domingo, 24 de julho de 2016

Um "lenço" para Cavaco se alimpar

Leio nas páginas do "Público" que Cavaco confessou, durante o almoço promovido por Leonor Beleza, com o alegado intuito de o homenagear, que "saiu de Belém satisfeito e de consciência tranquila".
Para fazer uma tal afirmação é porque Cavaco anda mal da vista, carecendo, porventura, de uma boa limpeza.
O texto que a seguir se publica, de autoria de Miguel Sousa Tavares, parece-me o adequado para o caso. Aqui fica, pois,  um "lenço"  para Cavaco para se alimpar:
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Cavaco tomou o poder, derrubando facilmente o desgastado governo do Bloco Central de Mário Soares e Mota Pinto, de caminho humilhando e crucificando quem, no seu partido, se atrevera a coligar-se com os socialistas numa hora de emergência — em que ele esteve prudentemente ausente. Para trás ficaram anos difíceis, com dois resgates pedidos ao FMI e os correspondentes sacrifícios, que custaram a derrota inevitável ao PS mas que foram essenciais para repor ordem nas finanças públicas, devastadas pelos desmandos do PREC. Mas o Governo que ele derrubou deixou-lhe uma preciosa herança, uma verdadeira mina de ouro: o fluxo sem fim de dinheiros europeus de que iria beneficiar nos seus dez anos à frente do Governo. Hoje, parece difícil de acreditar, mas Cavaco começou por torcer o nariz à adesão à União Europeia, um processo para o qual não moveu prego nem estopa. Jamais teve uma palavra de reconhecimento para com Mário Soares ou Ernâni Lopes, os homens que resolveram a desordem financeira e negociaram a adesão à Europa, duas coisas que tornaram possível a sua aura de fazedor. Inversamente e já como PM, Cavaco foi um entusiástico promotor da entrada na moeda única, e nisto, como em tudo o resto de essencial, a história encarregar-se-ia de demonstrar a sua nula capacidade de visionar o futuro: a entrada na UE permitiu-nos dar um salto de uma geração; a moeda única está na raiz dos males que agora nos afligem.

Dez anos sentado sobre uma mina de ouro permitiram a Cavaco mostrar “obra”. Mas não lhe permitiram o que estava para lá da sua capacidade de estadista. As auto-estradas ficaram e servem, é certo. Mas, como dizia Ribeiro Telles, serviram sobretudo para os espanhóis fazerem chegar mais depressa e com melhores preços os seus produtos agrícolas aos nossos supermercados, assim destruindo de vez a nossa agricultura e despovoando o interior. Mas já antes ele vendera por um punhado de moedas a agricultura a Bruxelas e aos interesses dos produtores agrícolas europeus. Ele, que hoje se reclama de “homem do mar”, vendeu ainda as pescas, a marinha mercante e os estaleiros navais, mas também as minas e tudo o que, no futuro, nos poderia garantir independência económica. Em troca, construiu e distribuiu: o país interior está cheio de centros de terceira idade, palácios de congressos e piscinas municipais que ninguém usa — ou porque se foram todos embora ou porque não há meios para os fazer funcionar. Em vez de aproveitar os dinheiros europeus para lançar os alicerces de um desenvolvimento sustentável e perene, espatifou milhões em alegados cursos de formação profissional e na integração de milhares de contratados no quadro da função pública e de pensionistas não contributivos na Segurança Social. Com isso, criou uma classe de novos-ricos que produziam nada e prosperavam com a especulação bolsista e criou o “monstro” estatal cuja necessidade de subsistência se tornaria a ruína da nação. Não seria sério dizer que tudo foi mau na sua governação, mas o balanço final foi este: Cavaco Silva teve nas mãos e desperdiçou uma oportunidade única e irrepetível de contrariar o fatal destino lusitano.

A sua chegada a Belém ficou-me para sempre marcada pela primeiríssima fotografia do eterno fotógrafo oficial da Presidência, Rui Ochoa. Uma das tais imagens que valem por mil palavras: de mãos dadas e com a felicidade estampada na cara, toda a família Cavaco Silva subia a ladeira de Belém — para tomar posse do palácio e do país. Os dez anos subsequentes confirmariam a justeza daquela imagem: em Belém, Cavaco portou-se sempre como alguém muito acima, por direito próprio e por direito divino, de todos os outros portugueses e, sobretudo, dos desprezíveis “senhores agentes políticos”. Ele era o homem que sabia muito mais de finanças do que qualquer um, que tinha “avisado” de cada vez que as dificuldades surgiam, que exigia a quem pusesse em causa o seu insustentável negócio com o BPN que nascesse duas vezes antes de se atrever a questioná-lo. Essa arrogância pessoal, conjugada com uma falta de coragem para o combate político frontal, levou Aníbal Cavaco Silva a revelar na Presidência características que não são defeitos políticos, mas de personalidade. São exemplos disso o discurso de vitória na noite em que conquistou o segundo mandato e em que, ressabiado pelos ataques que sofrera a propósito do BPN e das explicações convincentes que falhara em dar, continuou a campanha eleitoral já depois de ela ter terminado e quando os adversários já não podiam argumentar nem responder-lhe. Ou o inacreditável, inverosímil e inclassificável, plano que a sua Casa Civil montou, de conluio com um jornal, para emboscar o primeiro-ministro com quem se reunia semanalmente e destinado a fazer crer que o PM tinha montado escutas ao PR— um “escândalo” fabricado para rebentar em cima das eleições legislativas. Cavaco poderá escrever o que quiser nas suas memórias, mas não poderá nunca reescrever a verdadeira história. Como o discurso vingativo da sua tomada de posse, quando convidou os jovens a revoltarem-se contra o Governo — os mesmos jovens que depois, já com um governo da sua cor política e perante o seu silêncio, emigraram daqui às centenas de milhares. Aí, logo no início do seu segundo mandato, ele despiu-se da sua fachada de árbitro e embarcou na ilegítima postura de Presidente partidário e sectário. Eduardo Catroga, um dos seus fiéis ex-“ajudantes”, dizia há dias que Cavaco foi vítima de um “preconceito de uma certa elite intelectual e social de esquerda que o critica por não ter uma cultura humanista”. Trata-se de um argumento fácil e repetido que, todavia, não consegue explicar como é que o principal desgaste da imagem dele foi justamente entre as classes populares, quando perceberam que o “homem do povo” e de Boliqueime achava pouco uma pensão de 10 mil euros por mês. Mas o tal desprezo da tal elite intelectual e social de esquerda— que é verdadeiro — não se deve à falta de “cultura humanista” de Cavaco, mas sim à sua incultura, pura e simples, e ao seu desdém por ela — como ficou demonstrado na composição das embaixadas “culturais” que levava ao estrangeiro ou dos fiéis escudeiros que distinguia. Porém, não vejo em que é que a exigência de um Presidente culto seja sinal de elitismo. Um pouco mais de cultura, de coragem e de sentido de Estado (que vêm por arrasto), teria evitado, por exemplo, que Cavaco se tivesse alienado por completo da discussão sobre o Acordo Ortográfico ou que tivesse encaixado sem um estremecimento os enxovalhos que levou em Timor, na cimeira que consagrou a vergonhosa adesão da Guiné Equatorial à CPLP, ou em Praga, quando ouviu, sem reagir, o Presidente checo ofender os portugueses. Cavaco foi submisso ou inexistente lá fora e grandiloquentemente vazio cá dentro.
Para a história ficará que, dez anos de presidência depois, deixou um país infinitamente pior do que aquele que recebeu.»
(Miguel Sousa Tavares; "Cavaco Silva: vinte anos perdidos". Crónica publicada originalmente no "Expresso" de 12  - Março - 2016. Pode ser lida na íntegra aqui)

sábado, 23 de julho de 2016

Completamente louco. O mundo

Alguém que conheça minimamente o que se passou com a resolução do BES (ocorrida durante o governo de Passos Coelho) ou com a resolução do Banif - forçada pela situação crítica em que o banco foi colocado durante a (des)governação do mesmo indivíduo, e concretizada, na falta de outra solução, poucos dias depois de o Governo de António Costa ter entrado em funções - não pode deixar de abrir os olhos de espanto quando ouve da boca de Passos Coelho esta enormidade: "Eles (o Governo de António Costa, subentenda-se) rebentam com os bancos e depois vêm dizer que a culpa é minha e da Maria Luís".
Falo de espanto e o caso não é para menos. De facto, como é possível, alguém imputar ao actual Governo responsabilidade pela situação da banca, quando os factos que estiveram na origem das dúvidas sobre a actual capacidade de solvência da banca em geral ocorreram antes da entrada em funções do executivo de António Costa?
Dizer que Passos Coelho recorre à mentira para recusar assumir as suas indiscutíveis responsabilidades, como, aliás, é seu vezo, não serve de explicação. Mesmo Passos Coelho não pode deixar de ver que uma tal mentira tem perna curta, tão evidentes são os factos. Não, a explicação terá de se buscar alhures. Suponho, para dizer a verdade, que este caso é mais um sinal da onda de loucura que, por estes dias, varre todo o mundo, com destaque para os actos de terror que matam e ferem inocentes indiscriminadamente, para instituições como a UE, onde deixou de imperar o sentido da realidade, ou para personalidades como Erdogan, Donald Trump ou Durão Barroso que perderam toda a noção do decoro. Passos Coelho não passará, afinal, no meio deste vendaval, duma figura menor a quem a História, para sorte dele, não dedicará nem uma nota de rodapé.
(Imagem e citação, daqui)

Perigoso como nunca. O mundo

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O fenómeno Trump dá que pensar. Como é evidente, nada o qualifica para um lugar de tamanha responsabilidade: não tem experiência política, não tem um pensamento minimamente estruturado e não revela possuir sequer aquele mínimo de bom senso que se recomenda para quem vai ter na mão o poder de usar armas nucleares. Todavia, Trump aí está: derrotou todos os seus (medíocres) adversários internos, obteve um número recorde de votos nas eleições primárias, encerrou a Convenção de Cleveland com um discurso eficaz dirigido ao coração do povo norte-americano (quase apagando os muitos incidentes ocorridos ao longo da Convenção, desde o discurso plagiado pela mulher até às ausências dos mais notáveis republicanos e à corajosa dissidência de Ted Cruz) e, pior ainda, vem recuperando de forma consistente nas sondagens a ponto de já ninguém considerar a sua vitória contra Hillary Clinton como algo do domínio do impossível.

O fenómeno Trump diz-nos quatro coisas essenciais. Primeiro, o ambiente mediático das sociedades modernas está a tornar a democracia uma presa fácil dos populismos mais primários. Segundo, o sentimento de insegurança das populações e o descontentamento popular com o agravamento das desigualdades nestes tempos de globalização são um terreno fértil para as lógicas antidemocráticas que se escondem por trás dos discursos ditos "antissistema". Terceiro, é preciso o Partido Republicano ter descido muito baixo para consentir na sua captura por uma deriva securitária e protecionista tão frontalmente contrária ao valor da liberdade, desde sempre inscrito na sua matriz. Quarto, as coisas são como são: perante um candidato que anuncia uma política externa e militar claramente aventureira, uma política fiscal e comercial notoriamente irresponsável e uma política de imigração perigosamente incendiária, é tempo da democracia americana cerrar fileiras contra Trump. Não pode haver hesitação: a democracia precisa de dar uma resposta forte, em legítima defesa. Oxalá o faça antes que seja tarde demais.»
(Pedro Silva Pereira; "Trump e a democracia na América". Na íntegra: aqui)
(Imagem daqui)

quarta-feira, 20 de julho de 2016

sábado, 16 de julho de 2016

No "país dos impossíveis"

A expressão em título não é minha e, embora não me recorde onde a terei lido, quase posso garantir que terá sido cunhada recentemente com o propósito de celebrar o feito da, tida como improvável, conquista pela selecção portuguesa de futebol do título de campeã europeia da modalidade desportiva em causa.  A expressão, convenhamos, é perfeitamente adequada para enaltecer o feito realizado pelos futebolistas portugueses visto que, para a maioria das pessoas, a conquista do troféu por parte da selecção portuguesa não era só altamente improvável. Conhecida a equipa a defrontar na final, o resultado que se veio a verificar (a vitórias das cores portuguesas) passou de improvável a, muito simplesmente, impossível.
Não se julgue, porém, que este seja um caso único. Portugal, corroboro eu,  é mesmo o "país dos impossíveis", pois o que seria impossível noutro país, em Portugal é, ao que parece, não só possível, como é visto como do domínio da normalidade.  Acrescento: "país dos impossíveis" e capaz do melhor e do pior.
Do melhor temos um bom exemplo na actuação da selecção portuguesa no campeonato europeu de futebol. Para exemplo do pior podemos usar um outro caso recente que está mesmo à mão de semear. De facto,  o DN inclui hoje na sua edição on line, uma entrevista concedida por Passos Coelho, peça que é encabeçada por uma afirmação atribuída ao entrevistado que teria dito esta enormidade:  "O governo tem o dever de cumprir a legislatura que roubou". (Sublinhado meu).
Significa a afirmação que Passos Coelho continua a considerar como ilegítimo o Governo liderado por António Costa, não obstante tal Governo ser suportado na Assembleia da República por uma maioria inequívoca de deputados (todos os eleitos nas listas dos partidos de esquerda: PS,  BE, PCP e PEV). 
Como é evidente, uma afirmação deste tipo, partindo de um indivíduo que, ainda que infelizmente, foi  primeiro-ministro, seria impensável em qualquer outro país onde esteja em vigor um regime democrático. Ninguém com as responsabilidades de Passos Coelho se atreveria a fazer, noutro país, uma tal afirmação, pois saberia à partida que teria que haver-se com um coro de críticas vindas de todos os quadrantes, a começar pelos órgãos de comunicação social que, em Portugal, permanecem num silêncio que, se bem que confrangedor, já não espanta, tendo em conta os lamentáveis antecedentes. 
Seja como for, certo é que aquela afirmação não é coisa de somenos. De facto, um tal dito só pode partir de alguém que, ou não conhece as regras de funcionamento da democracia, ou que recusa conformar-se com elas, o que é, em qualquer caso, muito grave. A confirmar-se a primeira hipótese teríamos de concluir que o autor da afirmação não passa de idiota que, apesar de ter exercido actividade política ao longo de décadas, não foi capaz de apreender o essencial numa democracia. Na segunda hipótese, o autor teria, no mínimo, de  ser tido na conta de um não democrata. 
Das duas, uma. Venha o diabo e escolha.
(imagem daqui

terça-feira, 5 de julho de 2016

"Buracas de Casmilo"





















"Buracas de Casmilo" é a designação atribuída a uma impressionante formação geológica existente nas proximidades da povoação de Casmilo (freguesia do Furadouro, concelho de Condeixa a Nova). 
O que, nos dia de hoje, se pode ver e admirar no local corresponde, segundo se pode ler aqui, "ao que resta de várias salas de uma gruta existente no interior do monte, resultando do abatimento da parte central de uma conduta que deixou a descoberto as suas partes laterais extremas", fenómeno que, fiquei agora a saber,  é designado por "incasão".
Se não cabe ao leigo em geologia validar ou invalidar uma explicação para a génese do fenómeno, ninguém está impedido de se deslumbrar perante as maravilhas da natureza. E é mesmo uma maravilha a que podemos ter perante os nossos olhos, indo ao local.
(Nota: O acesso ao local, a partir da povoação de Casmilo, pode fazer-se a pé, ou de carro. O acesso à povoação de Casmilo faz-se através da M609. Uma simples pesquisa no "Google maps" usando a palavra "Casmilo" fornece as indicações necessárias para quem esteja interessado numa visita ao local.)

domingo, 26 de junho de 2016

No mar dos Açores

Reportagem fotográfica (resumida) de uma viagem entre a ilha das Flores e a ilha do Corvo (ida e volta):

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Legenda:
1 - Local da partida - ancoradouro em Santa Cruz das Flores (ilha das Flores);
2 e 3 - Rochedo  e arribas no liotoral da ilha das Flores;
4 - Ilha do Corvo vista a partir da ilha das Flores;
5 - Falésia na costa da  ilha do Corvo;
6 - Vila do Corvo.
7-  "Odisseia" o barco que teria muito que contar...

sábado, 25 de junho de 2016

domingo, 19 de junho de 2016

Trabalhos de campo # 29


Suponho estarmos perante de um juvenil de Toutinegra-de-cabeça-preta (Sylvia melanocephala Gmelin), mas não tenho a certeza. Antecipadamente agradeço ao eventual visitante que possa e queira confirmar ou infirmar a minha suposição.
[Local e data: Estremoz (concelho); 11 - Junho - 2016]
(Clicando nas imagens, amplia)