segunda-feira, 15 de Setembro de 2014

Um governo neoliberal e incompetente

"No seu famoso clássico Da Guerra (Vom Kriege, 1832), Carl von Clausewitz (1780-1831) explicou que só a lógica política consegue ter a visão de conjunto do que se joga numa guerra, e, por isso, só o poder político pode tomar as decisões mais ajustadas. A componente militar tem uma técnica própria, que ele exemplificava no saber "colocar sentinelas", mas é um simples instrumento da política. Lembrei-me frequentemente de Clausewitz nestas semanas ao acompanhar a entrada em vigor da famosa reforma do mapa judiciário. Não está em causa, agora, discutir o recuo territorial das instituições de soberania (neste caso, os tribunais). Não é a escolha política que me preocupa. O mais grave é perceber que na gramática operacional o Ministério da Justiça está a falhar rotundamente. Contudo, a paralisia do portal Citius, que aparentemente foi prevista em vários alertas que a tutela parece ter desdenhado, não é uma falha meramente técnica. Trata-se de evidente incompetência política na implementação de uma escolha estratégica. Um governo que decide avançar com a maior reforma judiciária dos últimos 200 anos (segundo as palavras da titular do cargo) sem cuidar dos instrumentos logísticos do quotidiano das instituições abrangidas, só pode ser comparado com um Estado que entrasse em guerra com um exército de objetores de consciência. Este escândalo judiciário é, na verdade, um sintoma. Veja-se, também, a descoordenação sazonal na colocação de professores. Este Governo colhe os frutos da sua ideologia anarcoliberal. A administração está em mergulho entrópico. Qualquer dia, o mais humilde ofício de qualquer repartição terá de ser feito em regime de outsourcing."
(Viriato Soromenho-Marques; "Colocar sentinelas". Daqui.Destaques meus)

"Como vamos ter eleições está toda a gente com pressa para vender"

Toda gente não será bem o caso, pois a afirmação em título, da autoria de Pedro Lino, CEO da Dif Broker, só pode reportar-se ao governo Passos & Portas e ao Banco de Portugal, uma vez que são estas duas entidades as que mandam no Novo Banco, criado à sua imagem e semelhança. Mesmo que toda essa pressa resulte em perda de valor para o Banco, acrescenta o mesmo autor. E com razão.
Temo, porém, que a pressa não tenha apenas como consequência a perda de valor. Suponho que a venda a todo o vapor e, possívelmente, aos pedaços, vai lançar no desemprego mais uns milhares de trabalhadores. Who cares?

sábado, 13 de Setembro de 2014

Um banco efémero


A escolha duma borboleta, um insecto, por definição, de vida curta, para símbolo do Novo Banco, está em perfeita sintonia com a realidade: o banco, por vontade de quem nele manda - governo e Banco de Portugal, está condenado a ser um banco efémero. 
Pelo contrário, a mesma realidade parece desmentir o propagandeado "bom começo" do Novo Banco.
A renúncia do presidente executivo, Vítor Bento, do vice-presidente, José Honório, e do administrador financeiro, João Moreira Rato, quando ainda não são decorridos 2 meses desde que tomaram posse dos seus cargos, pode ser interpretada, quaisquer que seja as razões invocadas, de muitas e variadas formas, mas nunca como "um bom começo". Pelo menos, na perspectiva do Banco Novo. O mesmo se poderá dizer quando considerado o caso do ponto de vista do interesse dos contribuintes que, a cada dia que passa, maior é o risco que correm de lhes vir a ser apresentada a factura. 
Pelo caminho que as coisas levam, vai ser uma factura e tanto.

"Falemos, então, da dívida"

«(...) o que até agora provocou a maior subida da dívida pública foi mesmo o programa de austeridade. Em 2010, a nossa dívida estava nos 94% do PIB. A última estimativa do Banco de Portugal coloca-a nos 134%. Isto é: aumentou quase em metade.


Não é difícil perceber porquê. Desde logo porque continuámos a acumular défices. Sofremos várias outras reclassificações. Mas, sobretudo, por causa do efeito de bola de neve: quando a taxa implícita de juro é superior à taxa de crescimento nominal do PIB, a dívida aumenta, mesmo que o Estado não gaste, em despesa corrente, mais do que recebe.

É praticamente impossível a Portugal cumprir a obrigação de chegar, no prazo de duas décadas, aos 60% de dívida sobre o produto estabelecidos nos tratados europeus. Os níveis de crescimento e de saldo orçamental que seriam necessários estão fora do nosso alcance - e, aliás, as maneiras de chegar a um e a outro são contraditórias entre si. O estudo apresentado ao Parlamento por Ricardo Cabral e os seus colegas, assim como os cálculos apresentados pelo Presidente na última edição dos seus "Roteiros", são eloquentes.

Ora, qualquer debate sobre a dívida que não tenha em conta estes factos carece de sentido útil. Eles mostram três coisas simples. Que o aumento descontrolado da dívida pública não é uma singularidade nem uma "falta" nossa, que deveríamos expiar, mas o efeito (certamente agravado pela fragilidade da nossa economia) de duas crises internacionais e da tibieza da resposta europeia à segunda crise, dita das dívidas soberanas. Que o programa de austeridade excessiva e antieconómica a que fomos obrigados desde 2011 só agravou o problema. E que não é possível resolvê-lo se continuarmos a seguir a mesma receita para os anos vindouros.

Talvez se compreenda assim melhor a razão que assiste aos que defendem que é preciso pensar de outra maneira: não do défice e da dívida para a economia, mas sim da economia para o défice e a dívida. Se a nossa política face à dívida só servir para castigar a economia, nunca resolveremos a questão da dívida

(Augusto Santos Silva. (Na íntegra; aqui)

sexta-feira, 12 de Setembro de 2014

O salta-pocinhas

Marinho Pinto. Alguém o leva ainda a sério?

"Capaz de tudo"

«No primeiro debate entre Seguro e Costa, o secretário geral do PS quis justificar o resultado do partido nas europeias, reconhecendo-o afinal não tão espetacular como garantiu na noite eleitoral, com o facto de "uma parte dos portugueses ainda responsabilizarem o PS pela situação a que chegámos." Ora Seguro tem com certeza razão: uma parte dos portugueses pensará assim e de facto isso pode ser um motivo para não votarem PS.

Reconhecendo desde início - porque se colocou desde o início - esse problema, Seguro tinha um de dois caminhos: ou combatia essa noção, aproveitando todas as ocasiões para explicar por que motivo está errada, ou, caso concorde com ela, assumi-la-ia, não só por uma questão de honestidade mas também por estratégia, tornando claro não deverem esperar dele a repetição do que considerará erros indesculpáveis. Porém, como é sabido, não fez uma coisa nem outra.

Segundo o próprio, "anulou-se" para "manter a paz no partido".

Ou seja, o secretário-geral do PS terá decidido esconder quem é e o que pensa para evitar cisões nas hostes do PS, escondendo-se portanto do País do qual quereria ser primeiro-ministro. Assumiu ser capaz, por calculismo e taticismo, da maior das dissimulações; assumiu que entre a verdade e ocultação, optou pela ocultação; entre a coragem e a cobardia, pela cobardia; que entre a rutura e a paz podre, quis a paz podre. E quis assim porque se sabia sem autoridade - quiçá até legitimidade - para se manter líder se abjurasse o Governo anterior.

Esta confissão surge tanto mais chocante quando, decidido agora a revelar-se em todo o seu esplendor, (...)  ele aventa que sabe coisas terríveis, às quais terá assistido bem caladinho e das quais nem depois de eleito chefe falou, para não chatear ninguém - sendo que nem agora, que finalmente se soltou, diz que coisas são.

Percebe-se que depois de ter feito e confessado tudo isto Seguro esteja de cabeça perdida por, afinal, estar em riscos de ver São Bento por um canudo. Percebe-se que alguém que achou que ser falso era a forma certa de manter o partido e chegar ao Governo não entenda que raio fez de errado; que quem acusa de traição aquele que o desafia não tenha capacidade ética para vislumbrar que a maior das traições - aos outros e a si - é fingir ser-se o que se não é.

Que seja esta fraude auto-desmascarada que pretende vitimizar-se imputando a outros oportunismo e golpes baixos e afirmar-se como epígono da transparência não deve ser grande surpresa. Quem se confessa capaz de ser nada para chegar onde quer é bem capaz de tudo.»
(Fernanda Câncio; Face desoculta. Na íntegra: aqui)

(Sem dúvida.  Um Seguro, falso que nem Judas, é capaz de tudo e de mais alguma coisa.)

Audição ou demissão?

A bancada parlamentar do PCP quer ouvir a "desaparecida" ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz sobre a situação caótica em que ficaram os tribunais na sequência da entrada em vigor da reforma judiciária.
Por seu turno, a bancada parlamentar do PS pela voz do deputado Luís Pita Ameixa, exigiu a demissão da ministra.
A crer nas notícias vindas a lume (e não há razão para duvidar delas) estamos perante uma situação que só pode ser classificada como um verdadeiro desastre que surge, não por acidente imprevisível, mas sim por culpa duma ministra claramente incompetente. A ela se deve, com efeito, o não preenchimento dos quadros dos oficiais de justiça, a não realização atempada das obras de adaptação dos edifícios e, por último, a não resolução das falhas graves detectadas no funcionamento do sistema informático para as quais foi em devido tempo alertada, como recentemente se veio a saber.
As consequências da incompetência ministerial são, pois, de extrema gravidade, já que afectam também gravemente o funcionamento dos tribunais. A simples audição da ministra, tal como foi requerida pela PCP parece-me uma resposta pouco adequada à gravidade da situação e corre, para além disso, o risco de  transformar em mero expediente de passa-culpas, ainda que não tenha sido essa a intenção do partido requerente.
O remediar da situação, atenta a incompetência revelada pela ministra, passa pela demissão desta, a menos que se admita como aceitável o prolongamento do caos entretanto instalado e a que ela, até agora,  foi incapaz de pôr termo.

quinta-feira, 11 de Setembro de 2014

Embates

1º embate: Costa versus Calimero;
2º embate: Costa versus Tó Zero.

"Futuro exíguo"

«Muito antes desta crise, a voz lúcida de Adriano Moreira alertou para a transformação de Portugal num "Estado exíguo". Onde os néscios de turno observam "gorduras", a inteligência descobre a esclerose funcional das instituições. Para uma comunidade nacional de dez milhões de cidadãos residentes, e com o nosso histórico código genético, a exiguidade do Estado sempre foi o preâmbulo para uma crise na viabilidade política nacional. As grandes tragédias fazem-se anunciar como símbolos. Numa altura em que existe uma clara renacionalização das políticas europeias - que em breve será acentuada no Reino Unido e na França - com sinais de protecionismo económico e exigências de devolução de soberania, o atual Governo continua, em claro registo de contraciclo, a desfazer-se das derradeiras alavancas económicas do País. A venda dos CTT, empresa prestigiada a nível mundial, até envergonharia os liberalíssimos EUA, que têm nos serviços postais uma das mais antigas empresas públicas federais. A venda da TAP - uma das maiores marcas de Portugal, um instrumento de política externa e um expoente da segurança no transporte aéreo - é um escândalo. Vamos terminar este ano com um défice de 10% do PIB (por mais que os malabarismos contabilísticos o queiram camuflar) e com uma dívida pública astronómica, mesmo sem incluir o aumento do perímetro orçamental exigido pelas novas regras do Sistema Europeu de Contas. A cultura do Governo, com a cumplicidade silenciosa de muita da oposição, parece ignorar que nenhum ranking internacional de competitividade substitui a decisiva missão da política, que é a de garantir o futuro da comunidade de destino a que chamamos Portugal.»
(Viriato Soromenho-Marques. Aqui. Destaque meu.)

quarta-feira, 10 de Setembro de 2014

Nem-nem

Mais novas do (des)ajustamento!

Como um peixe a nadar em seco


Diria que é como se deve sentir Carlos Moedas na pele de "novo comissário da Investigação, Ciência e Inovação". Nem a pasta que lhe foi atribuída tem a relevância de que Passos Coelho chegou a falar, nem Moedas tem aptidão para a gerir. Não fez ele parte de um governo que liquidou a Investigação, a Ciência e a Inovação em Portugal?  Um peixe fora de água é o que é.
(imagem daqui)

"Não vou discutir a baixa do IVA, não"

"Há dias, saía eu do Hospital de Santa Maria para apanhar táxi, quando ouvi: "Olá, amigo!" De um carro estacionado, um jovem estendia-me a mão. "Há quanto tempo... Não me está a reconhecer...", disse ele. Continuei dubitativo. E ele, tirando o boné: "Está a ver? Sou a cara chapada do meu pai, você ia tanta vez lanchar com ele! O Pereira... Pereira da Silva, talvez o conhecesse como Silva. Já se lembra?" E eu: "Não me lembro. Bom-dia!"... Já fui mais rápido a reagir ao conto do vigário em fase preparatória. Um dia, no Leblon, íamos eu e a minha filha, ainda garota, felizes no primeiro dia dela no Rio. Um vendedor de lotaria deixou cair no passeio, de forma dissimulada, um bilhete de lotaria. A miúda ia apanhá-lo e devolver, quando a impedi. Chamei o dono, mostrei--lhe o bilhete e cortei o começo de conversa que já ia na oferta de alguma coisa pela minha simpatia... Sei porque me lembro disto agora, ouvi o debate, ontem, das primárias no PS. Ouvi Seguro a dizer: "E sabes porquê, António?" E dizer: "Naquele tempo havia solidariedade!" E: "O que fizeste ao PS?" Já aqui o disse: não gosto de Seguro. Não é por esta ou aquela linha política. E nem é por essa coisa que salta nos políticos quando falta, o carisma. É pela cara mesmo. O falso afeto. Isto é, por uma razão política maior. (...)"
(Ferreira Fernandes. Na íntegra: aqui. Destaque meu.)

sexta-feira, 5 de Setembro de 2014

Postais de Colombo (Sri Lanka)


(Edifício do Parlamento do Sri Lanka)

(Monumento comemorativo da independência do Sri Lanka)

(Templo budista)

(Vista parcial da fachada de um templo hindu)

quinta-feira, 4 de Setembro de 2014

Soma e segue...

António Costa, depois do apoio manifestado pela maioria dos presidentes de Câmara, conta também, a partir de agora, com o apoio de quase dois terços dos presidentes das concelhias do PS.
Com os apoios que António Costa tem vindo a receber nos últimos dias, a vitória da sua candidatura nas "primárias" do PS começa a ganhar contornos definitivos. Quem esteja apostado na derrota da direita nas próximas legislativas não pode deixar de se regozijar com o facto. É o meu caso. 

Debate do orçamento rectificativo

Intervenções de deputados do PS:


(João Galamba)

(Pedro Marques - 1ª intervenção)

(Pedro Marques - 2ª intervenção)

segunda-feira, 1 de Setembro de 2014

Novas do desajustamento

O governo e a quadrilha de comentadores da estirpe dum José Gomes Ferreira ou dum Camilo Lourenço não se cansam de nos encher os ouvidos com loas sobre o sucesso do ajustamento da economia portuguesa, não obstante os números persistirem em dizer o contrário. É o caso de hoje em que as notícias nos dão conta de que o desajustamento continua.

De facto, de acordo com o Banco de Portugal, "a dívida pública, segundo os critérios de Maastricht, aumentou em julho em relação ao mês anterior, tanto em termos brutos como líquidos", tendo subido "de €223,27 mil milhões no final de junho para €224,53 mil milhões no final de julho". (Fonte)

sexta-feira, 29 de Agosto de 2014

Pior, por todas as razões e mais uma

Ora façam o favor de ler e conferir:

"Têm razão os que dizem que o BES não é comparável ao BPN. É pior: na dimensão relativa dos dois bancos e, logo, nos seus efeitos. Mas também no contexto."
(Carlos Costa Pina; "O Novo Banco do Estado". Na íntegra: aqui.

quinta-feira, 7 de Agosto de 2014

Lição a tirar

"(...)
Ao fim de vários erros, muitas dívidas e custos sem fim para os contribuintes, não precisamos de mais exemplos para assumir que a sociedade precisa de reformatar-se e dar outra dignidade ao valor do trabalho e à criação de emprego. A geração de riqueza fácil através da especulação tem de ter um fim. Caso contrário, a ganância continuará a ser a base do sistema - e ensinada em todos os manuais das melhores universidades."
(Daniel Deusdado; "Novas vítimas do capitalismo popular". Na íntegra: aqui. Sublinhado meu)

quarta-feira, 6 de Agosto de 2014

Engenhosa solução ou um enorme sarilho ?

A solução adoptada pelo governo de Passos, Portas & Cª para resolver os problemas decorrentes da derrocada do BES já foi qualificada como engenhosa, qualificativo que não custa aceitar,  visto que a operação levada a cabo é, essencialmente, um exercício de engenharia financeira. O ser ou não "engenhosa" nada nos diz, porém, sobre a bondade da solução. Sobre este aspecto da questão já as dúvidas são mais que muitas.
Para começar, não há forma de garantir antecipadamente se o "Novo Banco", entretanto criado com os despojos não tóxicos do BES, acabará, ou não, por ter êxito no mercado. 
Por outro lado,  também não se sabe de que forma irão reagir os accionistas do BES que, com a operação desencadeada pelo governo, viram os seus activos reduzidos a zero ou próximo disso. Considerarão eles que a solução adoptada os trata justamente ou, pelo contrário, julgar-se-ão vítimas de um confisco que a Constituição não permite? Se o entendimento dos accionistas do BES for este, hipótese que não me parece ser de descartar liminarmente, é evidente que não faltarão processos instaurados contra o Estado. Teremos, em tal caso, um enorme sarilho em vez de uma engenhosa solução.
Voltando às dúvidas, cumpre notar que o próprio governo, ainda que oficialmente tenha vindo a afirmar e a reafirmar a bondade da solução, partilha das muitas dúvidas que por aí circulam. Só assim se explica que o governo se tenha vindo a distanciar do caso, desde a primeira hora. De facto, por alguma razão, o anúncio da operação foi feito, não pelo primeiro-ministro ou por alguém que as suas vezes fizesse, como seria curial, visto tratar-se de uma operação da responsabilidade do governo, mas sim pelo governador do Banco de Portugal que, pelos vistos, não rejeitou desempenhar o papel de pau mandado. 
Haverá, além da acima explicitada, outra justificação para o distanciamento  demonstrado pelo primeiro-ministro (que estava em férias e em férias continuou), em relação à resolução do problema, distanciamento que, face à gravidade do caso, chega a ser obsceno?
Como diria o outro;  poderá haver, mas não estou a ver.

É fartar vilanagem!

"Os serviços da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa são controlados em grande parte, desde a posse de Santana Lopes em Setembro de 2011, por pessoas próximas do provedor e dos membros da sua equipa, muitas delas com ligações directas ao PSD e ao CDS.
(...)
Traçar um retrato rigoroso da distribuição de poder em função dessas filiações não é, todavia, tarefa fácil. Desde logo porque, por mais que se tente, não há informação disponível e suficiente sobre quem faz o quê ao nível das chefias e direcções da instituição. Tanto mais que, entre 2012 e 2013, o número dos seus dirigentes cresceu 23%, passando de 190 para 233.

O PÚBLICO pediu nos últimos meses informação detalhada sobre o assunto — atendendo a que a SCML, ao contrário das restantes misericórdias do país, é tutelada pelo Estado, cabendo ao Ministério da Segurança Social a “definição das orientações gerais de gestão” e a “fiscalização” da sua actividade —, mas não obteve resposta concludente.
(...)
Em todo o caso, a consulta do site e os dados recolhidos em documentos oficiais indiciam que a situação se agravou em relação ao mandato anterior, em que o provedor era o socialista Rui Cunha.

Começando pela mesa, além de Santana Lopes, dois dos seus vogais são membros importantes do PSD: Helena Lopes da Costa, ex-deputada do PSD e ex-vereadora da Câmara de Lisboa quando Santana era presidente; e Paulo Calado, ex-vereador do PSD em Setúbal e sócio da sociedade de advogados Global Lawyers, criada por Santana Lopes. No lugar de vice-provedor está Fernando Paes Afonso, um destacado militante do CDS que já integrou os seus órgãos nacionais.

No tempo de Rui Cunha, para lá dele próprio, não havia mais nenhum dirigente socialista de relevo na cúpula da Misericórdia.

Por outro lado, em lugares chave da instituição encontram-se agora pessoas como Helena do Canto Lucas, directora do Departamento de Gestão Imobiliária e Património, Irene Nunes Barata, directora da Direcção de Aprovisionamento, e Teresa Paradela, subdirectora do Património, todas muito próximas do actual provedor. 

A primeira entrou como jurista para a EPUL durante o mandato de Santana Lopes na Câmara de Lisboa, passou depois para uma das suas empresas de reabilitação urbana e, em Setembro passado, intregrou a lista do PSD à Câmara da Figueira da Foz, da qual Santana foi presidente entre 1998 e 2002. É casada com um advogado que partilhou com ela e com Santana Lopes um escritório em Lisboa, além de ser sócio deste na imobiliária Espaço Castilho. 

A segunda foi directora do Departamento de Apoio à Presidência da câmara de Lisboa no mandato de Santana. A terceira, além de arquitecta do quadro da câmara da capital, tem sido candidata a vários órgãos autárquicos em listas do PSD.

Entre os nomes conhecidos como próximos do provedor está também Lídio Lopes, um antigo vice-presidente da Câmara da Figueira e até há pouco líder histórico da concelhia local do PSD, que ocupa as funções de subdirector do Departamento de Qualidade e Inovação da Misericórdia.

Em postos chave aparece igualmente Anabela Sancho, directora operacional do Departamento de Jogos, que é casada com o antigo ministro e dirigente do CDS Telmo Correia. Também a mulher do deputado centrista João Gonçalves Pereira, Joana Lacerda, desempenha funções na Direcção de Aprovisionamento."

(Notícia da autoria de JOSÉ ANTÓNIO CEREJO com  o título "Lugares-chave da Misericórdia de Lisboa são ocupados por militantes do PSD e do CDS". Noticia na íntegra:", aqui. Sublinhados meus)

terça-feira, 5 de Agosto de 2014

Depois deste, haverá outro?

"(...)
Note-se que não há a mínima razão para pensar que Carlos Costa terá mentido intencionalmente e, se por acaso o fez com intenção, não há a mínima razão para pensar que a sua intenção não fosse boa. Mas aconteceu que as suas declarações descreveram ao longo dos últimos meses (anos?) uma realidade diversa da realidade real, muito mais optimista do que aquilo que nos parece hoje ajustado e onde não havia quaisquer razões para suspeitar de actividades ilícitas. Acontece. Mais: se houve um optimismo exagerado e aqui e ali alguma informação sonegada ao público, é provável que Carlos Costa tenha considerado que fazia o seu dever, já que a confiança é o principal capital do sistema financeiro. Pode pensar-se que Carlos Costa e todos os funcionários do Banco de Portugal que lidaram com a questão BES foram enganados pelo banco e pelos seus dirigentes (o que não diria muito bem das suas capacidades de fiscalização e regulação, já para não falar da sua competência, argúcia ou bom senso) ou que perceberam num ápice o que se passava mas não quiseram tornar pública a verdadeira dimensão do problema para não causar maiores estragos. É possível. O que seria bom que o Banco de Portugal e Carlos Costa percebessem é que esta estratégia possui custos elevados ao nível da credibilidade da instituição e das pessoas que a integram. Ou seja: se tudo tivesse acabado em bem, o Banco de Portugal teria podido manter a sua ficção até ao fim. Mas, como não acabou, a ficção acabou por se revelar uma fraude. Seja porque o Banco de Portugal não percebeu o que se passava no BES, seja porque percebeu e não quis agir de forma determinada para não "alarmar os mercados", esperando que o Espírito Santo (o da Santíssima Trindade) resolvesse as coisas, a credibilidade da instituição, do seu governador e dos seus funcionários, justa ou injustamente, saiu ferida de morte.
(...)
Perante um caso como o do BES, teríamos gostado de ver o Banco de Portugal, hoje, reconhecer responsabilidades, fazer uma investigação aprofundada do que correu mal, admitir culpas, corrigir procedimentos, garantir que nunca mais algo semelhante se poderia voltar a passar nas suas barbas. Admitir, em suma, que se vai preocupar mais com a honestidade do que com a amizade dos banqueiros. Mas não vemos nada disso e esse facto é mais preocupante que o caso BES, porque nos diz que, depois deste BES, haverá outro, e outro, e outro."

(José Vítor Malheiros; "Novo Banco, Velho Banco: mais uma viagem, mais uma corrida". Na íntegra: aqui. Sublinhados meus)

Finalmente, um sucesso estrondoso

O "estoiro" do BES, um banco cuja solidez era garantida ainda há poucos dias pelo  primeiro-ministro e pelo governador do Banco de Portugal, foi ouvido em quase todos os continentes. Um feito destes é um sucesso em qualquer parte do mundo. E um sucesso estrondoso só ao alcance de um bando de ineptos.