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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

E por que não dizer prepotência?

"Salvé, Vasco Graça Moura, insigne auctor que desafiaste o dictame do Governo e reintroduziste a escripta antiga no teu Feudo Cultural de Belém ! Povo português, imitai o exemplo deste Aristides Sousa Mendes das consoantes mudas, como lhe chamou o escriptor e traductor Jorge Palinhos. Salvai as sanctas letrinhas ameaçadas pela sanha accordatária.
Mas ficai alerta, portugueses! As consoantes mudas são muito mais do que julgais.! O "c" de actual e o "p" de óptimo são apenas os últimos sobreviventes de um extermínio secular que lhes moveram os medonhos modernizadores da escripta. Há que salvar agora estas pobres víctimas, até à septima geração.
Acolhei-as pois a todas, portugueses, recolhei-as agora em vossos escriptos como a inocentes ameaçados por Herodes. Se há uma consoante muda a salvar em factura, há outra em sanctidade, e esta ainda mais sancta do que aquela. O Espírito Sancto tem uma. Maria Magdalena tem outra e Jesus Cristo? Ora! O fructo do vosso ventre, Maria, já tinha consoante muda antes de nascer. Não sabíeis? assim Ele se conformou, e nos nos incorformaremos.
Há quem diga que o accordo ortográfico é um tractado internacional que foi já transcripto para as nossas directivas internas. Dizem que o assumpto morreu.
Balelas! nada nem ninguém nos obrigará a cumprir obrigações internacionais. Vasco Graça Moura mostra o caminho, e eu - peccador que fui - vejo agora a luz. Depois da summa missão de salvar as consoantes mudas que resistem, e ressusciptar as que foram suppliciadas no passado, há que supplementar este outro desígnio com outras acções."
(...)
Rui Tavares; A voz das consoantes sem voz; in "Público", edição impressa de hoje. (Bold meu)

(Já vi classificar o "insigne auctor" Vasco Graça Moura, como um "homem com tomates" pelo facto de ter proibido a aplicação do acordo ortográfico no CCB, para onde acaba de ser nomeado em substituição de António Mega Ferreira. Lá que ele tem, tal como eu, o direito de escrever como muito bem entender, não tenho dúvidas. Não me parece, no entanto, que lhe assista legitimidade para impor a quem quer que seja a obrigatoriedade de utilizar quaisquer regras de ortografia a seu belo talante. A não ser, claro, a legitimidade de quem usa de prepotência.) 

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

O acordo ortográfico

O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa teve e tem opositores em Portugal e também no Brasil. Não sendo linguista e não podendo, por conseguinte, pronunciar-me sobre o acordo de um ponto vista científico, limito-me a constatar que a unificação da escrita é essencial para a divulgação da língua portuguesa no mundo, o que, do meu ponto de vista, é positivo.
Por exemplo: Sem a unificação da escrita, seria impensável aspirar a que a língua portuguesa alcançasse, algum dia, o estatuto de língua oficial na ONU. Mas as vantagens da unificação não se ficam pelo domínio da diplomacia. Julgo, com efeito, que são também de esperar benefícios no campo da literatura e da ciência (a circulação de livros entre o Brasil e Portugal será facilitada) e até no mundo dos negócios.
A promulgação do Acordo Ortográfico pelo presidente do Brasil, Lula da Silva, é, assim, de saudar, tanto mais que, com esta promulgação, cessam as dúvidas sobre se o Acordo passaria do papel.
Vai passar e ainda bem, digo eu.
(Ilustração tirada daqui)