O Presidente da República (PR) vetou a alteração aprovada na Assembleia da República relativa à Lei Eleitoral, alteração através da qual se punha termo ao voto por correspondência dos emigrantes, nas eleições legislativas.
A argumentação aduzida pelo PR, no sentido de que a alteração iria promover a abstenção eleitoral é demasiado fraca para justificar a decisão, até porque a favor da alteração apontavam razões de fundo e bem mais consistentes como é o facto de o voto por correspondência não assegurar a genuinidade do voto, facto que, só por si, justificaria a decisão no sentido da promulgação.
Adiante-se que, por alguma razão, o voto por correspondência já não é admitido nas eleições presidenciais, nem nas eleições para o Parlamento Europeu. Será, pergunta-se, que as eleições legislativas têm menos importância que aquelas outras, justificando-se nas eleições legislativas menos rigor na preservação da genuinidade do voto do que nas outras ? A pergunta é puramente retórica, pois é evidente que não.
Importa, no entanto, acrescentar que a argumentação presidencial, além de fraca, é ridícula. Para tal concluir, basta que se atente no facto inegável de que a abstenção entre os emigrantes atinge já, actualmente, valores elevadíssimos. Ora, se a manutenção do voto por correspondência não impediu, no passado, esse resultado, é legítimo prever que o mesmo sistema de votação não vai impedir que a abstenção se mantenha nos actuais níveis ou que se venha mesmo a acentuar no futuro, como é o mais provável. O futuro se encarregará de no-lo dizer.
As razões do veto têm pois que ir buscar-se a outro lado e talvez não dê para errar muito se se vir nessa decisão o resultado de pressões por parte do PSD que, como é sabido, se mostrou adversário acérrimo da alteração e tudo fez para que ela não fosse avante. Suponho que eles devem saber porquê.
Seja como for, uma coisa é certa. O PR ao vetar a alteração aprovada pela Assembleia da República, pela maioria dos deputados e pela maioria dos partidos ali representados, torna-se responsável pela manutenção da actual lei que, no aspecto aqui considerado, é, a meu ver, uma má lei.
Este caso serve, aliás, para lembrar que o PR é o principal responsável pelas leis que temos, pois assume a responsabilidade não só pelas leis que promulga, mas também pelas leis que se mantêm inalteráveis por via do seu veto às alterações que as tornariam mais perfeitas. Sugere-se, por isso, que sempre que Sua Excelência venha a retomar o tema das más leis da República, se lembre que ele é também responsável por elas (não só através da promulgação, mas também do veto) e que, por tal motivo, fica-lhe bem enfiar, previamente, a carapuça.
ADENDA:
Como seria de esperar a direita (CDS/PP e PSD) congratularam-se com o veto do PR. Ao invés, o Bloco de Esquerda pronuncia-se contra por considerar que o veto é "um passo atrás em termos de fiabilidade do voto". O PS, por seu turno, usando de toda a prudência, limita-se a dizer que, na sequência do veto presidencial, "tem que haver uma ponderação e um reexame".