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terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Um relógio que é o perfeito símbolo de um fracasso


Ainda de que não tenha passado de mais um fait divers tão ao gosto de Paulo Portas, a inauguração do relógio em contagem decrescente para assinalar o fim do programa de ajustamento, não pode deixar de ser vista como a forma encontrada pelo irrequieto e (ir)revogável Portas para mostrar o quão "patriótico" é este governo que tão "ansioso" está em ver a troika pelas costas. 
Infelizmente, para Portas e para este governo, a mensagem transmitida pelo relógio pode ter outra leitura. Pode e tem. É que, se a ânsia em ver a troika de partida corresponde ao verdadeiro estado de espírito do governo, e admito que sim, então teremos de concluir que o relógio de Portas é o perfeito símbolo do fracasso da política deste governo.
Explico-me:
Convém lembrar que este governo é formado por dois partidos (PSD e CDS) que não só reclamaram insistentemente a vinda da troika como tudo fizeram para que essa vinda se concretizasse. (Diga-se que, do ponto de vista deles, com razão, uma vez que a presença da troika e as suas exigências eram consideradas pelos dois partidos como altamente benéficas para o país, para além de poderem servir de justificação para as políticas que eles pretendiam tomar por conta própria.)
Se este governo está agora tão ansioso pela sua partida é porque, afinal, mesmo para os dois partidos da direita no poder, as medidas tomadas a coberto da troika não produziram os efeitos desejados, ponto sobre o qual nem parece legítimo ter dúvidas. Na verdade, em última ratio, a vinda da troika visava alcançar a consolidação das contas públicas e assegurar a sustentabilidade da dívida pública. Ora, nenhum destes objectivos foi alcançado: nem a meta do défice foi atingida, nem a dívida pública diminuiu. Pelo contrário, esta até cresceu exponencialmente. 
Sobram, para se ter uma ideia mais perfeita do fracasso deste governo, os efeitos perversos da política seguida, em nome da austeridade "redentora": empobrecimento do país e da sua população, destruição da economia; aumento do desemprego; aumento da desigualdade entre os cidadãos; falta de confiança na futuro; descrença nas instituições.
Estes alguns dos "louros" com que este governo de falhados se pode enfeitar. É o que o relógio de Portas está a dizer, segundo a segundo.
(Imagem daqui)

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Sem um mínimo de vergonha

Manifestamente, não estou em condições de  saber se os termos do memorando foram o que foram em resultado da situação fragilizada em que o país porventura se encontrava, como agora defende o ministro Gaspar.
Há, no entanto, mais umas quantas coisas que também não percebo.
Por exemplo, não compreendo como é que o ministro Gaspar pode fazer uma tal afirmação sabendo-se que faz parte de um governo de coligação formado por dois partidos que não só participaram na negociação das condições do memorando, como pressionaram e saudaram a vinda da troika encarada então por eles como a única forma de resolver as dificuldades por que o país passava.
A afirmação de Gaspar, que implicitamente trata os membros da troika como um bando de malfeitores que se aproveitaram da situação de fragilidade do país é ainda mais surpreendente, vinda de quem vem.
De facto, não é ele considerado, até internacionalmente, como um "ministro da troika" ? 
E, porventura, não aceitou ele, enquanto ministro das Finanças, executar o memorando nos termos acordados?
E, por sinal, não é ele, um dos principais responsáveis pela política do "ir além da troika" em matéria de austeridade? 
De modo que as palavras de Gaspar só podem ser vistas como uma forma de escamotear as suas próprias responsabilidades e as do governo de que faz parte na situação de desastre a que a política seguida conduziu o país.
E, sim, também revelam que Gaspar, para não destoar do primeiro-ministro deste governo, também não tem um mínimo de vergonha. 

sexta-feira, 15 de março de 2013

Cambada de farsantes

Perante as previsões ora revistas na sequência da 7ª avaliação da troika  [recessão da economia  (-2,3%) a mais que duplicar a previsão inscrita no Orçamento do Estado (-1%) ; desemprego a atingir 19% no final do ano, contra os 16,4% previstos no OE) soa simplesmente a ridículo a declaração da troika de que o programa português está "no bom caminho". Para o desastre é, seguramente, um bom caminho, pelo que, perante uma tal afirmação, uma conclusão se impõe: estes gajos só podem estar a gozar com a nossa cara.
O mesmo se diga das declarações de Durão Barroso, que acha que o programa da troika em Portugal está a ser “executado correctamente” e que defende que os planos de ajustamento na União Europeia “funcionam”. Não há dúvida que funcionam, mas em sentido contrário ao desejável.
Funcionam tão bem ou tão mal que até o PSD, através do deputado Miguel Frasquilho, acaba de descobrir que, se a situação económica e social continua a degradar-se, tal é o resultado do facto de o programa de ajustamento ter sido "mal desenhado". Culpa do Sócrates, está visto, que nem "excelentemente" assessorado por essa eminência chamada Catroga, à frente duma delegação do PSD, conseguiu fazer um bom desenho. Um aselha, dirá o farsante Frasquilho que, enquanto tal, está em boa companhia. Todo o governo, a troika e e Comissão Europeia são, em conjunto, uma grande cambada de farsantes.
Mas, ao que parece, é disto mesmo que este povo gosta. Ainda bem, porque, de farsantes, estamos muito bem servidos.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Desta vez, o cozinhado vai cheirar a esturro

Como a Comissão Liquidatária (vulgo, governo) tem falhado, sistematicamente, as metas acordadas no Memorando celebrado com a troika, os resultados das várias avaliações periódicas têm também sido cozinhados de forma a que nenhuma das partes (troika e Comissão Liquidatária) tenha de reconhecer que a receita imposta também falhou.
Na última avaliação já concluída (a 6ª) o cozinhado concretizou-se com a alteração do limite do défice que passou de 4,5% para 5%, só alcançado, mesmo assim, com a contabilização de receitas extraordinárias que ainda terão de passar pelo crivo do Eurostat para se saber se podem ou não ser consideradas para tal efeito. 
Porém, na 7ª avaliação ainda em curso, perante a constatação de que as previsões de que o ministro Gaspar se serviu para a elaboração do Orçamento de Estado para este ano não passam de pura ficção, o cozinhado está, pelos vistos, muito mais difícil. Tão difícil que a avaliação, que já devia ter terminado, continua e não se sabe ainda quando será dada por finda. Com tanto tempo a cozinhar, é mais que certo que o cozinhado, desta vez, vai cheirar a esturro.