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quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Iliteracia ou má fé?

Não sei se houve algum órgão de comunicação social que não tenha aproveitado a apresentação dos cálculos finais do programa eleitoral do PS na quarta-feira para vir proclamar que António Costa prometia a criação de 207 mil novos empregos. Se um ou outro órgão de comunicação não alinhou pelo mesmo diapasão e foi capaz de fazer uma leitura correcta do que foi dito na ocasião, é caso para festejar, porque estaremos, em tal hipótese, a falar de uma avis rara. De facto, lamentavelmente,  a generalidade dos media ou sofre de grave iliteracia, ou, o que é pior, distorce os factos movida por má fé.
A distorção entre o que foi afirmado, na referida apresentação e o que veio a ser noticiado é de tal forma flagrante que António Costa se viu obrigado a prestar novos esclarecimentos, afirmando para o efeito: "Eu não prometo 207 mil postos de trabalho, eu comprometo-me com um conjunto de medidas de política que tendo por prioridade a criação de emprego têm um estudo técnico a suportá-lo que estima um conjunto de resultados, na dívida, no crescimento, na redução do défice e também no emprego".
Será que a iliteracia é tão grande ou a má fé tão evidente que não dá para se conseguir distinguir uma estimativa em função de certos dados e uma promessa de resultado?

terça-feira, 15 de julho de 2014

Que é feito do sucesso?

Estranhamente, numa altura em que o caso GES/BES está a ser um caso de sucesso mediático, com repercussões a nível mundial, a palavra "sucesso" desapareceu do léxico dos actuais governantes. Estranhamente, repito, até porque há outros sucessos dignos de nota, mas sem a merecida repercussão na opinião púbica. A começar pelo "sucesso" alcançado pelo governador do Banco de Portugal precisamente na gestão da crise do BES, como, muito a propósito, se salienta e demonstra aqui.
Mas há mais. Como notou o J Nascimento Rodrigues, no Facebook, "a dívida pública, na ótica de Maastricht, em final de maio, subiu (dados do BdP) para 135% do PIB (...) e os indicadores externos ligados à situação financeira global do país agravaram-se. A dívida externa (pública e privada) líquida subiu de 85% do PIB no trimestre de assinatura do resgate em 2011 para 106,8% do PIB no primeiro trimestre de 2014 e a posição líquida de investimento internacional (que avalia o saldo entre os ativos externos detidos por portugueses e os ativos em Portugal detidos por não residentes), que é negativa, agravou-se, naquele mesmo período, de 105,8% para 123,3%".
Aparentemente, com excepção do J Nascimento Rodrigues, ninguém se deu conta destes "sucessos".
Que este "governo de mosquitos"* não esteja interessado em propagandear tamanhos "êxitos" compreende-se perfeitamente. Que as oposições e os media, com a assinalada excepção, não se sirvam destes números para desmascarar a propaganda governamental, já é motivo para grande preocupação, pois, pelo menos à primeira vista parece que uns (os partidos da oposição) estão pouco atentos aos problemas reais do país e que os outros (os media) não estão a cumprir a sua função que é, antes de mais, informar. 

(*Ver explicação para a expressão no "post" anterior) 

quinta-feira, 3 de maio de 2012

A miragem

Avolumam-se os sinais de que alguma imprensa começa a distanciar-se da política seguida pelo governo Passos/Coelho, porque, mesmo para a direita que domina os media, está a ficar claro que este governo de incompetentes é incapaz de levar o barco a bom termo. Já não era sem tempo, digo eu, tão gravosas têm sido as consequências das políticas prosseguidas. Para ilustrar essa mudança de perspectiva sirvo-me do texto de Helena Garrido, directora adjunta do Jornal de Negócios, intitulado "2018? Ou nunca mais?". Ora vejam  este pequeno extracto:
"(...)
É neste país com projecções maravilhosas de crescimento que o primeiro-ministro resolve dizer, também no dia do trabalhador, que os portugueses vão ter de viver com taxas de desemprego a que não estavam habituados. E é neste país também que o Governo promete devolver tudo o que tirou de rendimento aos funcionários públicos em 2018, se as contas públicas assim o permitirem.
E porque não deixarão as contas públicas devolver o salário à função pública e parte dos impostos a todos os cidadãos? É aqui que regressamos à impossibilidade daquelas previsões de prosperidade que o Governo nos apresentou no dia anterior ao feriado do trabalhador.
Dez meses passados com este Governo, as únicas medidas visíveis são as que reduziram salários, aumentaram o tempo de trabalho, facilitaram o despedimento e agravaram impostos. (...) Mas onde estão as medidas que também deviam ter sido tomadas? O que não foi feito nas parecerias público-privadas, na energia e nos impostos será o grande travão a esse país de prosperidade que o Governo vê nas suas previsões. Recuperação total dos salários em 2018? Sem a coragem de enfrentar quem impede o país de crescer, 2018 quer dizer nunca mais, nunca mais para os funcionários públicos, nunca mais para todos nós. A prosperidade será uma miragem quase eterna."
(Na íntegra, aqui)

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

"Retrato de grupo com o país ao fundo"

(...)
"Passei uma boa parte da vida a dizer que as manipulações da informação a que assistimos na imprensa - e com maioria de razão, na televisão - eram na sua maioria acidentais, fruto de incompetências, desleixos. Seria demasiado complicado orquestrar tudo isso.
Mas seja qual for a razão, será que os jornalistas da televisão se dão conta do retrato que fazem do país? Um país resignado, onde o único discurso pertence ao Governo, onde não há opções políticas, reais discordâncias, debates em pé de igualdade, alternativas, revolta, indignidades, hipocrisias? Onde há apenas assaltos para justificar o medo, acidentes para emocionar, pobres para justificar a caridade e governantes tão generosos que dão sete euros por mês aos mais pobres e que nos explicam que não sobra dinheiro para o SNS depois de pagar o juro das dívidas que meteram nos bolsos dos seus amigos?"
(José Vítor Malheiros, in "Público", edição impressa de hoje)

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Um relatório à medida

Apesar de surpreendido com a «aprovação do plano de sustentabilidade económica e financeira da RTP», o  Grupo de Trabalho para a definição do conceito de serviço público de comunicação social (GT) [reduzido após a saída de Felisbela Lopes, Francisco Sarsfield Cabral e João Vasco de Lara Everard do Amaral (que, pelos vistos, não são de tão boa boca quanto os restantes) a João Luís Correia Duque (o coordenador que, de comunicação social deve perceber mais ou menos o mesmo que eu) e a António Ribeiro Cristóvão; Eduardo Cintra Torres; José Manuel Fernandes; Manuel José Damásio; Manuel Villaverde Cabral e Manuela Franco) acabou por engolir aquela desconsideração, bastando-se com uma espécie de explicação do ministro Relvas e lá apresentou o seu relatório*. Não sendo entendido na matéria, não vou apreciá-lo em profundidade. Deixo essa tarefa a especialistas como Arons de Carvalho, por exemplo, que já se pronunciou sobre o assunto. Tal facto não impede que deixe aqui um breve comentário  sobre algumas das propostas mais discutíveis.
A começar pela proposta de extinção, pura e simples, da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), como se não fossem já bem conhecidos os  resultados da, pelos vistos, por eles bem-amada auto-regulação, noutros sectores, como o sector financeiro internacional, por exemplo.
Passando depois ao conceito de serviço público de comunicação social defendido no relatório constata-se que o GT: propõe a extinção da RTP Informação e da RTP Memória e a fusão da RTP Internacional e da RTP África; defende quanto "aos conteúdos noticiosos do operador de serviço público de rádio e televisão"  que  "sejam concentrados em noticiários curtos, (...)  limitados ao essencial e [que] recuperem o carácter verdadeiramente informativo, libertos da crescente dimensão subjectiva e opinativa no jornalismo", com a notável particularidade de conceber o serviço internacional como "um instrumento da política externa, devendo depender a definição do contrato-programa e seu financiamento do Ministério dos Negócios Estrangeiros", conceito que já levou a que se rotulasse o relatório de "albanês" (Eduardo Pitta) e que, a tal propósito, já se tenha falado em "saudades da Albânia (Porfírio Silva).
Quanto a financiamento do serviço público, nada de publicidade, diz o relatório, pois não se pode cortar no bolo, destinado, por inteiro, segundo o GT, aos operadores privados do audiovisual. Esta malta, com destaque para sua alteza, o Duque, o famigerado Zé Manuel e Villaverde Cabral (os outros não conheço) não deixa os seus créditos de defensores do estado liberal, por mãos alheias. O Estado pode ser mínimo, mas, sem publicidade, lá terá que engordar, à custa do contribuintes, os operadores privados.
Neste sentido, bem se pode dizer que até parece que o relatório foi encomendado pelo sector sector privado da comunicação social, pois não há dúvida que é feito à medida dos seus interesses.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Uma boa notícia e um senão

Uma boa notícia, sem dúvida. Tem, porém, um senão: a notícia diz respeito a um período em que Portugal ainda era, para Passos Coelho e Cª, "uma ilha", governada por José Sócrates e (imaginem!) estava em crise. Depois disso chegaram ao poder uns rapazes milagrareiros, a cujos milagres estamos a assistir e de cujos resultados falaremos daqui por uns tempos.
O espantoso, no meio de tudo isto, é  verificar que uma grande parte da população se deixou ir na conversa duns quantos vendedores de banha da cobra . E tão facilmente *!
* Exagero, pois os vendedores da banha da cobra contaram com a participação dos órgãos de comunicação social e nem toda a gente ainda se apercebeu que a generalidade dos media é comandada pelos interesses dos seus patrões e não pela objectividade como deveria ser seu apanágio e obrigação.
Adiante...

quinta-feira, 27 de maio de 2010

É disso que a casa gasta, pá!

Em crónica ontem publicada no "Público" sob o título "Abram os olhinhos, pá !" (já acessível aqui) Rui Tavares (historiador e deputado independente ao Parlamento Europeu pelo BE) dá-nos conta do desinteresse com que os jornalistas portugueses (não) acompanham os trabalhos do Parlamento Europeu, não dando qualquer relevo a assuntos que ganham destaque noutros países como a Alemanha, França, Reino Unido e Estados Unidos e estranha que a não notícia de que o Parlamento Europeu iria gastar 4,3 milhões de euros na compra de um iPad para cada deputado europeu tenha ganho um inesperado relevo na imprensa portuguesa.
Estranha o Rui Tavares, mas sem razão, porque são as não notícias, as notícias falsas, a maledicência, a coscuvilhice e o "populismo antipolítico" as matérias que mais servem de alimento aos media portugueses.
É disso que a casa gasta, pá!
E não se admire o Rui Tavares se o seu conselho "Já agora, mantenham-se acordados para as coisas sérias também" vier a cair em saco roto. É o mais provável, para não dizer que é mais que certo. 

quinta-feira, 4 de março de 2010

Frase do dia

"Dizer que fomos instrumentalizados é um insulto"
Zeinal Bava, presiente da Comissão Executiva da PT, a propósito do gorado negócio PT/TVI. Aqui.

terça-feira, 2 de março de 2010

O óbvio e a novela ...

Parece evidente, mas para alguns espíritos foi preciso que Bernardo Bairrão o tivesse vindo a dizer à Comissão de Ética da Assembleia da República.
A afirmação tem a mesma autoria e também parece óbvia, dado que entre o momento em que surgem as críticas do primeiro-ministro e a decisão da suspensão medeia largo tempo. Admitir o contrário, seria pressupor que a administração da Media capital tenha andado a dormir. E mais crível se torna a afirmação quando o seu autor reconhece que na base da decisão  esteve “ a necessidade de uniformizar o noticiário” com a restante linha informativa da estação e as críticas (mais que justas, digo eu) da Entidade Reguladora para a Comunicação Social àquele formato.
O autor da afirmação é o mesmo e, pelo que se tem visto, a opinião é secundada por toda a gente ligada aos media que não milite na concorrência.

Tudo isto é óbvio e faz sentido, mas vivemos num país em que as novelas são muito apreciadas por alguma gentinha. Não admira, pois, que a novela vá continuar. Por enquanto, na Comissão de Ética. Os próximos capítulos na Comissão de Inquérito. Haja pachorra !

quarta-feira, 4 de março de 2009

Quando a boca lhes foge para a verdade

Política? E eu a julgar que estávamos perante uma investigação criminal !
De vez em quando, aos media foge-lhes a boca para a verdade. Neste caso, pelos vistos, a intenção é fazer "política" à sombra de uma investigação criminal. Não é novidade, mas agradece-se a confirmação.

terça-feira, 27 de maio de 2008

A estupidez é que comanda a vida ?



Tem vindo a ser referido na imprensa que a cadeia de lojas Lidl havia decidido limitar as vendas de arroz a 10 quilos por cliente, restrição que entretanto terá sido levantada, na sequência da intervenção do Secretário de Estado do Comércio, Serviços e Defesa do Consumidor que considerou (e bem) que aquela medida era alarmista e contraproducente, pois poderia levar ao açambarcamento e à subida especulativa do preço.
Dito isto, poder-se-ia concluir que tudo está bem quando acaba bem e dar por findo este apontamento. O caso merece, no entanto, alguma reflexão suplementar, pois é evidente que o Lidl não tomou a iniciativa de criar a restrição na venda de arroz por sua livre e arbitrária iniciativa.
Fê-lo certamente por se dar conta da existência de uma procura excessiva do produto, tendo em vista o seu armazenamento pela clientela, por se tratar de um alimento facilmente conservável, procura que (tudo o indica) teve origem em notícias alarmistas postas a circular na comunicação social, alertando não só para a eventual alta dos preços dos cereais (facto que parece certo) mas também para a sua possível falta (facto que, pelo menos a nível da União Europeia, tem sido desmentido pelas autoridades nacionais e europeias).
A generalidade dos consumidores é não só facilmente influenciável pelos media, mas comporta-se também muitas vezes de forma irracional e este caso, a meu ver, comprova-o duplamente: Por um lado dá crédito excessivo a uma comunicação social que vive, em boa medida, do alarmismo e do escândalo (porque, infelizmente, é com notícias desse tipo que mais factura) e por outro lado nem sequer se apercebe que com os açambarcamentos dá origem a um aumento da procura e está a contribuir, por essa via, para a alta dos preços, tornando-se vítima do seu próprio comportamento.
Forçando a nota, dir-se-ia que, tal comportamento mostra que ao contrário da lição do Poeta António Gedeão, algumas vezes não é "O sonho que comanda a vida" mas sim a estupidez.