segunda-feira, 29 de Setembro de 2014

Tostões ou milhões?


O Palácio de Belém assemelha-se, cada vez mais, a uma sucursal de S. Bento e Cavaco, que raramente se vê em público, deixou de ter voz própria para se limitar a dar eco às palavras de Passos Coelho. A noção que se tem é que Cavaco se anulou de vez e hoje não passa de um lacaio às ordens do primeiro-ministro. 
Pudemos, aliás, confirmar a asserção ainda recentemente quando Cavaco surgiu a comentar o caso Passos Coelho/Tecnoforma. Sobre o assunto Cavaco limitou-se a dizer, em resumo: "a informação que me foi dada é que ele [Passos Coelho] respondeu a todas as questões que lhe foram colocadas e deu todos os esclarecimentos", informação que, sabe-o a generalidade da população, pode ser tudo menos verdadeira.
De facto, nem Passos Coelho respondeu a todas as questões, nem os esclarecimento que prestou foram cabais. Muito longe disso. Para não ir mais longe e não alongar desnecessariamente este comentário, continua o povo sem se saber, por exemplo, qual o montante que Passos Coelho recebeu por via das supostas e alegadas "despesas de representação".
Cavaco que, subentende-se das suas palavras, está na posse de todos os esclarecimentos, não quererá esclarecer o povoléu, sobre tão relevante matéria? 
Por isso, pergunta-se: afinal, Aníbal Cavaco Silva, estamos a falar de tostões, ou de milhões?

O pregador Passos Coelho a ver-se ao espelho

"(...)
 Ao que sabemos, Passos foi um dos principais impulsionadores da criação desta ONG [Centro Português de Cooperação (CPPC)], que também terá tido a participação do Conselheiro de Estado Marques Mendes. Mas a CPPC não era como a ILGA, ou como os Médicos Sem Fronteiras, ou como a Unicef, como descaradamente tentou sugerir Passos Coelho nas suas explicações ao Parlamento. A CPPC era uma ONG de fachada, criada (literalmente) junto da Tecnoforma e que se dedicava a sacar fundos europeus. Quem o diz não sou eu, é o ex-dono da Tecnoforma: "Aquilo que ela devia fazer era simples: nos projectos que visassem as áreas da formação profissional, ela tentava arranjar os financiamentos para esses projectos. Depois, para implementar esses projectos, a ONG socorria-se da Tecnoforma para fornecer o know-how". Ou seja, a CPC, sob a capa da ajuda ao desenvolvimento e cooperação com os PALOP, servia para angariar negócios para a Tecnoforma. Passos Coelho, à semelhança de Relvas, era um facilitador.


Independentemente das discussões em torno das despesas de representação e da exclusividade do então deputado Pedro Passos Coelho, sabemos exactamente o que fazia o actual primeiro-ministro na CPPC. Quando Passos Coelho fala de um passado de desperdícios e da irresponsabilidade na utilização de fundos europeus, quando Passos Coelho denuncia a existência de empresas penduradas no Estado, quando Passos Coelho fala de um certo Portugal que importa deixar para trás, uma coisa sabemos: Passos está a generalizar a partir da sua própria experiência pessoal."
(João Galamba; "Moralizar acima das suas possibilidades"; Na íntegra: aqui.)

domingo, 28 de Setembro de 2014

O primeiro dos últimos dias

"Este é o primeiro dos últimos dias do actual Governo" (António Costa)


Primárias

Vencidas, sem margem para dúvidas, por António Costa, é hora de exprimir a minha satisfação por essa vitória que, em certo sentido, é o primeiro passo em direcção à derrota da direita de Cavaco, Passos & Portas, em futuras eleições legislativas. Assim o espero.
E também não fica mal desejar que a história não seja demasiado severa para com o derrotado António José Seguro, ainda que, em boa verdade, pelo seu comportamento desde que António Costa, em boa hora, tomou a iniciativa de desafiar a sua liderança, não tenha ganho o direito a um julgamento benevolente. Muito pelo contrário.

"Quem não deve, não teme"

O povo o diz e é mais que óbvio: "Quem não deve, não teme".
Se Passos Coelho, com as suas sucessivas esquivas, se recusa a revelar o que recebeu da Tecnoforma é porque tem a conciência pesada e pesadas culpas no cartório.
Se cala, sabendo que dessa forma não se livra de todas as suspeitas (os media fazem amplo eco dessas suspeições, alguns mesmo a contragosto) é porque tem a clara consciência de que, falando, a sua permanência à frente do executivo seria intolerável, mesmo para um presidente que só de vez em quando acorda. 
Ninguém me conseguirá convencer do contrário. 


sexta-feira, 26 de Setembro de 2014

Pedro Passos Coelho, um verdadeiro émulo de Madre Teresa de Calcutá



Depois de pretensamente acautelada a sua retaguarda,  combinada a versão a divulgar por Coelho e pela Tecnoforma e conhecida a decisão da PGR no sentido de não  meter o bedelho no assunto, Pedro Passos Coelho estava, finalmente, em condições de, com alguma segurança, vir prestar declarações sobre o seu relacionamento com a Tecnoforma  e a ONG que lhe estava associada, o chamado Conselho Português para a Cooperação. Curiosamente, essas declarações coincidem, no essencial com versões postas a circular ainda na véspera, por jornalistas, pelos vistos, bem informados, como o Ricardo Costa 
Passos Coelho, depois de afirmar durante largos dias de que não se lembrava do que se tinha passado, veio agora declarar, por inspiração sabe-se lá de quem, que se limitou a receber despesas de representação. 
É verdade que continua sem dizer de que quantias se trata, mas para quem deu mostras de sofrer de graves lapsos de problemas de memória, há que ter alguma paciência e esperar que, com tempo outros pormenores venham a surgir..
É, outrossim, verdade que Pedro Passos Coelho não aceitou o repto que lhe foi lançado no sentido de permitir o levantamento do sigilo bancário relativamente às suas contas, para que não subsistissem quaisquer dúvidas sobre a veracidade das suas afirmações.
A recusa, sem concessões por parte de Coelho, é a prova provada, segundo algumas mentes mal intencionadas, de que as declarações de Passos Coelho são uma aldrabice de fio a pavio.
Concedo que, atentos os antecedentes do sujeito que fazem com que ele seja tido na conta de um aldrabão profissional e de um trampolineiro de alto coturno, as pessoas possam ser levadas a fazer um tal julgamento, mas um juízo dessa natureza é, neste caso, profundamente errado.
Permitam-me  que me explique:
Logo á cabeça, pergunto, sob que o pretexto, é que se poderia exigir a Passos Coelho que fizesse "streap- tease" em público? Não era isso o que lhe era exigido? Logo com esta simples observação somos levados a concluir que Coelho recusou e recusou muito bem.
Há, porém, algo muito mais importante a alegar em abono da recusa de Passos Coelho. Este, como se sabe, ao fazer as revelações sobre as despesas de representação não se esqueceu, como lhe cumpria, de enaltecer as suas (muitas) qualidades  e, dentre elas, a sua  modéstia. Ora foi esta virtude, que ele possui em altíssimo grau, que o impediu de autorizar que fossem vasculhadas as suas contas. E por que razão, perguntar-se-á?  Pela razão simples de que por essa forma ficar-se-ia a saber que ele na distribuição de dinheiro pelos pobres e necessitados é um autêntico émulo da (falecida e agora santa) Madre Teresa de Calcutá. Nunca a sua extrema modéstia lhe consentiria que tal facto viesse a público. 
Acreditem!
(Imagem daqui)

quarta-feira, 24 de Setembro de 2014

Ressuscitou?

Ontem tinha ficado com a ideia de que Seguro se tinha suicidado em directo, mas, ao que parece, ainda anda por aí.
Terá ressuscitado ou é um sósia?

Os dias contados de Passos Coelho!

Ou muito me engano, o que acontece com frequência, pois não tenho a clarividência de tanta gente que circula por aí, a começar no inquilino de Belém. ou Passos Coelho tem os dias contados como primeiro-ministro. Digo isto, em primeiro lugar, porque Passos Coelho já não tem saída honrosa para o caso em que está envolvido relativo aos recebimentos à margem da lei enquanto deputado nos anos de 1997 a 1999. (O pedido à PGR para averiguar da legalidade de tais recebimentos não passa de manobra dilatória, devendo o pedido ser devolvido de imediato à procedência, pois, pelo que se sabe, a missão do Ministério Público não consiste em satisfazer a curiosidade de quem que seja e, como é evidente, o pedido não tem outra finalidade, já que, segundo tem sido afirmado, os alegados crimes, a terem existido, já estão prescritos.)
O que me leva, no entanto a ser tão assertivo na afirmação é facto de constatar que o "Expresso" do militante nº 1 do PSD dedica  ultimamente ao caso, uma atenção pouco usual naquelas páginas e dando dele uma perspectiva pouco favorável a um primeiro-ministro que até há pouco era tratado naquelas paragens, com uma ou outra raríssima excepção, com toda a estima e veneração. Hoje, lendo todos estes textos ("Passos foi consultor da Tecnoforma durante 3 anos em que esteve em exclusividade no Parlamento"; "Passos pede à PGR que esclareça se cometeu algum ilícito enquanto deputado"; Caso Tecnoporta. PSD à espera das explicações de Passos"; "As contradições do Parlamento sobre o passado do deputado Passos Coelho"; "Declaração de rendimentos a que Passos estava obrigado em 1999 em falta no TC"; "A cabeça de Passos está no cepo") fica-se com a ideia que Passos Coelho, para o "Expresso", já não passa de um "anjo caído". Pelo menos, é como eu o vejo. Aliás, sempre como tal o vi.

terça-feira, 23 de Setembro de 2014

E Cavaco que acautele a sua!

"A cabeça de Passos está no cepo" e Cavaco que acautele a sua se continuar a fazer de conta que não é nada com ele. Porque é.

Anda no ar um cheiro insuportável


Ser e não ser,  ao mesmo tempo, deputado em regime de excusividade é uma proeza só ao alcance de alguém como Passos Coelho. Quem o atesta, segundo o "Expresso", é a própria Assembleia da República. 
Diz o "Expresso":
"A Assembleia da República (AR) não tem a certeza sobre [se] Pedro Passos Coelho foi um deputado em exclusividade de funções ou não nos dois mandatos que cumpriu entre 1991 e 1999. Ou melhor, certeza tem: enquanto foi deputado, não foi em exclusividade. Quando deixou de se deputado, afinal tinha estado em exclusividade."(fonte)
Deve ser do tempo, mas lá que anda no ar um cheiro insuportável, lá isso é anda. 
(Imagem daqui)

O que é que Cavaco tem a dizer sobre isto?

Pergunto, porque, supostamente, Cavaco ainda passa por ser  Ppresidente da República. Será? Ou, será que, como há dias vi escrito, Cavaco actualmente já não é mais que um boneco que Passos maneja a seu bel prazer?
A gravidade do caso faz supor que os próximos dias serão decisivos para se esclarecerem as dúvidas. Serão?


A choldra

Na minha terra, um indivíduo a quem fosse atribuída a prática dos actos relatados nesta peça * não se livrava de ser tido na conta de um vigarista. Ou de um escroque.
Num país chamado Portugal, com dirigentes que, pelos vistos, convivem bem com todo o tipo de trapaças, o dito cujo é primeiro-ministro. E, porque Portugal, de há uns anos a esta parte já não tem Presidente da República, o tal indivíduo, primeiro-ministro é, e primeiro-ministro continuará a ser.
Conclusão: Portugal pode não ser a choldra de que falava Eça, mas não há dúvida de que está entregue à choldra. E uma grande choldra.

(*A peça, em  reprodução parcial)

"Afinal qual é a importância de Passos Coelho ter estado ou não em exclusividade na Assembleia da República entre 1995 e 1999? A resposta é simples: se esteve em exclusividade não podia ter recebido qualquer pagamento pelo exercício de actividades profissionais exteriores ao Parlamento. E se não esteve em exclusividade, como disse esta segunda-feira o secretário-geral do Parlamento, isso quer dizer que recebeu indevidamente cerca de 30 mil euros, correspondentes a parte do subsídio de reintegração que requereu e foi aceite.
Mas se for verdade que recebeu cinco mil euros por mês da empresa Tecnoforma, entre 1997 e 1999, para desempenhar as funções de presidente do Centro Português para a Cooperação (CPPC) — uma organização não-governamental criada por aquela empresa para lhe angariar financiamentos internacionais —, então o problema é bastante mais complicado: terá violado as regras da exclusividade e terá incorrido num crime fiscal por não ter declarado tais rendimentos nas suas declarações de IRS.

A referência aos pagamentos alegadamente feitos pela Tecnoforma, empresa de formação profissional de que Passos Coelho foi consultor a partir de 2002, e mais tarde administrador, surgiu na revista Sábado, que noticiou na semana passada o facto de o Ministério Público estar a investigar uma denúncia nos termos da qual o actual primeiro-ministro recebeu cerca de 150 mil euros naqueles três anos para dirigir o CPPC, estando em exclusividade.

Já em 2012 Passos Coelho tinha-se recusado a responder a uma pergunta do PÚBLICO sobre se tinha recebido alguma remuneração pelo cargo que desempenhara na organização. Respondeu a todas as outras perguntas, menos a essa.

Este fim-de-semana não negou que tivesse recebido os valores referidos pela Sábado, limitando-se a dizer — como fez hoje ao PÚBLICO, ao ser confrontado com o facto de ele próprio ter declarado à Assembleia da República que tinha estado em exclusividade — que “mantém a convicção de que sempre cumpriu as suas obrigações legais”.

No entanto, as declarações feitas na quinta-feira ao PÚBLICO pelo antigo patrão da Tecnoforma, Fernando Madeira, no sentido de que Passos Coelho receberia efectivamente retribuições da Tecnoforma pelos serviços prestados ao CPPC, vão no mesmo sentido da denúncia feita ao MP.

O que as declarações de IRS que entregou em São Bento para receber o subsídio de reintegração provam é que Passos Coelho não declarou ao fisco qualquer outro rendimento que não fosse o vencimento de deputado e os cerca de 24.100 euros (4.825 contos) que recebeu pelas suas colaborações em vários órgãos de comunicação social. Ou seja: se recebeu algum dinheiro da Tecnoforma naquele período cometeu um crime de fraude fiscal. Crime que estará prescrito há vários anos.

Passos Coelho nunca inscreveu no seu registo de interesses da Assembleia da República, como estava obrigado a fazer, o facto de ter presidido ao CPPC desde 1997. Na declaração de rendimentos que entregou no Tribunal Constitucional em 1995, no início do mandato, não mencionou quaisquer rendimentos que tivesse obtido no ano anterior, o último do seu primeiro mandato de deputado. No final desse mandato, em 1999, não apresentou a declaração de rendimentos a que a lei o obrigava, só voltando a satisfazer essa imposição legal quando assumiu a direcção do PSD em 2010.")


segunda-feira, 15 de Setembro de 2014

Um governo neoliberal e incompetente

"No seu famoso clássico Da Guerra (Vom Kriege, 1832), Carl von Clausewitz (1780-1831) explicou que só a lógica política consegue ter a visão de conjunto do que se joga numa guerra, e, por isso, só o poder político pode tomar as decisões mais ajustadas. A componente militar tem uma técnica própria, que ele exemplificava no saber "colocar sentinelas", mas é um simples instrumento da política. Lembrei-me frequentemente de Clausewitz nestas semanas ao acompanhar a entrada em vigor da famosa reforma do mapa judiciário. Não está em causa, agora, discutir o recuo territorial das instituições de soberania (neste caso, os tribunais). Não é a escolha política que me preocupa. O mais grave é perceber que na gramática operacional o Ministério da Justiça está a falhar rotundamente. Contudo, a paralisia do portal Citius, que aparentemente foi prevista em vários alertas que a tutela parece ter desdenhado, não é uma falha meramente técnica. Trata-se de evidente incompetência política na implementação de uma escolha estratégica. Um governo que decide avançar com a maior reforma judiciária dos últimos 200 anos (segundo as palavras da titular do cargo) sem cuidar dos instrumentos logísticos do quotidiano das instituições abrangidas, só pode ser comparado com um Estado que entrasse em guerra com um exército de objetores de consciência. Este escândalo judiciário é, na verdade, um sintoma. Veja-se, também, a descoordenação sazonal na colocação de professores. Este Governo colhe os frutos da sua ideologia anarcoliberal. A administração está em mergulho entrópico. Qualquer dia, o mais humilde ofício de qualquer repartição terá de ser feito em regime de outsourcing."
(Viriato Soromenho-Marques; "Colocar sentinelas". Daqui.Destaques meus)

"Como vamos ter eleições está toda a gente com pressa para vender"

Toda gente não será bem o caso, pois a afirmação em título, da autoria de Pedro Lino, CEO da Dif Broker, só pode reportar-se ao governo Passos & Portas e ao Banco de Portugal, uma vez que são estas duas entidades as que mandam no Novo Banco, criado à sua imagem e semelhança. Mesmo que toda essa pressa resulte em perda de valor para o Banco, acrescenta o mesmo autor. E com razão.
Temo, porém, que a pressa não tenha apenas como consequência a perda de valor. Suponho que a venda a todo o vapor e, possívelmente, aos pedaços, vai lançar no desemprego mais uns milhares de trabalhadores. Who cares?

sábado, 13 de Setembro de 2014

Um banco efémero


A escolha duma borboleta, um insecto, por definição, de vida curta, para símbolo do Novo Banco, está em perfeita sintonia com a realidade: o banco, por vontade de quem nele manda - governo e Banco de Portugal, está condenado a ser um banco efémero. 
Pelo contrário, a mesma realidade parece desmentir o propagandeado "bom começo" do Novo Banco.
A renúncia do presidente executivo, Vítor Bento, do vice-presidente, José Honório, e do administrador financeiro, João Moreira Rato, quando ainda não são decorridos 2 meses desde que tomaram posse dos seus cargos, pode ser interpretada, quaisquer que seja as razões invocadas, de muitas e variadas formas, mas nunca como "um bom começo". Pelo menos, na perspectiva do Banco Novo. O mesmo se poderá dizer quando considerado o caso do ponto de vista do interesse dos contribuintes que, a cada dia que passa, maior é o risco que correm de lhes vir a ser apresentada a factura. 
Pelo caminho que as coisas levam, vai ser uma factura e tanto.

"Falemos, então, da dívida"

«(...) o que até agora provocou a maior subida da dívida pública foi mesmo o programa de austeridade. Em 2010, a nossa dívida estava nos 94% do PIB. A última estimativa do Banco de Portugal coloca-a nos 134%. Isto é: aumentou quase em metade.


Não é difícil perceber porquê. Desde logo porque continuámos a acumular défices. Sofremos várias outras reclassificações. Mas, sobretudo, por causa do efeito de bola de neve: quando a taxa implícita de juro é superior à taxa de crescimento nominal do PIB, a dívida aumenta, mesmo que o Estado não gaste, em despesa corrente, mais do que recebe.

É praticamente impossível a Portugal cumprir a obrigação de chegar, no prazo de duas décadas, aos 60% de dívida sobre o produto estabelecidos nos tratados europeus. Os níveis de crescimento e de saldo orçamental que seriam necessários estão fora do nosso alcance - e, aliás, as maneiras de chegar a um e a outro são contraditórias entre si. O estudo apresentado ao Parlamento por Ricardo Cabral e os seus colegas, assim como os cálculos apresentados pelo Presidente na última edição dos seus "Roteiros", são eloquentes.

Ora, qualquer debate sobre a dívida que não tenha em conta estes factos carece de sentido útil. Eles mostram três coisas simples. Que o aumento descontrolado da dívida pública não é uma singularidade nem uma "falta" nossa, que deveríamos expiar, mas o efeito (certamente agravado pela fragilidade da nossa economia) de duas crises internacionais e da tibieza da resposta europeia à segunda crise, dita das dívidas soberanas. Que o programa de austeridade excessiva e antieconómica a que fomos obrigados desde 2011 só agravou o problema. E que não é possível resolvê-lo se continuarmos a seguir a mesma receita para os anos vindouros.

Talvez se compreenda assim melhor a razão que assiste aos que defendem que é preciso pensar de outra maneira: não do défice e da dívida para a economia, mas sim da economia para o défice e a dívida. Se a nossa política face à dívida só servir para castigar a economia, nunca resolveremos a questão da dívida

(Augusto Santos Silva. (Na íntegra; aqui)

sexta-feira, 12 de Setembro de 2014

O salta-pocinhas

Marinho Pinto. Alguém o leva ainda a sério?

"Capaz de tudo"

«No primeiro debate entre Seguro e Costa, o secretário geral do PS quis justificar o resultado do partido nas europeias, reconhecendo-o afinal não tão espetacular como garantiu na noite eleitoral, com o facto de "uma parte dos portugueses ainda responsabilizarem o PS pela situação a que chegámos." Ora Seguro tem com certeza razão: uma parte dos portugueses pensará assim e de facto isso pode ser um motivo para não votarem PS.

Reconhecendo desde início - porque se colocou desde o início - esse problema, Seguro tinha um de dois caminhos: ou combatia essa noção, aproveitando todas as ocasiões para explicar por que motivo está errada, ou, caso concorde com ela, assumi-la-ia, não só por uma questão de honestidade mas também por estratégia, tornando claro não deverem esperar dele a repetição do que considerará erros indesculpáveis. Porém, como é sabido, não fez uma coisa nem outra.

Segundo o próprio, "anulou-se" para "manter a paz no partido".

Ou seja, o secretário-geral do PS terá decidido esconder quem é e o que pensa para evitar cisões nas hostes do PS, escondendo-se portanto do País do qual quereria ser primeiro-ministro. Assumiu ser capaz, por calculismo e taticismo, da maior das dissimulações; assumiu que entre a verdade e ocultação, optou pela ocultação; entre a coragem e a cobardia, pela cobardia; que entre a rutura e a paz podre, quis a paz podre. E quis assim porque se sabia sem autoridade - quiçá até legitimidade - para se manter líder se abjurasse o Governo anterior.

Esta confissão surge tanto mais chocante quando, decidido agora a revelar-se em todo o seu esplendor, (...)  ele aventa que sabe coisas terríveis, às quais terá assistido bem caladinho e das quais nem depois de eleito chefe falou, para não chatear ninguém - sendo que nem agora, que finalmente se soltou, diz que coisas são.

Percebe-se que depois de ter feito e confessado tudo isto Seguro esteja de cabeça perdida por, afinal, estar em riscos de ver São Bento por um canudo. Percebe-se que alguém que achou que ser falso era a forma certa de manter o partido e chegar ao Governo não entenda que raio fez de errado; que quem acusa de traição aquele que o desafia não tenha capacidade ética para vislumbrar que a maior das traições - aos outros e a si - é fingir ser-se o que se não é.

Que seja esta fraude auto-desmascarada que pretende vitimizar-se imputando a outros oportunismo e golpes baixos e afirmar-se como epígono da transparência não deve ser grande surpresa. Quem se confessa capaz de ser nada para chegar onde quer é bem capaz de tudo.»
(Fernanda Câncio; Face desoculta. Na íntegra: aqui)

(Sem dúvida.  Um Seguro, falso que nem Judas, é capaz de tudo e de mais alguma coisa.)

Audição ou demissão?

A bancada parlamentar do PCP quer ouvir a "desaparecida" ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz sobre a situação caótica em que ficaram os tribunais na sequência da entrada em vigor da reforma judiciária.
Por seu turno, a bancada parlamentar do PS pela voz do deputado Luís Pita Ameixa, exigiu a demissão da ministra.
A crer nas notícias vindas a lume (e não há razão para duvidar delas) estamos perante uma situação que só pode ser classificada como um verdadeiro desastre que surge, não por acidente imprevisível, mas sim por culpa duma ministra claramente incompetente. A ela se deve, com efeito, o não preenchimento dos quadros dos oficiais de justiça, a não realização atempada das obras de adaptação dos edifícios e, por último, a não resolução das falhas graves detectadas no funcionamento do sistema informático para as quais foi em devido tempo alertada, como recentemente se veio a saber.
As consequências da incompetência ministerial são, pois, de extrema gravidade, já que afectam também gravemente o funcionamento dos tribunais. A simples audição da ministra, tal como foi requerida pela PCP parece-me uma resposta pouco adequada à gravidade da situação e corre, para além disso, o risco de  transformar em mero expediente de passa-culpas, ainda que não tenha sido essa a intenção do partido requerente.
O remediar da situação, atenta a incompetência revelada pela ministra, passa pela demissão desta, a menos que se admita como aceitável o prolongamento do caos entretanto instalado e a que ela, até agora,  foi incapaz de pôr termo.

quinta-feira, 11 de Setembro de 2014

Embates

1º embate: Costa versus Calimero;
2º embate: Costa versus Tó Zero.

"Futuro exíguo"

«Muito antes desta crise, a voz lúcida de Adriano Moreira alertou para a transformação de Portugal num "Estado exíguo". Onde os néscios de turno observam "gorduras", a inteligência descobre a esclerose funcional das instituições. Para uma comunidade nacional de dez milhões de cidadãos residentes, e com o nosso histórico código genético, a exiguidade do Estado sempre foi o preâmbulo para uma crise na viabilidade política nacional. As grandes tragédias fazem-se anunciar como símbolos. Numa altura em que existe uma clara renacionalização das políticas europeias - que em breve será acentuada no Reino Unido e na França - com sinais de protecionismo económico e exigências de devolução de soberania, o atual Governo continua, em claro registo de contraciclo, a desfazer-se das derradeiras alavancas económicas do País. A venda dos CTT, empresa prestigiada a nível mundial, até envergonharia os liberalíssimos EUA, que têm nos serviços postais uma das mais antigas empresas públicas federais. A venda da TAP - uma das maiores marcas de Portugal, um instrumento de política externa e um expoente da segurança no transporte aéreo - é um escândalo. Vamos terminar este ano com um défice de 10% do PIB (por mais que os malabarismos contabilísticos o queiram camuflar) e com uma dívida pública astronómica, mesmo sem incluir o aumento do perímetro orçamental exigido pelas novas regras do Sistema Europeu de Contas. A cultura do Governo, com a cumplicidade silenciosa de muita da oposição, parece ignorar que nenhum ranking internacional de competitividade substitui a decisiva missão da política, que é a de garantir o futuro da comunidade de destino a que chamamos Portugal.»
(Viriato Soromenho-Marques. Aqui. Destaque meu.)

quarta-feira, 10 de Setembro de 2014

Nem-nem

Mais novas do (des)ajustamento!

Como um peixe a nadar em seco


Diria que é como se deve sentir Carlos Moedas na pele de "novo comissário da Investigação, Ciência e Inovação". Nem a pasta que lhe foi atribuída tem a relevância de que Passos Coelho chegou a falar, nem Moedas tem aptidão para a gerir. Não fez ele parte de um governo que liquidou a Investigação, a Ciência e a Inovação em Portugal?  Um peixe fora de água é o que é.
(imagem daqui)

"Não vou discutir a baixa do IVA, não"

"Há dias, saía eu do Hospital de Santa Maria para apanhar táxi, quando ouvi: "Olá, amigo!" De um carro estacionado, um jovem estendia-me a mão. "Há quanto tempo... Não me está a reconhecer...", disse ele. Continuei dubitativo. E ele, tirando o boné: "Está a ver? Sou a cara chapada do meu pai, você ia tanta vez lanchar com ele! O Pereira... Pereira da Silva, talvez o conhecesse como Silva. Já se lembra?" E eu: "Não me lembro. Bom-dia!"... Já fui mais rápido a reagir ao conto do vigário em fase preparatória. Um dia, no Leblon, íamos eu e a minha filha, ainda garota, felizes no primeiro dia dela no Rio. Um vendedor de lotaria deixou cair no passeio, de forma dissimulada, um bilhete de lotaria. A miúda ia apanhá-lo e devolver, quando a impedi. Chamei o dono, mostrei--lhe o bilhete e cortei o começo de conversa que já ia na oferta de alguma coisa pela minha simpatia... Sei porque me lembro disto agora, ouvi o debate, ontem, das primárias no PS. Ouvi Seguro a dizer: "E sabes porquê, António?" E dizer: "Naquele tempo havia solidariedade!" E: "O que fizeste ao PS?" Já aqui o disse: não gosto de Seguro. Não é por esta ou aquela linha política. E nem é por essa coisa que salta nos políticos quando falta, o carisma. É pela cara mesmo. O falso afeto. Isto é, por uma razão política maior. (...)"
(Ferreira Fernandes. Na íntegra: aqui. Destaque meu.)