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terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Não há almoços grátis

A operação de troca de Obrigações do Tesouro (OT) com vencimento em 2014 e em 2015 por outras com vencimento em 2017 e em 2018 foi inicialmente anunciada como se se tratasse duma simples troca por troca, pois nada se adiantava quanto a juros.
Várias ilações se podem tirar face a estes novos dados:
- Confirma-se, por um lado, que "não há almoços grátis" e muito menos quando se lida com os mercados financeiros.
- Constata-se, por outro lado, que, com esta operação, o almoço vai sair mesmo muito caro a todos os portugueses, visto que o governo se dispõe a pagar, nalguns casos, mais do dobro do que o país pagava pelas OT substituídas.
- Finalmente e como é evidente, para o governo aceitar um tal agravamento das taxas de juro (superiores à mítica taxa de 4,5% que, no dizer da Comissão Europeia e do ministro Machete, seria a taxa suportável para se poder evitar um segundo resgate) é porque está desesperado e perfeitamente consciente de que, findo o programa de ajustamento, Portugal, graças à política suicida de empobrecimento, não estará em condições de se financiar a taxas de juro compatíveis com a sustentabilidade da dívida.
O governo tem, aliás, toda a razão para o seu desespero, porque, para "grande azar dos Távoras" (leia-se: portugueses) dá-se a coincidência de, no mesmo dia em que é anunciada a operação, os juros implícitos da dívida pública portuguesa terem voltado a ultrapassar os 6%.
Vista a esta luz, esta operação significa, ao fim e ao cabo, que todo o discurso que o governo tem vindo a fazer sobre a capacidade de regressar aos mercados, sem um novo resgate, ou sem programa cautelar, não passa de mais um embuste, matéria em que, sem sombra de dúvida, é especialista. 

quarta-feira, 2 de maio de 2012

"Um monumental embuste político"

"A Associação 25 de Abril (A25A) recusou participar nas comemorações oficiais do 25 Abril, embora tenha participado nas comemorações populares. Também artífices fundamentais da implantação do regime demoliberal e representativo, o antigo Presidente da República (PR) Mário Soares e o antigo deputado e vice-presidente da AR (Assembleia da República) Manuel Alegre juntaram-se-lhe no protesto. Entre os argumentos da A25A está a ideia de que “o contrato social estabelecido na Constituição da República Portuguesa (CRP) foi rompido pelo poder”. Será que o modelo de democracia e de contrato social, vertidos na CRP, estão em risco com esta governação?
Em primeiro lugar, é óbvio que princípios fundamentais de uma democracia representativa têm sido violados com a ação deste governo. Numa democracia representativa há duas funções essenciais (das eleições): a representação e a responsabilização. A representação assenta num “contrato” entre os partidos, que propõem aos eleitores determinados pacotes de políticas públicas, e os eleitores, que votam nos diferentes competidores tendo em conta essas propostas. Basta ver o vídeo que circula no YouTube, “Passos Coelho
(PPC) Best of 2010-2011”, para constatar que estamos perante um monumental embuste político. Aí se pode ouvir PPC, candidato, em muitos casos já depois de conhecido o acordo com a troika, a dizer que não cortará salários, que não cortará subsídios, que se tiver que subir impostos privilegiará os impostos indiretos (IVA), que não acabará com o IVA intermédio para a restauração, que poupará as classes médias, que se oporá a cortes nos benefícios fiscais (em saúde e educação), que não quer liberalizar os despedimentos… que nunca dirá que só há um caminho… E note-se que muitos dos compromissos violados, porventura os mais gravosos, não decorrem do acordo com a troika (cortes de salários, subsídios
e pensões), e contrariam os programas eleitorais e de governo dos partidos vencedores em 2011. Não é a primeira vez que há compromissos eleitorais que são violados, mas nesta extensão, com esta gravidade e em tão pouco tempo, é uma novidade absoluta. Mais grave: tudo isto tem sido feito com o beneplácito do PS, e as suas “abstenções violentas”, e do atual Presidente da República. Acresce que vários constitucionalistas de prestígio, bem como um grupo de deputados que pediu a fiscalização constitucional dos cortes de subsídios, pensam que muitas destas medidas representam entorses ao Estado de direito e à CRP. Perante isto, a ministra da Justiça não diz que cumprirá escrupulosamente as orientações do TC, quaisquer que elas sejam, como competiria a quem tem a tutela do Estado de direito, diz sim que se o TC chumbar os cortes “será o colapso”, “porque não há outro caminho”.
Em segundo lugar, temos a escandalosa dualidade de critérios (ver também texto da A25A). De facto, para transformar o Estado social num Estado assistencial, para liberalizar os despedimentos (tornando-os absurdamente fáceis e baratos), para aumentar a carga de trabalho e reduzir remunerações (num dos países da UE onde já se trabalha mais horas e o pagamento horário já é dos mais baixos), tem sido uma urgência absoluta e uma vontade explícita de ir muito além da troika. Pelo contrário, e apesar das circunstâncias alegadamente extraordinárias que explicariam a necessidade de violar grosseiramente compromissos eleitorais cruciais, noutros domínios que tocam os privilégios do sector privado que vive de principescas rendas pagas pelo Estado, não só nada (ou muito pouco) se faz, como os indícios apontam para se querer ficar muito aquém da troika, se é que se quer cumprir o memorandum: “rendas excessivas” nas parcerias público-privadas e no sector da energia; cortes nos “consumos intermédios” (leia-se cortes na externalização de funções do Estado para escritórios de advogados e firmas de consultoria); etc. Tudo isto demonstra que não há só um caminho, e que o caminho seguido resulta não tanto do acordo com a troika como de um programa ideológico radical (da coligação governamental) que se esconde atrás do memorandum.
Só por isto, o sobressalto cívico da A25A, de Soares e de Alegre está inteiramente justificado. O que espanta é que, perante o monumental embuste político, não haja um movimento geral de indignação (dos cidadãos, dos jornalistas, da oposição, dos cientistas sociais e políticos, etc.), antes uma apatia geral. Espanta também, a contrario do que se passa noutros países, a fraqueza dos novos movimentos sociais e a sucessão de embriões falhados de novos partidos, que têm surgido como resposta à crise democrática que vivemos e ao bloqueamento das respostas sociopolíticas à mesma."

[André Freire; "Sobressalto cívico contra uma democracia ultrajada" (hoje no "Público", edição impressa)]

terça-feira, 1 de julho de 2008

Embuste ?



A acusação de Louçã surge a propósito da ida do Ministro da Economia, Manuel Pinho, a um supermercado anunciar que os preços baixaram com a descida da taxa máxima do IVA para 20%.
Mas onde é que está o embuste ?
"Embuste" significa "mentira artificiosa, patranha, ardil, engano, e logro" (Lexicoteca - Moderno Dicionário da Língua Portuguesa - Círculo de Leitores , 1985). Ora não se vê onde é que o ministro faltou à verdade, pois é certo que, por efeito da descida da taxa máxima do IVA, há preços que baixaram, como se pode ver aqui.

O que o ministro fez foi propaganda, a meu ver, perfeitamente dispensável, mas, pelos vistos, os políticos não passam sem ela e, manda a verdade que se diga que ninguém foge à regra, incluindo Francisco Louçã que, na matéria, é um perito e esta sua intervenção até serve para o comprovar.

(A imagem foi retirada daqui)