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domingo, 5 de julho de 2015

Definitivamente: "Portugal não é a Grécia"

Depreciativamente, Passos Coelho e demais lacaios da senhora Merkel fartaram-se de apregoar por aí que "Portugal não é a Grécia".
Com a vitória do "Não" no referendo de hoje, é altura de retomar a expressão, porque, de facto, é verdadeira: o povo grego provou com esta vitória que é um povo corajoso que não se dobra a ultimatos, venham de onde vierem. Em Portugal é certo que não falta gente com coragem, mas não é menos verdade que também há muita gente sem coluna vertebral e sempre disposta a dobrar a cerviz perante os poderosos. 
Se uma imagem vale por mil palavras, dispensável se torna prosseguir o "discurso". Basta a fotografia.

Definitivamente: "Portugal não é a Grécia". Melhor dito: A Grécia não é Portugal.
(Reeditada)

domingo, 19 de janeiro de 2014

Como se mata a democracia

«A emoção quase lacrimejante com que uma dúzia de deputados do PSD levantou, anteontem, a mão no Parlamento para dizer que, sendo favorável à coadoção por casais do mesmo sexo, teve que votar a favor de um tonto referendo porque a isso foi obrigada pela liderança da bancada, é das coisas mais desprezíveis que me recordo de assistir na Assembleia da República.
Há quem veja neste gesto algo de nobre: não consigo perceber porquê. Num tema que envolve, antes de tudo e acima de tudo, a consciência de cada um e uma revisitação aos valores de cada um, num tema destes não pode haver condescendência. Só pode haver decência. Coerência. Aquiescência com aquilo que queremos e gostamos de ser. Não pode haver subserviência.
Os dedos erguidos carregaram, figurativamente, no gatilho de uma pistola. Cada estalido foi um estalo na democracia. Cada tiro acertou direitinho no alvo de que pretendia escapar: na cara de cada um de nós e no coração de cada um dos deputados. As lágrimas de crocodilo pretendiam esconder o haraquíri a que se submeteu cada deputado que optou por jogar este vergonhoso jogo. Ao invés, mostrou-o em toda a sua plenitude. Foi uma coisa infantil. Muito infantil. Que apenas 11% dos portugueses confiem nos deputados e 9% nos partidos parece, a esta luz, um verdadeiro milagre. Porque uns e outros continuam a brincar à roleta russa, imaginando que não há balas no revólver. Há.
Oiço vozes que tecem elogios grandiloquentes a Teresa Leal Coelho. Não as percebo, francamente. A deputada do PSD saiu do hemiciclo na altura de votar a realização do referendo, e a seguir demitiu-se do cargo de vice-presidente da bancada parlamentar. O truque não basta para merecer aplausos. A única coisa que, em bom rigor, lhe resta é decidir se quer continuar a integrar uma bancada que faz politiquice da mais rasteira com valores civilizacionais dos mais elevados. Quer? Fica. Não quer? Sai. Ela e todos os outros que ergueram piedosamente o dedo e rabiscaram conscientemente declarações de voto, procurando aliviar a consciência, assim como quem toma um ben-u-ron para aliviar uma dor de cabeça.
(...)»
(Paulo Ferreira; "Como se mata um deputado". Na íntegra: aqui.)

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

O Amigo do Povo !

Na defesa do referendo sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo, Jaime Nogueira Pinto desunha-se, hoje, no i na demonstração de que a esquerda é avessa a este tipo de consulta popular e que, ao invés, é atreita a legislar por decretos (ditatoriais, diz ele). Vai daí dá um salto até aos idos da Primeira República para nos dar como exemplos a lei do Divórcio, as leis da Família e a lei da separação da Igreja do Estado, entre outros, e, voando por cima de quatro décadas de ditadura do Estado Novo, aterra no 25 de Abril para citar a descolonização e as nacionalizações e arruma a questão com a lei sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo, nos dias de hoje.
Enfim, uns inimigos do Povo, estes partidos de esquerda !
Esquece, entretanto, o colunista que as alterações introduzidas, no passado, pela legislação citada, constituem, hoje, matéria consensual na sociedade portuguesa e todas elas, com excepção das nacionalizações (entretanto ultrapassadas) são comummente consideradas importantes conquistas civilizacionais. Salvo, naturalmente, para algum saudosista da ditadura que, suponho, ainda os haverá.
Não esquece, mas subestima, o facto de a legislação sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo constar do programa eleitoral de dois partidos que a votaram (PS e BE) e passa por alto o facto de o PS não ter votado idêntica proposta, na anterior legislatura, visto que a matéria não constava do seu anterior programa eleitoral.
Não obstante este "escrúpulo democrático", Jaime Nogueira Pinto não se mostra impressionado e, pelo contrário, só vê, nesta aprovação, oportunismo por parte do PS que, não podendo, diz ele, alinhar com o PCP e o BE, nas questões económico-sociais, tem de dar uma satisfação à sua "esquerda".
Benza-o Zeus. Quem havia de dizer que "o defensor do estadista português António de Oliveira Salazar" era o verdadeiro Amigo do Povo ?
Lamentavelmente, o "Amigo do Povo" esquece-se, uma vez mais, que o último referendo realizado em Portugal (sobre a legalização do aborto) foi aprovado na Assembleia da República, em Outubro de 2006, com os votos favoráveis do PS e do BE, a abstenção do PSD e o voto contra do CDS e do PCP. Do CDS que o não queria de todo e do PCP que defendia a legalização do aborto, sem necessidade de referendo. Esta alternativa foi, no entanto, rejeitada pelo PS, dada a realização de anterior referendo em que o "não" à legalização do aborto saiu vencedor, resultado todavia inconclusivo, dada a insuficiente participação popular para poder legalmente ter força obrigatória. Tal alternativa, convém repeti-lo, foi rejeitada, uma vez mais, por "escrúpulo democrático" e por respeito à vontade do povo.
Temos pois que, em matéria de democracia e de respeito pela vontade popular, o PS, à esquerda, não tem nada a aprender com a direita.
Só quem tem memória selectiva, como parece ser o caso, é que o não sabe.
(Publicado também aqui)

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Um novo imbróglio

A esta hora parece já certo que os irlandeses optaram pelo não no referendo sobre o Tratado de Lisboa realizado ontem.
A hora não é para festejar, do meu ponto de vista: A construção europeia fica de novo encalhada.
O presidente da Comissão Europeia afirma não haver um plano B. Se não há, devia haver, pois não é admissível que um só país ponha em causa o interesse comum dos restantes países integrantes da Comunidade. No mínimo, deveria ter sido previsto (se é que o não foi - passe a ignorância) que a não ratificação do Tratado de Lisboa (e de qualquer outro tratado com o mesmo alcance) implicava a auto-exclusão. Era a melhor maneira de a todos satisfazer: os que querem e os não querem aceitar as novas regras.