"Não dá para acreditar", escreve Manuel Carvalho, hoje no "Público" numa peça intitulada "
Passos no país dos Dias Loureiro" ao comentar o facto de Passos Coelho ter escolhido para apresentar como símbolo do empresário que ele deseja para Portugal, nem mais nem menos do que alguém que esteve envolvido no desastre que foi o BPN, ou como escreve Manuel Carvalho "
um arguido no caso do BPN (absolvido em primeira instância) por suspeitas num negócio que envolve um lobista libanês, uma empresa marroquina e uma tecnológica com sede em Porto Rico que fez desaparecer das contas do banco nada mais, nada menos, do que 40 milhões de euros". Ou seja, Passos Coelho apresentava ao país como exemplo a seguir o homem que Cavaco Silva, perante o escândalo, e depois de muita insistência, se viu forçado a demitir do Conselho de Estado: Dias Loureiro. Esse mesmo!
Ao contrário do que escreve Manuel Carvalho, penso que o elogio público feito por Passos Coelho a Manuel Dias Loureiro faz todo o sentido, tendo em conta que os perfis de um e de outro têm, em boa verdade, muito em comum. Para Manuel Carvalho, Dias Loureiro será um indivíduo execrável, mas o que dizer de um Passos Coelho que é um caloteiro e mau pagador, segundo o próprio testemunho, e que, pelo menos, do ponto de vista político, dificilmente pode deixar de ser visto como um aldrabão consumado?
Passos Coelho será melhor rês do que Dias Loureiro? Duvido. A meu ver, diferenças, se as há e admito que sim, serão de grau, que não de natureza. Não há, aliás, outra forma de explicar o público elogio a não ser que se admita que há, efectivamente, uma grande identificação entre quem profere o elogio e o elogiado.
Numa cerimónia pública como aquela em que os factos ocorreram, não passaria pela cabeça de ninguém, no seu perfeito juízo, enaltecer a figura de uma pessoa, ou propô-la como exemplo a seguir, se o autor do elogio não se revisse na figura do outro.
O que verdadeiramente não dá para acreditar é na ingenuidade de Manuel Carvalho que, no final do seu escrito, se dirige a Passos Coelho para que, "entre duas vírgulas, diga apenas algo como isto: “Eu não vejo Dias Loureiro como um exemplo para vencer na vida nem recomendo aos portugueses, principalmente aos mais jovens, que o tenham como modelo nas suas opções de vida”.
Eu disse: ingenuidade? Se calhar, devia dizer outra coisa.