lugares naturais". Os lacaios passaram do anexo para o palácio. Importa devolvê-los ao seu lugar, antes que a pilhagem seja irreversível."

(VIRIATO SOROMENHO-MARQUES; Servidão voluntária. Na íntegra: aqui)