sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Mais uma perda

A notícia do falecimento de Manuel António Pina, poeta, escritor e jornalista, meu conterrâneo, porque natural do mesmo concelho (Sabugal), onde ainda não há muito tinha sido homenageado, tão frequentes vezes aqui citado, apanhou-me desprevenido.
É verdade que já há algum tempo que não via publicadas as suas crónicas no JN, crónicas que era um prazer ler, porque cheias de humanidade e de humor.
É mais uma perda, e grande, para as letras portugueses e para cada um dos seu leitores, onde me incluo. 
(síntese da sua biografia: aqui)

"Eutanásia Económica"


"Das duas uma: ou o Governo do ministro das Finanças vê o que quase mais ninguém vê (nem sequer o FMI) e fará da poção mágica explosiva para o próximo ano um milagre económico-financeiro nunca antes visto, ou estará a promover a eutanásia económica colectiva do país, qual enfermo sem cura sedado por alguém com reputação internacional e discurso pausado.
Acreditar na primeira hipótese tornou-se numa mera questão de fé, porque não há qualquer motivo racional para acreditar que o reforço de uma medicação que não resultou, possa agora ter sucesso.
Por que votaram os Portugueses no PSD/CDS? (...) Uma coisa é certa: ninguém votou nisto! Ninguém votou num governo socialista adjectivado de neoliberal. Ninguém votou num Governo que é liberal no que é fácil (ou seja, privatizar empresas com potencial), socialista na visão que tem do sistema fiscal, dirigista no controlo que pretende exercer sobre entidades privadas (como acontece, por exemplo, com fundações privadas que nada recebem do Estado ou com gasolineiras), arrogante para com o tecido empresarial e totalmente inoperante na reforma e supressão dos inúmeros tentáculos do Estado. É evidente que o actual Governo vive refém de uma dívida pela qual não é responsável e, por isso, decidiu tomar a ‘troika' como base de suporte social, mas as pessoas começam a ficar cansadas que o sentido do seu voto não seja respeitado. É óbvio que ninguém responsável pode querer "a ‘troika' fora daqui", mas é preciso ter noção que os nossos financiadores não são, nem nunca poderão ser, a base social e democrática de um Governo e que, em última instância, só esta garantirá a estabilidade necessária para que o país possa cumprir as suas obrigações. Portanto, exige-se dos governantes mais política e bom senso, menos dependência da tecnocracia de gabinete e, acima de tudo, mais respeito pela base social que lhes confiou o poder. Se tal persistir em não suceder, a democracia não ficará menos desrespeitada do que já está se o Presidente da República resolver agir."
(Francisco Proença de Carvalho: Na íntegra: aqui)

"Inevitável?"


"O principal argumento do ministro das Finanças em defesa do Orçamento que o Governo apresentou para 2013 é o tradicional argumento da inevitabilidade: sem este “enorme aumento de impostos”, alega o ministro, Portugal não será capaz de cumprir no próximo ano a meta do défice fixada na 5ª avaliação do Programa de Assistência Financeira: 4,5% do PIB.
Daí que Vítor Gaspar tenha até tirado uma conclusão simples - e simplista: estar contra este Orçamento, disse ele, é estar contra o cumprimento do Programa acordado com a ‘troika'.
Conviria, antes do mais, assumir a realidade: o argumento do ministro das Finanças já não convence ninguém, mesmo entre os mais fervorosos apoiantes da actual maioria, por uma única razão: o Governo falhou a meta do défice prevista para este ano. Apesar dos muitos sacrifícios pedidos aos portugueses, a opção do Governo por uma austeridade "além da ‘troika'" conduziu a um falhanço colossal, cuja verdadeira dimensão está ainda por apurar (o défice previsto de 4,5% do PIB ficará este ano, certamente, acima dos 6% ou até talvez dos 7%...). E é este o problema: não há quem acredite que reincidir no erro, agora em dose redobrada de austeridade, vá permitir alcançar em 2013 os resultados que o Governo não conseguiu obter em 2012. A prova está feita: assim não vamos lá.
Acresce que a via proposta tem um preço absolutamente insuportável para a economia (onde a recessão será certamente mais profunda do que o previsto pelo Governo), pagando-se em falências, em desemprego e em empobrecimento das famílias. E se é verdade que os portugueses se revelaram dispostos a fazer sacrifícios para alcançar resultados, verdade é também que ninguém está disponível para fazer sacrifícios brutais que não levam a lado nenhum. E essa é a razão da desesperança do País.
A resposta do ministro das Finanças, sabemos qual é: a margem de manobra é "inexistente". De facto, armadilhada entre as metas orçamentais fixadas na 5ª avaliação do Programa de Assistência Financeira e este brutal programa de austeridade, absolutamente inviável, mas também já unilateralmente negociado pelo Governo com a ‘troika', a discussão do Orçamento para 2013 corre o sério risco de se tornar esquizofrénica. E só há uma forma de quebrar este círculo vicioso: recusar a discussão enganadora de medidas pontuais alternativas para colocar no centro da discussão, de uma vez por todas, a estratégia orçamental que está subjacente às sucessivas revisões do Memorando e ao Orçamento para 2013.
Bem o sabemos, tanto o Governo como a ‘troika' têm procurado branquear todos os falhanços na execução do Programa, para salvaguardar, a todo o custo, a imagem de um país que cumpre, capaz de se transformar na desejada "história de sucesso". Mas a realidade, infelizmente, é outra: a dimensão do falhanço do Governo na execução orçamental de 2012, com as implicações que tem na factura brutal de austeridade em 2013, deveria forçosamente ter conduzido a uma outra negociação com a ‘troika', que desse a Portugal mais tempo para cumprir as metas orçamentais.
Pondo as coisas como elas são: se é verdade, como pretende o Governo, que as metas orçamentais definidas na 5ª avaliação do Programa de Assistência Financeira implicam "inevitavelmente" este Orçamento arrasador para a economia, para o emprego e para as famílias, então era estrita obrigação do Governo, no momento certo, negociar outras metas com a ‘troika', envolvendo se necessário os parceiros sociais e os partidos da oposição. O Governo, porém, fez a sua escolha de sempre e preferiu seguir sozinho. Não pode surpreender-se agora por estar isolado com o seu Orçamento."
(Pedro Silva Pereira; "Inevitável?"; daqui)
Bem se justifica a interrogação do autor. Inevitável só a morte. E, porventura, também este Orçamento,  mas tão só porque ou foi essa a escolha do governo.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Olá, mercados! Adeus, mercados!

Já há dias, Pedro Carvalho, subdirector, do Diário Económico havia chamado a atenção para o facto de que "no capítulo sobre o financiamento do Estado para 2013 não está previsto o regresso aos mercados. (...) O Governo assume que não vai emitir uma única Obrigação ".
À mesma conclusão chegou também Ana Rita Faria que hoje, em artigo no "Público", sob o título "Factura com os juros da dívida será em 2013 a maior dos últimos 17 anos" (sem link) escreve: "Curiosamente, o OE não prevê, contudo, nenhuma emissão de dívida de longo prazo (as chamadas Obrigações do Tesouro)"
Sinal iniludível de que o governo não conta, ao contrário do que tem propalado, regressar a financiar-se,  a longo prazo, nos mercados, porque, obviamente, também não acredita que Portugal tenha acesso a tais mercados.
Temos pois que o discurso que o governo tem vindo a fazer sobre a crescente credibilidade junto dos mercados não passa de pura retórica, ou para ser mais rigoroso, de uma trapaça, expediente e matérias em que este governo é, de resto, perito.
Falando deste governo também se poderia falar de "malabarice", já que o autor do neologismo é, nem mais nem menos, que o alegado primeiro-ministro. Digo alegado, porque, pelo menos no dizer de António Borges, pessoa supostamente bem informada, o timoneiro do barco não é ele.
A "malabarice" chegou pela mão de Passos Coelho e, pelos vistos, vai permanecer enquanto este governo durar.

Passos Coelho na estratosfera


Li algures que Passos Coelho andava lá por fora a dizer que " O Governo não está para cair". E de facto, não é mentira. Já caiu. O próprio, vindo da estratosfera, já vai aqui, em plena queda.
(imagem daqui)

"O atributo dos lacaios"


"O primeiro-ministro (PM) no mais recente debate parlamentar afirmou: "Eu pertenço a uma raça de homens que honra os compromissos do país." E continuou num registo onde se identificava a conduta do indivíduo singular com a acção do governante. O que o PM não parece compreender é que as dívidas de um Estado não são as dívidas de uma família ao merceeiro da rua. O lema de conduta do estadista é o "salus populi" (o bem público). A responsabilidade do PM é para com o povo português. Para com a sua segurança e liberdade. A honra do homem e a prudência do estadista não se contradizem necessariamente, mas também não se confundem. Quando o rei de Leão, Afonso VII, cercou Guimarães para quebrar a vontade independentista do jovem Afonso Henriques, foi a palavra de honra do seu aio, Egas Moniz, que fez levantar o cerco. Contudo, o fundador do reino de Portugal seguiu o seu rumo. Mudou a capital para Coimbra e invadiu a Galiza. A honra de Egas Moniz foi salva com a coragem moral e física que o levou a Toledo, colocando a sua vida e a da sua família nas mãos do rei a quem tinha prometido o impossível. Afonso VII perdoou ao homem, comovido pela sua dignidade, e foi obrigado a reconhecer a grandeza do seu primo, o nosso primeiro rei. Invocar a honra para justificar uma austeridade suicidária, em vez de arriscar uma estratégia que permita, em diálogo firme com os nossos aliados e adversários na Zona Euro e na troika, um novo caminho nacional e europeu que salve a esperança, é o erro imperdoável do PM. Se tivesse a grandeza do estadista, teria o país a apoiá-lo, nos sacrifícios internos e na coragem externa. Assim, sem a grandeza do rei, nem a honra do aio, o PM corre o risco de se confundir com a teimosia servil que, na Idade Média, era o atributo dos lacaios."
(Viriato Soromenho Marques; "A honra no sítio errado";in DN)

O palhaço foi ao circo...


...e andou por lá a fazer fitas durante uns dias. Agora regressou. Mas não deixou de ser o mesmo "palhaço" (sem  ofensa para os verdadeiros profissionais do exigente ofício).
Refiro-me, neste caso, ao "palhaço"  que aparece à esquerda na fotografia (tirada daqui).

Falou? Tramou-se!


Vítor Ramalho teve a ousadia de criticar a  "política de cortes das dotações atribuídas pelo Estado às fundações"? 
Falou?  
Ora aqui está um belo pretexto para aplicar a pena máxima:  o despedimento de Vítor Ramalho do cargo de presidente do InatelCom tal rapidez que é uma injustiça dizer que este governo está paralisado. Fica a lição: quem não prescinde da sua independência de julgamento, com este governo, trama-se.
(notícia e imagem daqui)

Quanto a isso, não faço questão


Nenhuma mesmo.  Passos Coelho pode perfeitamente escolher. Corre, no entanto, o risco de, com lume mais forte, ficar um tanto ou quanto esturricado.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

"Para palavras loucas, orelhas moucas"

António Borges que, pelos vistos,  não pode ficar calado durante muito tempo, veio hoje dizer que " temos a enorme sorte de contar com o professor Vítor Gaspar" e que "Não se muda de timoneiro a meio da tempestade, sobretudo quando ele é muito bom".  
Borges tem o indiscutível direito de dizer que, para ele, é uma "enorme sorte"  poder contar com o ministro Gaspar. E até é compreensível que o diga, uma vez que Gaspar lhe paga muitíssimo bem para fazer não se sabe bem o quê.
Já falar em nome de todos os portugueses é, claramente, um abuso. Falando por mim, digo que contar com Gaspar é uma sorte que dispenso em absoluto.
Já quanto à referência ao timoneiro, julgava eu que o timoneiro era outro, mas Borges, nesse ponto, está, por certo, em muito  melhores condições para saber quem é, de facto, o timoneiro. Noto, no entanto, que, há aqui coisa de ano e meio, não  ouvi a Borges emitir a sentença de que "não se muda de timoneiro a meio da tempestade".
Temo, porém, que já me tenha alongado demasiado no comentário. De facto, o mais avisado é seguir o conselho: "Para Palavras loucas, orelhas moucas".
(Imagem e citações daqui)


O "padrinho", entretanto, ressona

Perante o estado de degradação a que chegou a coligação no poder e conhecidas que são as previsões independentes que anunciam que o Orçamento do Estado apresentado por este governo é inexequível e que vai conduzir a um desastre de enormes proporções, a confirmar-se a previsão do FMI, que aponta para uma possível queda da economia superior a 5%, é evidente que o Cavaco Silva já deveria ter tomado uma qualquer acção no sentido de pôr cobro a esta situação.
No mínimo dos mínimos, como "padrinho" deste governo, já deveria ter chamado os cônjuges desavindos para porem termo ao triste e degradante espectáculo que vêm exibindo na praça pública. O mais certo e o mais adequado à situação seria, no entanto, dissolver este Parlamento e convocar novas eleições. Por muito incerto que seja o resultado de uma tal opção, pior não seria do que o desastre para que este governo está a conduzir o país, pois o desastre é mais que certo, face a todas as previsões de entidades independentes e às opiniões quase unânimes dos especialistas sobre a inexequibilidade do Orçamento apresentado. 
O facto, porém, é que, por enquanto, o "padrinho" não faz mais do que ressonar.
Minto: em abono da verdade deve dizer-se que, de vez em quando, durante os intervalos do ressonar, vai deixando um avisos no Facebook. Mas é tudo. Se calhar, Cavaco Silva acha que, como presidente da República, a mais não é obrigado. Só pode.
(reeditado)

Coligação em estado comatoso e sob chantagem


O estado comatoso da actual coligação é iniludível. Basta atentar nas declarações que responsáveis dos dois partidos da coligação têm vindo a fazer ultimamente, durante e após o processo de elaboração do Orçamento do Estado para o confirmar. Mas tão ou mais significativos desse estado são os silêncios, designadamente de Paulo Portas  e as atitudes duma parte e doutra. 
Exemplo disso mesmo é o facto, hoje mesmo vindo a lume, de Paulo Portas, sem nenhum motivo aparente (pelo menos não foi apresentada qualquer justificação)  ter cancelado a viagem de hoje a Bucareste onde ia acompanhar Pedro Passos Coelho na cimeira do Partido Popular Europeu (PPE)Tal só pode ter o significado de que, mesmo a nível pessoal, os líderes dos dois partidos já não se suportam.
Sinal ainda mais sintomático da crise por que passa a coligação é o facto de o CDS  estar a ser objecto de autêntica chantagem, com o PSD a ameaçar responsabilizá-lo pela necessidade de um segundo resgate em caso de rompimento da coligação. Mesmo que o relato feito pelo jornal i, relativamente à conversa entre Passos Coelho e Paulo Portas tenha sido desmentida, a verdade é que não têm faltado vozes vindas dos lados PSD a fazer eco da chantagem em curso. O impagável Marques Mendes foi uma delas.
A chantagem, no entanto, não deve ser motivo de grande preocupação para Paulo Portas, sabendo-se que, com rompimento ou não da coligação, um segundo resgate vem já a caminho, visto que há unanimidade entre analistas e comentadores, quer da esquerda, quer até da direita, no sentido de que o Orçamento de Estado apresentado na AR é inexequível. Unanimidade que vai ainda tornar-se mais consistente perante o anúncio por parte de entidades tão diferentes como a Universidade Católica (que aponta para uma queda da economia no próximo ano à volta dos 2,6%, quase o triplo da prevista pelo governo - 1% -) ou o FMI que considera que a contracção da economia pode vir a ser o triplo ou mesmo o quíntuplo do previsto pelo ministro Gaspar)
Perante tão desastrosas perspectivas, é evidente que, para uma boa parte da população portuguesa, o rompimento da coligação e a queda deste governo, até seriam vistos como uma boa notícia que, em vez de penalizar o responsável, até o beneficiaria. 
De facto e de qualquer modo não se vê que vantagens há em continuar a trilhar o caminho traçado por Gaspar e seguido por Passos Coelho, pois é certo que este vai acabar em desastre. Num caso destes é mais prudente trocar o certo pelo incerto, porque, muito simplesmente, pior caminho do que este não há.
E se me é permitido um palpite, diria, para concluir, que, em caso de novas eleições, Paulo Portas ficaria lá em cima, à esquerda e Passos Coelho cá em baixo, à direita. 


"O que aí vem"

"Talvez por razões ideológicas ("o programa da ‘troika' é o nosso programa e queremos ir ainda mais longe"), talvez por causa de um contexto internacional que lhe escapa, talvez pela situação de "bom aluno" em que se colocou prescindindo de capacidade negocial face a uma ‘troika' que já não acredita nas suas próprias soluções, talvez porque os protagonistas são menores e nunca se poderia esperar uma visão de estadista da dupla de "amigos para todas as ocasiões" composta por Passos Coelho e Relvas, talvez porque se quebrou a confiança interna e a coligação está desfeita, ou talvez por uma mistura de todas estas coisas, o Governo não tem um caminho de futuro a oferecer aos portugueses, limita-se a repetir soluções que são causas dos nossos problemas e o OE para 2013 é a confirmação disso mesmo.
Os próximos meses serão terríveis. O Governo continuará em dissolução, com remodelação ou sem ela, o divórcio em relação aos cidadãos aumentará, existirá um risco real de que o poder caia na rua (por isso este OE, ao mesmo tempo que corta na saúde e na educação, aumenta a despesa nas forças de segurança e nas forças armadas). Quando, em meados de 2013, se verificar que a execução orçamental é um fiasco, a vida útil deste Governo terá terminado definitivamente. Nessa altura terá de ser encontrada uma solução no quadro do sistema político e ela só poderá vir do Presidente. Quais as alternativas de Cavaco Silva?
(...)
Resta, portanto, a dissolução da AR e a convocação de eleições antecipadas - o que deve ser feito no início do Verão, para permitir ao novo Governo a preparação do OE para 2014. As eleições serão a única via para restaurar o vínculo entre os governantes o povo. Desta vez, ninguém tolerará falsas promessas. Desta vez, os principais partidos terão de comprometer-se antecipadamente a encontrar uma solução de governabilidade. Caberá ao Presidente esse papel de pedagogia política.

(João Cardoso Rosas; "O que aí vem"; na íntegra: aqui)

As contas do Gaspar não batem certo


Gaspar a jogar ao Sudoku

(...)Parece que Vítor Gaspar anda a jogar à malha com os portugueses. É só malhar.(...)

Se não leu o Orçamento do Estado, que são muitas páginas, não se preocupe. Espere pela estreia do filme em 2013. Vai ser dramático. Vítor Gaspar escolheu um caminho perigoso que vai esfrangalhar a classe média e levar milhares de portugueses à miséria. E mesmo sabendo que está a perder, Vítor Gaspar continua a jogar e a fazer ‘bluff', fazendo de conta que está a ganhar. Não tem um único trunfo, mas é incapaz de pestanejar. O ministro das Finanças parece um jogador de Sudoku que se enganou a colocar um número mas que vai continuar a jogar para nos provar que não se enganou, mesmo sabendo que as contas no final nunca vão bater certo.

E o mais hilariante disto tudo é que a austeridade sempre nos foi vendida como um caminho que nos vai levar de regresso aos mercados em Setembro de 2013. E quem se der ao trabalho de ler o Orçamento irá constatar, e com certeza com grande espanto, que no capítulo sobre o financiamento do Estado para 2013 não está previsto o regresso aos mercados. Pasme-se. O Governo assume que não vai emitir uma única Obrigação do Tesouro no próximo ano, nem mesmo para pagar os 5,8 mil milhões que vai ter de reembolsar em Setembro de 2013. O cheque da ‘troika' tratará do assunto. Tanta austeridade em nome do regresso aos mercados e afinal não vamos regressar aos mercados.

(...)"

(Pedro Carvalho; "Vítor Gaspar anda a jogar Sudoku com as contas públicas"; na íntegra: aqui) (Sublinhados meus)

***
Ao atribuir-lhe aqui o tratamento de "Sua Santidade, o ministro de Estado e das Finanças, Vítor Gaspar", parti, naturalmente, do pressuposto de que Sua Excelência gozava do dom da infalibilidade. Verifico, face ao escrito supra, de Pedro Carvalho, que Vítor Gaspar, afinal, não só erra, como faz trapaça, nada tendo em comum com a santidade. Resta-me, em tais circunstâncias, voltar atrás na decisão. Passará, pois a ser tratado da forma mais usual: ministro Gaspar, ou ainda mais simplesmente, Gaspar. Tout court.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

"Um país destroçado gerido por um bando de loucos"


"(...)
Em 2013 o défice orçamental vai cair 0,5 pontos para 4,5% do PIB, coisa de somenos. Mas o Governo respondeu com o plano de austeridade mais violento de que tenho memória, como se não existisse amanhã. Quando, em 2014, tivermos de reduzir 2 pontos para 2,5% do PIB, quatro vezes mais, que resposta terá? Enfim, os disparates são tantos, e de tal ordem, que eu tenho para mim que o Governo enlouqueceu. E é óbvio que a recessão vai prosseguir.
Em Setembro de 2013 está previsto o regresso ao mercado primário para nos financiarmos. Estaremos então com uma dívida pública da ordem dos €200.000M. Mas, com a economia de pantanas, as populações revoltadas e as agências de ‘rating' a classificarem-nos como "lixo", alguém acredita num cenário destes? Alguns ingénuos ainda olharam para o BCE como uma saída possível no mercado secundário. Mas Mario Draghi foi claríssimo: ou reconquistamos o "acesso total" ao primário ou não há nada a fazer.
A gestão de uma dívida envolve dois pagamentos: o capital e os juros. Sobre o capital, estamos conversados. Mas vale a pena reflectir um pouco sobre os juros. Não conheço a estrutura da nossa dívida, e muito menos a taxa de juro implícita. Mas admitamos que é da ordem dos 5% ao ano: com uma dívida de €200.000M, os juros sobem para os €10.000M anuais. Ou seja, o endividamento é de tal ordem que não nos deixa espaço para excedentes orçamentais. Lamento dizê-lo, mas nem os juros vamos conseguir pagar.
Com isto chegamos ao actual modelo de gestão. Parece evidente que o modelo da ‘troika' - massacrar primeiro para aliviar depois - é de uma estupidez sem limites. Mas também é verdade que o Governo achou óptimo, propondo-se mesmo ir além do que a própria ‘troika' exigia. Nunca ocorreu a estas cabecinhas tontas o que, nesta fase, seria realmente prioritário: investir, empregar, crescer. O resultado está aí, nesta monstruosidade social. A imagem que me ocorre é a de um país destroçado gerido por um bando de loucos.(...)"
(Daniel Amaral; "Um país destroçado"; na íntegra: aqui)

Sua Santidade, o ministro Gaspar

A minha educação foi extraordinariamente cara. Portugal investiu na minha educação de forma muito generosa durante algumas décadas. É minha obrigação estar disponível para retribuir essa dádiva que o país me deu." ; "a [minha] participação no Governo tem por único propósito retribuir o enorme investimento que o país colocou na minha educação”.
Não é necessário possuir especial perspicácia para concluir que, nas entrelinhas das afirmações supra, o ministro Gaspar está a apresentar-se como uma verdadeira SUMIDADE. De facto, o enorme investimento feito pelo país na educação do ministro Gaspar, extraordinariamente cara, como insiste em afirmar, só tem justificação porque estamos perante uma personalidade com uma capacidade também ela extraordinária. A roçar o génio, admito eu, pelo que  ponderei passar a tratar  Sua Excelência, por Sua Sumidade, o ministro de Estado e das Finanças Vítor Gaspar.
Só não transformei  essa intenção em resolução, porque o ministro Gaspar, ao declarar, simultaneamente, que se dispôs a participar no governo e a nele permanecer, apenas e só como forma de retribuir o investimento que o país colocou na sua educação, revelou um tal desprendimento, uma tal devoção à pátria e  uma tal grandeza de alma que só estão ao alcance de quem já atingiu as raias da SANTIDADE.
Hesitei, pelas razões supra, no tratamento devido a Sua Excelência, entre Sua Sumidade e Sua Santidade, mas opto, definitivamente pelo tratamento por Sua Santidade. Doravante, pois, o ministro Gaspar será tratado aqui por Sua Santidade, o ministro de Estado e das Finanças, Vítor Gaspar.

Sua Santidade
(Imagem e citações daqui)

Nem para administrador de condomínio


"Uma desgraça. Este governo é catastrófico. Se existisse uma escala, à semelhança da escala de Richter, mas para medir os efeitos negativos, o desnorte e a incompetência política, este governo seria uma espécie de Lisboa 1755 com cobertura de Áquila 2009, salpicos de Haiti 2010 e um banho final de Banda Aceh 2004. Tudo treme à passagem de Passos e companhia. Nada permanece intocado.  A cada medida produzida é mais um abanão nas estruturas da sociedade e meia dúzia de fendas na democracia. E quando julgamos estar tudo mais tranquilo surgem as réplicas prolongadas pela voz do entediante Vítor Gaspar. (...)

Nunca vi tamanha desorientação e descontrole. Pior, para além da incompetência das medidas, do descalabro económico e social gerado por uma visão fiscal doentia, do falhanço monumental das politicas de crescimento (inexistentes) que levaram ao governo defunto que temos, um grupo de indivíduos a funcionar por espasmos e ao acaso baseados numa fé cega, perdeu-se algo que é fundamental em qualquer relação: a confiança e o respeito. Os portugueses não confiam em absolutamente ninguém ligado ao governo.(...)Este governo não tem margem para pedir absolutamente nada, muito menos sacrifícios.

Passos Coelho neste momento não seria eleito para administrador de condomínio de nenhum prédio deste país. Não seria eleito para absolutamente nada que o obrigasse a gerir o que quer que fosse que mexesse com os interesses de alguém mentalmente são. O orçamento de estado entregue ontem, as 10 pens que Vítor Gaspar deixou nas mãos de Assunção Esteves, uma espécie de orgia fiscal sem precedentes, são a certidão de óbito deste governo e provavelmente do país e da sociedade como a conhecemos. Isto se nada acontecer e mudar drasticamente o rumo dos acontecimentos. O governo morreu, o país ainda se pode salvar. Façamos algo."
(Tiago Mesquita; "Passos Coelho nem para administrador de condomínio"; na íntegra: aqui) (Sublinhados meus)


***
Sucedem-se, na comunicação social, os comentários desagradáveis, para não dizer que raiam o insulto,  em relação a Passos Coelho e ao seu governo, sinal de que até os seus apoiantes começam a debandar. O fim aproxima-se. Importa realmente fazer algo para que a situação não evolua para uma maior tragédia.

O procurador alemão e o nabo

"Gaspar é o procurador do ministro das Finanças alemão e dos credores. Se não fosse, empenhava-se em renegociar os juros da dívida e o alargamento do prazo de ajustamento – em vez de lançar as famílias na miséria. O tempo que passou trancado em gabinetes e longe do mundo fez dele um contabilista arrogante. Mas, para nossa desgraça, o primeiro-ministro não lhe fica atrás na escassa preparação política. Passos Coelho é o que é – um nabo. (...)"

***
Quando até um subdirector do Correio da Manha (Manuel Catarino) já trata Gaspar por "procurador do ministro das Finanças Alemão" e Passos Coelho por aquilo "que é - um nabo", algo me diz que o "julgamento" pelo crime de lesa-pátria cometido nos idos de Março de 2011, está cada vez mais próximo.

Meteu-se por atalhos, meteu-nos em trabalhos


Ao ir "além da troika", o governo de Passos, Gaspar, Portas & Cª pretendeu atalhar caminho para mais depressa atingir o objectivo da consolidação das contas públicas. Afinal, não só não atingiu tal objectivo, como ao atalhar caminho, o governo mais não fez do que apressar a chegada à situação da Grécia. É este o ponto em que já estamos, como o demonstram os incidentes há poucas horas ocorridos à volta do palácio de São Bento.
Bem diz o povo que "quem se mete por atalhos, mete-se em trabalhos." 
(Imagem daqui)