terça-feira, 4 de maio de 2010

"Mea culpa, mea maxima culpa"

Parece confirmar-se a realização, no próximo dia 10, de um encontro entre Cavaco Silva e um grupo de ex-ministros da Finanças, já qualificado, bem apropriadamente, como a "brigada do reumático". Não obstante concordar com a designação, prefiro, contudo, incluir os referidos ex-ministros no rol dos "padres da vinagreira" de que fala Frei Bento Domingues. Pois não é verdade que aqueles, à semelhança destes, mais não fazem do que meter medo e contribuir para criar um clima de depressão colectiva?
Dizem por aí que o encontro se destina a debater o tema dos grandes investimentos públicos. Ora, não creio que tal vá ser o objecto da reunião e por duas razões. À uma, porque a questão dos investimentos públicos (grandes ou pequenos) é do foro e da competência do Governo (que, por isso, terá de responder por eles) e não da Presidência da República. Não tem, pois, Cavaco Silva legitimidade para meter o bedelho no assunto, nos termos da Constituição que ele tantas vezes invoca. É verdade que muitas vezes, em vão. Mesmo assim, sobra-me, em todo o caso, uma outra razão e com muito maior peso: tratando-se de uma reunião entre o "pai do monstro" (Cavaco Silva, segundo Cadilhe) e ex-ministros das Finanças, todos, em maior ou menor grau, responsáveis pelo descontrolo das contas públicas, o mais natural e, logo, o mais provável é que aproveitem o ensejo para fazer um "mea culpa" colectivo.
Dito isto, só espero que não batam com a mão no peito com tanta força, nem façam tanta penitência quanto a requerida pela gravidade das faltas, pois não desejo que saiam da sessão penitencial a necessitar de tantos cuidados médicos que ponham em causa o Serviço Nacional de Saúde. Que, por essa forma, ou por outra, lá capazes disso são eles!
E de muito mais.

A Espanha no olho do furacão

Os rumores sobre a necessidade de a Espanha recorrer ao FMI  para fazer face à dívida, embora já formalmente desmentidos, revelam que a especulação contra o Euro (hoje a cair abaixo do limiar dos 1,3 dólares) está para durar e que pode ter graves consequências para toda a Zona Euro, uma vez que agora é já a Espanha a estar no olho do furacão. As consequências das hesitações da Alemanha em apoiar a Grécia estão à vista. Espera-se, por isso, que a todos tenha servido de lição. Como os predadores, pelos vistos, não desarmam, bom será que a lição seja levada a sério.

A brincar com a justiça

Não ponho em causa a bondade da decisão tomada pelo colectivo da 5ª vara criminal de Lisboa  de ilibar Carmona Rodrigues, ex-presidente da Câmara Municipal de Lisboa  e os ex-vereadores Fontão de Carvalho e Eduarda Napoleão do crime de prevaricação por titular de cargo público no caso da permuta dos terrenos da Feira Popular e do Parque Mayer feita com o grupo Bragaparques, com o fundamento na falta de "relevância criminal dos actos cometidos”, até porque não disponho de elementos para a questionar. Todavia, sendo a irrelevância criminal dos actos tão evidente, a ponto de o colectivo de juízes decidir liminarmente não realizar o julgamento, já me parece de todo inaceitável que o caso tenha sido investigado durante anos, que tenha sido deduzida acusação pelo Ministério Público e que esta tenha sido aceite por um juiz para ser levada a julgamento, sem que nenhum magistrado se tenha apercebido de tal irrelevância.
Por isso, entendo que, quer seja acertada a decisão ora tomada pelo colectivo de juízes, quer o não seja, certo é que esta decisão  põe em causa seriedade da justiça. Até parece, com efeito, que os senhores magistrados judiciais e do Ministério Público andam a brincar com a justiça e com os cidadãos deste país. Sim, porque, entretanto, neste processo, que não é caso virgem, não só foi posta em causa injustificadamente, segundo a decisão,  a honorabilidade das pessoas envolvidas, como se gastou com ele, pelos vistos, também inutilmente, o dinheiro dos contribuintes.
São processos como este que justificam que os cidadãos tenham perdido a confiança na justiça e que o descrédito atinja hoje duramente as magistraturas. Por muito que  o senhor António Martins (presidente dessa aberração que se chama Associação Sindical dos Juízes) e o senhor João Palma (presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público) digam o contrário.
A circunstância, aqui anunciada, de o Ministério Público poder vir a recorrer, em nada afecta as precedentes considerações. Como é óbvio.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

"Padres da vinagreira"

(...) "É um conto exemplar. Muito breve. Chamar-lhe conto até pode ser excessivo, mas merece ser reencaminhado. Começa assim: Jesus Cristo, cansado do tédio do Paraíso, onde pouco tem que fazer, resolveu voltar à Terra. Optou pelo Hospital de S. Francisco Xavier, onde viu um médico a trabalhar há muitas horas e a morrer de cansaço. Para não atrair as atenções, decidiu ir vestido de médico. Entrou de bata, passando pela fila de pacientes no corredor, até atingir o gabinete do médico. Os pacientes viram e comentaram: "Olha, vai mudar o turno..."
Jesus Cristo entrou na sala e disse ao médico que podia sair, dado que ele mesmo iria assegurar o serviço. E, muito decidido, gritou: "O próximo!" Entrou no gabinete um homem paraplégico que se deslocava numa cadeira de rodas. Jesus levantou-se, olhou bem para o homem e, com a palma da mão direita sobre a sua cabeça, disse: "Levanta-te e anda!"
O paraplégico levantou-se, andou e saiu do gabinete empurrando a cadeira de rodas. Quando chegou ao corredor, o primeiro da fila perguntou: "Que tal é o médico novo ?" Ele respondeu: "Igualzinho aos outros... nem exames, nem análises, nem medicamentos... Nada! Só querem despachar..."
(...)
O que mais desejo encontrar nos meios de comunicação - talvez como toda a gente - são revelações do que está a acontecer, em todos os aspectos, no país e no mundo. Devem saber ver e dar a ver, trazendo alguma luz ao quotidiano. Como, neste aspecto, era muito raro ter sorte, tornei-me absentista, procurando outros meios de informação. Julgo que os infindáveis telejornais, tecidos do princípio ao fim quase só por desgraças, ao não servirem com competência a verdade e a liberdade de informação, acabam por se tornar  em agentes de depressão colectiva. Matam de tal modo a sensibilidade dos telespectadores que, como diz o Evangelho, já nada os consegue espantar, nem mesmo "a ressurreição de um morto" (Lc 16, 19-31).
A primeira religião que conheci era uma mistura de catolicismo azedo e de superstições locais. Existia para meter medo. Toda a gente sabia histórias terríveis de aparições medonhas de figuras do mal. Tinha de ir mais gente para o inferno do que para o céu. No Norte, chamavam aos pregadores dessa religião os "padres da vinagreira". Hoje, de certo modo, a "religião" dos telejornais e dos seus sacerdotes também parece que só está interessada em mandar o país para o inferno. Mesmo quando há sinais de que é possível enfrentar as enormes dificuldades com que o país se debate, insiste-se em mostrar que não há saída.
Em sentido muito próximo, mas num panorama mais vasto e englobante, Mário Soares (DN, 27.04.2010) publicou um notável artigo, onde também achou fastidiosas e inúteis as comissões parlamentares de inquérito que têm sido transmitidas em directo pela televisão. Em vez de  prestigiarem o Parlamento como é importante que aconteça - como centro da vida democrática que deve ser -, estão a desprestigiá-lo. A sanha persecutória  dos deputados-inquisidores não é diferente da guerrilha partidária desbocada e interminável. Revestindo aspectos pessoais desagradáveis, cria enfado nos que a seguem, não permite que se debatam os problemas que afligem os portugueses e só desvia as atenções."
(...)"
(Frei Bento Domingues O.P., in  "Público" de 2 Maio 2010, sem link. Os  sublinhados são meus. Idem quanto ao título, formado com a utilização duma expressão transcrita do texto)

domingo, 2 de maio de 2010

Porto: 3 - Benfica: 1 - Festa adiada com a derrota do Benfica no Dragão (Golos em vídeo)

Com a derrota de hoje, frente ao Futebol Clube do Porto no estádio do Dragão, por 3-1, e a vitória do Braga frente ao Paços de Ferreira, por 1-0, o Benfica terá que aguardar pelo próximo jogo para poder festejar o título, há tanto tempo anunciado. Quanto ao jogo, este teve demasiados incidentes para o meu gosto, mas convenho que o FCPorto mereceu a vitória, pois o Benfica, com a tremideira, nem sequer foi capaz de aproveitar o facto de, em quase todo o segundo tempo, ter jogado em superioridade numérica.
Fiquemo-nos pelos golos.

Golo de Bruno Alves:


Golo de Luisão (Benfica)


Golo de Farias (Porto)


Golo de Belucchi (Porto)

Lições de canto ?

Mentiria se dissesse que não fiquei surpreendido com os resultados da recente sondagem feita pela Marktest que atribui ao PSD  39,8% das intenções de voto, ao PS 34%, ao BE 8,3%; à CDU 7,2% e ao CDS: 4,5%.
É verdade que boa parte da subida se fica a dever ao trambolhão do CDS. Paulo Portas que se cuide, pois o eleitorado à direita parece ter feito uma nova opção.
Ainda assim, a surpresa mantém-se, porque Passos Coelho não promete nenhuma terra por onde corra leite e mel. Muito pelo contrário, se bem julgo, tendo em conta as suas repetidas inflexões nesta  matéria.
De facto, a consolidação orçamental, na última versão conhecida de Passos Coelho, passa, não pelo aumento dos impostos sobre os rendimentos mais elevados, mas sim pela diminuição das despesas sociais e na área da saúde (com o consequente aumento dos níveis de pobreza e regressão em termos de bem estar social) e  pela redução do investimento público, com reflexo, designadamente, nas obras que requerem mais abundância de mão de obra, pelo que é previsível o aumento do desemprego, não sendo também de afastar a hipótese do regresso da recessão, se o investimento privado não recuperar.
Mas sendo assim, aonde ir para encontrar uma explicação ? Às lições de canto do novo líder do PSD? Ou, o que é mais provável,  estaremos apenas perante um caso de masoquismo dos eleitores, ainda que  passageiro, tendo em conta que 61 por cento dos inquiridos não quer eleições antecipadas ?

No Dia da Mãe


{Linária-de-cor-de-ametista [Linaria amethystea (Lam.) Hoffmanns. et Link]}
Só uma flor. E as recordações.
(Clicando, amplia)

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Os insondáveis critérios jornalísticos

Estará em visita oficial a Portugal o Presidente de Moçambique ?
Faço a pergunta, porque não consegui confirmar, em nenhum órgão de informação, a referência incidental  ouvida em comentário na SIC Notícias à saída apressada do primeiro-ministro, após o debate parlamentar,  para um encontro com aquela personalidade. Por certo que a dúvida fica a dever-se a desatenção minha, mas também, seguramente, à pouca relevância dada à visita pela comunicação social, incluindo as televisões. Até admito que que possam ter mencionado o facto, mas as referências devem ter sido de tal forma circunstanciais que delas não apercebi, apesar de ter passado os olhos pelos jornais on line e pelos telejornais das principais estações de televisão. Estas, no entanto, ainda ontem deram largo tempo de antena a duas telhas caídas numa escola de Baltar, causando dois feridos ligeiros entre os alunos.
Esta notícia, para a nossa comunicação social é, pelos vistos, de muito maior relevância noticiosa do que a visita do Presidente dum país amigo, ex-colónia portuguesa, que até faz parte da CPLP. Tal mostra bem os critérios por que se rege a comunicação social portuguesa.
Critérios, no mínimo, insondáveis, diria eu.

Cabeça fria

É verdade que o país, por razões estruturais da economia portuguesa, sem dúvida, mas também e sobretudo por efeito de arrastamento da crise financeira grega, vive momentos difíceis, mas não é menos verdade que as mudanças de rumo propostas pelos partidos da oposição e a contínua reponderação dos investimentos públicos  (que Cavaco Silva veio agora, inoportunamente, defender)  não contribuem em nada para credibilizar a política económica portuguesa, perante os mercados financeiros internacionais. Muito pelo contrário, como é bom de ver. As declarações de José Sócrates durante o debate parlamentar “Eu sigo o meu plano e sou fiel ao meu plano” e “o pior seria não manter a confiança no nosso plano”,  fazem, pois, todo o sentido.
De facto, se o Governo não acreditar no seu plano e desistir de o concretizar, como se pode esperar que os mercados estrangeiros confiem ?
Nesta perspectiva, as declarações de Cavaco Silva, para além de inoportunas, constituem  mais "um tiro no próprio pé" e, no mesmo enquadramento, agradece-se que haja alguém capaz de manter a cabeça fria. Por duas razões: à uma, é óbvio que os alarmismos não só nada resolvem, como,  pelo contrário, contribuem para diminuir a capacidade de discernimento; e depois, porque há sinais de que boa parte das dificuldades que o país enfrenta, tenderão a atenuar-se, logo que fique resolvida, com a intervenção dos países do Euro e do FMI, a actual crise das finanças públicas da Grécia.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Arquitectozito e aldrabãozito ?

Por deliberação de 28-04-2010, o Conselho Regulador da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) foi arquivado o processo instaurado na sequência das "denúncias públicas feitas pelo Director do jornal Sol relativas a tentativas de “chantagem” sobre a sua Direcção editorial e a tentativa de “estrangulamento” económico-financeiro, com o objectivo de condicionar a sua linha editorial ou, no limite, conduzir à extinção do jornal", considerando como não provadas as referidas denúncias.
Deliberação fundamentada que me leva a interrogar sobre se José António Saraiva (JAS) além de um arquitectozito não é também um aldrabãozito. E a mais esta: será que JAS, com a linha editorial que imprimiu ao "Sol" (de tipo tablóide sensacionalista e desrespeitadora quer de decisões judiciais, quer das regras deontológicas do jornalismo) vai conseguir salvar o seu jornalzito?
(A deliberação, de que tive conhecimento por esta via, é acessível através do link indicado aqui.)

"Os tipos do Governo"

Transcrevo no título a expressão que o deputado João Semedo utilizou para designar, por mais de uma vez, o Governo legítimo de Portugal, durante o seu interrogatório ao presidente executivo da PT, Zeinal Bava, na comissão de inquérito ao negócio PT/TVI.
Só mesmo um "tipo" como João Semedo que, por acaso, é deputado do BE, é que teria a "lata" de se referir por tal  forma deselegante ao Governo do país.
O "tipo" deve julgar que está nalguma tasca.

Nepotismo

Da audição de José Eduardo Moniz na comissão de inquérito ao negócio PT/TVI, retenho, para além das suas profissões de fé, ainda assim menos afirmativas do que as de Manuela Ferreira Leite (esta tem certezas absolutas, Moniz limita-se a crer) a conclusão de que Manuela Moura Guedes só continuou a apresentar noticiários, (noticiários, quanto a mim, é favor, mas a expressão é dele) graças à sua protecção.  A isto chama-se nepotismo. Ou será "maritismo"? 

Acredito !

É a derrota mais bonita da minha vida” - José Mourinho, após o encontro entre o Barcelona e o Inter (1-0) que ditou a passagem do Inter à final da Liga dos Campeões.
Não custa acreditar, direi eu. Pudera!

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Cuidado com o fogo!

A Alemanha e a senhora Merkel, perante a crise financeira da Grécia e o ataque dos especuladores a outros países do Euro, como Portugal e Espanha,  comportam-se como o outro que diz "deixa andar que o fogo é na casa do vizinho"
Cuidado que o fogo tende a alastrar!

Barcelona: 1 - Inter: 0 - Inter na final da Liga dos Campeões (Video - Golo)

Apesar da superioridade numérica de que gozou, durante a maior da partida, o Barcelona mostrou-se incapaz de anular a vantagem de 2 golos que o Inter trazia do jogo da primeira mão da meia-final. Perante um Inter remetido à defesa, nem Messi fez a diferença, perante a muralha que lhe vedava o caminho para a baliza do Inter onde só introduziu a bola por uma vez, já quase no final, em jogada de legalidade duvidosa por hipotético "fora de jogo" do marcador Piqué.
Segue o Inter em frente para a final da Liga dos Campeões, onde vai defrontar o Bayern de Munique, final que contará assim com dois protagonistas improváveis, porque não eram certamente os favoritos no início da prova. Tal estatuto era, sim, atribuído ao Barcelona, hoje afastado, e a outros, como o Manchester United. Mais um justificado motivo para Mourinho festejar.
Para rever:
O golo de Piqué 

O país que se segue...

Depois da Grécia, Portugal. Depois de Portugal é a Espanha a ficar na mira das agências de notação financeira, com a Standard & Poor's a  baixar o rating de Espanha para AA-.
Enquanto a senhora Merkel continua a fazer de conta que o Euro não é para aqui chamado, nem está em causa, aceitam-se apostas sobre qual será  o país que se segue.

Uma parábola

Com a nau sob o fogo cerrado da actual pirataria, o que faz a tripulação? Em vez de cerrar fileiras e virar-se contra o inimigo comum para repelir os ataques, envolve-se em discussões bizantinas e afadiga-se em disputas entre si,  mesmo correndo o risco de fornecer munições ao adversário. E a restante população ? Com a mesma falta de bom senso da tripulação, cada um cuida de si, como se o naufrágio não fosse comum e não estivesse em perigo a pele de todos e não apenas a de cada um.
Não está à vista, que nestas condições e com tanto rombo no casco, a nau dificilmente chega a bom porto?
Adenda, no seguimento da parábola:
Após um encontro em S. Bento, o primeiro-ministro e o líder do PSD afirmam-se dispostos a “trabalhar em conjunto” para tentar debelar a crise económica e financeira.
Diria que é caso para saudar.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Toque a rebate ?

Ao que parece, sim, por parte do líder do PSD,  que considera que Portugal está sob um "ataque especulativo" que fere a soberania nacional.
Temos, finalmente, na oposição, alguém que dá conta que as dificuldades que enfrentamos dizem respeito a todos e não apenas ao Governo e que só juntando esforços será possível libertar o país da ditadura das agências de rating e da ganância dos especuladores?
A bem do país, esperemos que sim, porque está na altura de nos deixarmos de questiúnculas.

Nossa Senhora das Certezas

Manuela Ferreira Leite confirmou na Comissão de Inquérito que não tem factos que o comprovem, mas tem a "certeza absoluta" que primeiro-ministro “não estava a falar a verdade” no Parlamento, quando disse desconhecer o negócio PT/TVI.
Tanta certeza sem provas, só por revelação ou milagre. De Nossa Senhora das Certezas.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

O que querem é uma democracia "faz de conta" ?

No Diário Correio da Manhã de hoje, um tal Manuel Catarino assina mais uma diatribe contra a deputada Inês Medeiros, tudo indicando que a polémica à volta das suas viagens está para lavar e durar. Daí o sentir-me tentado a retomar o assunto para me interrogar sobre a motivação de tantos opinantes sobre o tema. Estaremos perante um caso de populismo, de mesquinhez, ou tais posições serão antes reflexo dum fraco conceito de democracia ? Acabo por optar por esta alternativa, atendendo a que já vi defensores da ideia de que deveria ser o PS a pagar os custos da viagens da deputada, porque lhe cabe a responsabilidade de a ter escolhido. De facto, pergunto, se um partido não pode livremente escolher quem o represente, que raio de democracia é esta?
Mas, dir-se-á: as viagens são caras. Pois são. Só que um tal argumento só se compreende do ponto de vista de quem tem um conceito de democracia do género "faz de conta". Para uma democracia assim, o "quanto mais barato, tanto melhor" faz, na verdade, todo o sentido. Doutro modo, não. Só que, assim sendo, justificar-se-ia também que quem questiona os custos das viagens da deputada já se tivesse lembrado de propor como condição de elegibilidade para a Assembleia da República que os candidatos tenham residência nas proximidades de S.Bento, de forma a possibilitar as deslocações a pé. Realmente, ainda não se lembraram ? Aqui fica a sugestão.
Já agora, além da sugestão, uma pergunta:
Se o apreço que tanta gente manifesta pelo órgão de soberania que dá pelo nome de Assembleia da República (formado exclusivamente por deputados eleitos)  é assim tão escasso, ao ponto de se questionarem os custos das viagens duma deputada, por que não questionar, por idêntico motivo, as viagens do Presidente da República e das respectivas comitivas? Sirva de exemplo a realizada recentemente a Praga, viagem que, à primeira vista, para pouco mais serviu do que para o PR ouvir, de bico calado, da boca do seu homólogo checo, uns tantos enxovalhos, dando provas de que, pelo menos na República Checa, a boa educação e arte de bem receber convidados não constituem requisitos de elegibilidade para a Presidência da República.
Estou só a perguntar. Resposta não é precisa.