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segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Suspeita justificada

«(...)Não tem merecido muita atenção o facto de Passos Coelho se recusar a enviar o cenário-base orçamental à Comissão Europeia, levando Portugal a ser o primeiro país do euro a violar esta regra. Independentemente da nossa opinião sobre esta regra (eu votei contra ela no Parlamento Europeu) não deixa de ser perturbante que um governo que a apoiou entusiasticamente queira deixar esta pedra no caminho de quem vier a seguir. O governo conhecia este calendário — todos sabíamos que assim seria quando Cavaco Silva decidiu manter as eleições para esta data — e dá assim motivos de suspeita a quem teme que haja surpresas desagradáveis nas contas do estado
(Rui Tavares; "Evitar a armadilha". Na íntegra: aqui)

segunda-feira, 13 de julho de 2015

"Parem esse homem"!

«A maior ameaça que paira sobre a Europa hoje não é a de Putin ou do fundamentalismo islâmico, dos EUA ou da China, dos eurocéticos ou dos populistas. A maior ameaça que paira sobre a Europa hoje é a que representa Wolfgang Schäuble, ministro das finanças da Alemanha.

Peso bem as palavras. Schäuble está no coração do poder. O que os outros só podem tentar fazer a partir de fora, ele conseguirá com muito mais eficácia ao liderar uma corrente de opinião entre os governos da zona euro que, se levar a sua avante, não poderá resultar senão na destruição daquilo que foi construído por todas as gerações europeias do pós-guerra.

Isto começou há alguns anos, quando Schäuble se auto-proclamou uma espécie de supremo tribunal europeu — arbitrário, parcial, absolutista e, pior do que isso, sistematicamente errado. Qualquer gesto de solidariedade ou partilha no quadro da União Europeia, dos eurobonds à mutualização da dívida, era excluído por Schäuble sob o pretexto de que os tratados não o permitiam. No entanto, ao seu olhar cirúrgico escaparam construções de base legal duvidosa ou puras ilegalidades, da troika às políticas desta, para não falar do próprio eurogrupo que se descobriu recentemente que era “puramente informal” enquanto governa os destinos de 350 milhões de europeus.

Schäuble sabe que não precisa de ter razão. Basta-lhe ser ministro das finanças do país mais rico da UE. Nenhum outro governo lhe tem feito frente. Na verdade, das poucas vezes que o verdadeiro Tribunal de Justiça da União tem sido chamado a pronunciar-se sobre as políticas centrais da zona euro há uma regularidade que se verifica: as medidas a que Schäuble se opunha são compatíveis com os tratados; muitas das que ele defendeu são de legalidade duvidosa.

A situação piorou agora quando Schäuble decidiu tirar da cartola que a reestruturação da dívida grega era impossível segundo os tratados, mas que seria muito necessária e até razoável desde que a Grécia saísse do euro por um mínimo de cinco anos. Para tal citou o artigo 125 do Tratado de Funcionamento da União Europeia que, muito claramente, não fala da zona euro, mas da própria União. Se este artigo fosse impedimento a uma reestruturação (não é) a Grécia teria de sair da própria União. Mas, mais uma vez, Schäuble sabe que há muitas formas de fazer a reestruturação da dívida grega de forma legal e compatível com os tratados. Só que, antes de lá chegar, deseja impôr aos gregos outras condições ainda mais escandalosas, nomeadamente forçando-os a consignar valores do estado num montante de 50 mil milhões de euros a um fundo controlado pelos credores.

Esta exigência, que parece vinda do pior colonialismo e imperialismo do século XIX, não pode ser entendida senão como uma provocação com o intuito de fazer fracassar qualquer negociação. Não é por acaso que os Verdes alemães anunciaram levar Schäuble ao Tribunal Constitucional do seu país por violação do objetivo constitucional de participar na construção de uma Europa “democrática e social” (artigo 23 da Constituição Alemã).

Têm toda a razão. Wolfgang Schäuble não é apenas um perigo para a Europa, mas também uma vergonha para a Alemanha. Parem esse homem, se não for já demasiado tarde.»
(Rui Tavares; "O Sr. Anti-Europa")

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

"A mulher de César morreria de vergonha"


"(...)
Nos anos 90, Pedro Passos Coelho já colaborava com a Tecnoforma, a ponto de ser fundador e presidente da ONG da empresa. Este facto foi omitido das declarações à Assembleia da República, de que Passos Coelho era deputado. Não se sabe o que fazia esta ONG; aparentemente, em três anos, nada. O máximo de que Passos Coelho se lembra é de uma universidade em Cabo Verde que nunca chegou a acontecer. Na sua biografia política, Passos Coelho nada diz sobre o Conselho Português Para a Cooperação, que galhardamente dirigia. É legítimo dizer que a sigla CPPC, da caridosa organização, significava sobretudo "Cooperar com o Pedro Passos Coelho". E, claro, com o inenarrável Miguel Relvas: o episódio da formação de inexistentes funcionários para semiexistentes aeródromos da Zona Centro, com o qual a Tecnoforma pôs uns milhões comunitários ao bolso, seria hilariante, se não fosse trágico. É inevitável olhar para aquela cultura empresarial e política e ver nela o catálogo dos nossos mais vergonhosos erros: do desperdício de fundos comunitários aos abusos das redes de influência, das escapatórias fiscais às mentiras e encobrimentos. Passos Coelho foi comparticipante, voluntário e autor de toda essa vergonha.
Pedro Passos Coelho colaborou com uma empresa sem comunicar tal facto ao Parlamento, participou de acções dessa empresa que se destinava a obter fundos comunitários para projectos inexistentes ou, na melhor das hipóteses, seminexistentes e foi presidente de uma ONG de cooperação que nunca cooperou nada que se visse, e que provavelmente nunca teve tal intenção. E isso sem entrar na questão ainda por responder de quanto dinheiro recebeu ele, directa ou indirectamente, por trabalho que parece ter sido pouco mais que nada.
Não se sabe ainda se Pedro Passos Coelho cometeu um crime ou vários, mas sabe-se que participou em algumas das mais perniciosas práticas da política e da economia no Portugal dos anos 90. A mulher de César morreria de vergonha. Qualquer delas."
(Rui Tavares; "A mulher de César, morta e enterrada". In "Público" de hoje - edição impressa, Destaques meus.)

(Na imagem retirada daqui, uma delas: Lívia)

A mulher de César e o marido "sério"

(...) Ora eu quero lá saber do que faz a mulher de César; é ao próprio César que devemos escrutinar. Os mesmos comentadores que repetem a frase sobre a mulher de César são os primeiros a baixar as armas para o marido dela. Aí, a regra parece ser: César não tem que ser sério, César não precisa de ser sério e, para mais, já toda a gente percebeu que César não é de todo sério. César só precisa de cara de pau e de uma história qualquer.
É o que se está neste momento a passar com Pedro Passos Coelho (...)".
(Rui Tavares ;" A mulher de César, morta e enterrada". No "Público" de hoje, edição impressa.)

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Um homem com imenso talento

"(...)
Dizia (...) Pedro Passos Coelho que o Estado deveria sair daquilo para que não tinha vocação.
Olhando para o último ano, percebe-se que o Estado de Pedro Passos Coelho não tem vocação para quase nada: não tem vocação para defender a escola pública, não tem vocação para desenvolver o Serviço Nacional de saúde, não tem vocação para desenhar um modelo de desenvolvimento para o país, não tem vocação para pensar uma estratégia para a economia, não tem vocação para ter um Ministério da Cultura, e por aí afora.
É um Estado com uma extraordinária falta de talento.
Resta pois ao Estado de Pedro Passos Coelho concentrar-se nas poucas coisas que sabe fazer bem: cortar nas despesas sociais, vender empresas e património, obedecer às decisões da Sra Merkel, arranjar emprego para as clientelas, e manter a estrutura de decisões no estrito quadro da partidocracia.
Mas tal como na Escola da Fontinha, este Estado tem encontrado um talento até agora pouco reconhecido em Portugal: o talento para a violência e a repressão. (...)"

(Extracto da crónica de Rui Tavares "O Estado contra a solidariedade", publicada hoje na edição impressa do "Público")