quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Como assegurar a firmeza da coligação.

Esta ideia de o PSD e o CDS criarem um conselho de coordenação da coligação, foi uma coisa boa, visto que, como Coelho e Portas já não falam directamente um com outro, sempre teriam que se servir de mensageiros. E, de qualquer modo, é um sinal claro da firmeza da coligação, quer para quem esteja a ver a coisa cá dentro, quer para quem esteja a observar o caso lá fora.
Falta, é certo, tomar outra medida que, com espírito patriótico, aqui sugiro: colocar duas jaulas no Conselho de Ministros para isolar Pedro e Paulo de forma a evitar que os dois se evolvam nalguma cena de pancadaria. Só assim a coligação deixa de correr o risco de desmoronamento.
Num gesto de boa vontade até ofereço o modelo:

(Ilustração daqui)

As frustrações dum turista ocidental

Para ilustrar a carta acima reproduzida nada melhor que estas palavras de Carlos Daniel, jornalista da RTP: 

«A RTP não custa um milhão de euros por dia como Mário Crespo tem repetido diariamente. Mas há um dinheiro que não gasta, felizmente: o do salário desse mentiroso, por muitas cunhas que já tenha metido para voltar a viver à nossa custa, talvez à grande de novo nos States, e sem fazer nada» 

*******
Apesar de ter uma boa justificação, a julgar pelas palavras de Carlos Daniel, mesmo assim é uma pena que a administração da RTP não tenha dado seguimento à petição do Crespo, um homem mais que ansioso por se tornar um turista ocidental, nos States. Quem paga as favas da frustração do Crespo não é só a RTP. As principais vítimas somos nós que não há maneira de nos vermos livres do "abominável homem das neves" da SIC.
(Imagem daqui)

O novo "conto do vigário"

As manifestações do passado dia 15, embora convocadas sob o lema  "Que se lixe a troika  - Queremos as nossas vidas", não me parece que tenham decorrido sob esse lema. Isto digo eu que participei numa delas - a de Lisboa - e não me pareceu que as palavras de ordem mais pronunciadas fossem as decorrentes dessa consigna. As manifestações, se me é permitida a ilação a partir da simples participação numa delas, foram, antes de tudo, uma manifestação contra o actual governo e a sua política de ataque aos trabalhadores, reformados e pensionistas e, em geral, contra a classe média que por ele tem sido espoliada de todas as formas e feitios. 
Compreende-se, aliás, que assim tenha sido, porque as pessoas têm a noção de que, neste momento, o país não tem condições para simplesmente mandar a troika de volta, pois Portugal continua a correr o risco de não encontrar credores para se financiar.
Quem, na defesa do interesse do país, for além da exigência de renegociação das taxas de juro e dos prazos dos financiamentos e das condições e medidas mais gravosas propostas ou aceites por este malfadado governo e propuser muito simplesmente que se rasgue o memorando e que se mande a troika à vida, está não menos simplesmente a tentar enrolar-nos num novo "conto do vigário".
Caídos uma vez na esparrela, será de esperar que tão cedo não caiamos noutra.
Os "contos do vigário", como se tem visto, saem-nos caros. Mesmo, muito caros.

Homenagem dupla

"É conhecido o verso do poema de Lorca dedicado ao toureiro Ignacio Sánchez Mejías: "Eran las cinco en punto de la tarde." Menos conhecido, até porque não há, é o verso: "Eran las seis y veinte y dos en punto de la tarde." Não há mas devia haver. Por essa exata hora do dia 23 de fevereiro de 1981, em Madrid, o Parlamento foi invadido por um bando e o chefe deste, um tenente-coronel bigodudo, subiu à tribuna e gritou: "Quieto todo el mundo!" Assistiu-se à humilhação: todos os deputados (quer dizer, toda a nação) encafuaram-se que nem coelhos sob as cadeiras e o tampo das mesas. Um militar na tribuna com uma pistola na mão - cujo disparo para o teto convenceu os hesitantes - dominava a casa dos representantes do povo. Mas quer a história que por vezes haja uns mais representantes do que outros. Três homens não obedeceram: um velho general, então ministro da Defesa, Gutiérrez Mellado, um homem de direita, o chefe do Governo demissionário, Adolfo Suárez, e um homem de esquerda, o comunista Santiago Carrillo. O general levantou-se para interpelar o bando e foi agredido, Suárez e Carrillo mantiveram-se sentados, soberbos. O general morreu em 1995, Suárez perdeu a lucidez e vive retirado e Santiago Carrillo morreu ontem. O último verso de Lorca diz: "Eran las cinco en sombra de la tarde." No poema que não foi escrito, o das seis e vinte e dois de 23 de fevereiro de 1981, a palavra não seria sombra, mas luz. Graças a três homens."
(Ferrreira Fernandes; "Ele há homens, ele há homens"; in DN)

Associo-me à homenagem prestada aos três homens celebrados na crónica supra por Ferreira Fernandes e presto a minha homenagem ao autor de tão belo texto, digno de figurar em qualquer espécie de antologia (de poesia ou prosa), pois o texto é poesia e prosa. Da melhor.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Ó homem, solte-se!

Constata-se, face à sondagem de que dou conta no "post" anterior que, apesar da queda a pique do PSD nas intenções de voto, o PS não sobe e que só fica à frente do PSD, porque as intenções de voto neste partido vêm por aí abaixo (ver infografia infra).
O facto só pode ter, a meu ver, uma explicação: António José Seguro não é um líder que esteja à altura das circunstâncias.
Confesso que até nem desgostei das suas últimas intervenções, mas noto que é suficientemente tíbio para assumir, por inteiro, o legado do partido que lidera. O PS não tem nada que se envergonhar do seu passado, incluindo o mais recente, porque, se erros houve e sempre os há-de haver, porque errare humanum est, a verdade é que os anteriores governos liderados por José Sócrates, apesar das múltiplas resistências, obstruções e até traições, com origem, inclusive, nos partidos ora no poder e na Presidência da República, deixaram obra em múltiplos campos, obra que só pode ser motivo de orgulho para o partido. Relembro, designadamente, o investimento nunca visto na área da investigação, da ciência, da educação e da inovação, nas energias renováveis e nas novas tecnologias, sectores por onde terá de passar o desenvolvimento no futuro e que este governo tem vindo, sistematicamente, a desprezar. Com os resultados que estão à vista.
Para Seguro se mostrar inseguro basta acenarem-lhe com as PPP, onde, provavelmente, também  poderá ter havido erros, mas o certo é que nem aqui o actual líder do PS tem razão para se encolher. As PPP, nomeadamente as rodoviárias, tinham um propósito mais que justo. Só quem vive no litoral é que não reconhece que as obras lançadas com base nessas parcerias visavam antes de mais contribuir para evitar o isolamento e a desertificação do interior. O país não é só Lisboa e Porto. A coesão territorial, finalidade última dessas obras, só pode ser vista como uma política mais que justa.
Infelizmente não acabam aqui as queixas contra a actuação de António José Seguro, um homem ponderado, como ele diz, com verdade, e sereno, até demais, acho eu. De facto, como é que ele  não é capaz de  se insurgir e de desfazer a teia através da qual os partidos da direita se esforçam por atribuir ao PS a responsabilidade pela vinda da troika e pela assinatura do memorando? Não saberá ele que foi Sócrates quem mais se opôs à chegada da troika, tendo  resistido até não ter outra solução, já depois da queda do Governo, forçada por toda a oposição, da esquerda à direita, com esta  a reclamar e a pressionar, há muito, a entrada do FMI?  
Sabe com toda a certeza, pelo que é imperdoável que continue a pactuar com o logro. Por isso, daqui lhe digo: ó homem, conserve toda a sua ponderação e serenidade, mas solte-se. Duma vez por todas. Se não é capaz, dê o lugar a outro que seja capaz de pôr os pontos nos is.



O conto do vigário


Esta sondagem da Universidade Católica parece demonstrar que, finalmente, uma grande parte dos que votaram nos partidos da actual coligação governamental se deu conta de que nas últimas eleições legislativas se deixou cair no "conto do vigário".
Digo finalmente, embora muito tarde, porque, face aos dados já, na altura, disponíveis, era evidente o logro, pelo que a queda no logro não é nada abonatório da clarividência dos logrados e acaba por, simultaneamente, pôr a nu a sua  excessiva credulidade.
Talvez, por isso, como é habitual, nestes casos, as vítimas do "conto do vigário", por vergonha de se terem deixado enganar, não se assumem como vítimas. Não é, por isso, nada fácil encontrar quem tenha votado nesses dois partidos. Até já admito que nem a própria Manuela Ferreira Leite, anterior líder do PSD, tenha votado neles. Pois não desferiu ela, há poucos dias, um forte ataque contra a política deste governo liderado pelo seu próprio partido?
E às tantas, perante tanta negação, tenho de admitir como possível que estes partidos estão no poder pela simples razão de que eu e muitos outros como eu, que nem ao longe os podem ver, nos enganámos a colocar a cruzinha no boletim de voto.
Já não digo nada.
Ou melhor, digo: o PSD cai a pique, mas ainda tem muita margem para descer até ao zero que é o único algarismo capaz simbolizar a nulidade deste governo que o PSD lidera.

Há saída? Sim, pela porta dos fundos

Parece evidente que Passos Coelho,  pela forma como procedeu, sem ouvir os parceiros sociais e sem ao menos se ter concertado com o seu parceiro de coligação, ao anunciar as novas e mais duras medidas de austeridade que mais não são que o resultado do seu próprio falhanço, pois, apesar da gravidade das medidas anteriores, nem sequer conseguiu atingir as metas previstas para o défice público, meteu-se numa camisa de onze varas de que agora não será fácil sair.
Perante a reacção da população, bem demonstrada nas manifestações do passado sábado e que vão ter continuação pois já estão outras anunciadas e, não contando, sequer, com a aceitação das medidas por parte dos seus pretensos beneficiários (as empresas) como já hoje se confirmou novamente, é evidente que algumas das novas medidas e, designadamente, as alterações na Taxa Social Única, não têm hipótese de vingar, a menos que o governo esteja preparado para aguentar uma fortíssima contestação social que não se sabe, por ora, até onde poderá ir.
Por outro lado, um recuo na adopção das medidas por parte do governo, deixaria a claro (o que para muita gente já não é novidade) que o governo é dum amadorismo que até confrange, pois revela uma completa incapacidade para tomar as medidas adequadas para resolver as dificuldades do país. Amadorismo que, em conjunto com o fundamentalismo que Passos e o seu governo professam, só  tem  criado novas dificuldades, cada vez mais difíceis de ultrapassar. Hoje, este resultado até já é evidente para muitos dos apoiantes deste governo e para os supostos beneficiários das medidas entretanto tomadas.
Significa isto que Passos Coelho e o seu governo já não têm saída?
À pergunta, eu respondo que sim. Têm saída pela porta dos fundos. Passos Coelho que ultimamente já só usa a porta dos fundos para entrar em qualquer lugar, até já conhece o caminho. 

A massa de que são feitos

A massa de que são feitos os partidos da direita conta, entre os seus vários ingredientes, além da insensibilidade social, uma enorme dose de aldrabice e outra, não menor, de  hipocrisia. Esta pode bem resumir-se desta forma: os sacrifícios pedidos em Março de 2011, para consolidar as contas públicas e diminuir a dívida, eram insuportáveis. Uma vez no governo, os sacrifícios, cada vez mais violentos, exigidos pelos mesmíssimos partidos a alguns portugueses, com excepção dos ricos e poderosos, de insuportáveis   passaram a francamente aceitáveis e de temporários a eternos.

É dito e feito

A eficiência deste governo é tanta que já nem precisa de concretizar as medidas de austeridade. Basta anunciá-las. O desastre, como resultado, é imediato.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

As luzes de Maria Teresa Horta


Maria Teresa Horta galardoada pelo seu romance "As luzes de Leonor", com o Prémio D. Dinis instituído pela Fundação Casa de Mateus, recusa-se a recebê-lo das mãos de Passos Coelho.

Um Livro sobre uma grande Mulher; um Prémio para outra grande Mulher; e um Gesto à altura de Ambas.

É preciso acreditar !

Uma voz que se calou: Luiz Goes
Calou-se a voz. Fica memória e a mensagem.

O facto (in)consumado

Em editorial, o "Público", na sua edição de hoje considera que, por pressão da Comissão Europeia, o governo já não pode recuar na aplicação das anunciadas alterações da Taxa Social Única através das quais se opera uma brutal transferência de rendimentos dos trabalhadores para os detentores do capital. Essas alterações seriam, na perspectiva do "Público" um "facto consumado".
Como assim?
Pressão por pressão, ainda estou para ver qual das pressões é mais "pressionante" (passe a redundância): se a pressão da Comissão Europeia, se a pressão do povo.
Além do mais, é bom não esquecer que foi este governo quem sugeriu à troika a adopção dessa e doutras medidas para remediar o fracasso da sua própria política, inclusive no que respeita à consolidação das contas públicas. 
Se agiu impensada e estupidamente e colocou o país numa situação absurda, cabe-lhe a ele resolver o problema, com a apresentação de outras medidas que não firam o sentimento de justiça dos portugueses. E, depois disso, ficar-lhe-ia bem demitir-se para dar o lugar a alguém que tenha a prudência e a competência que este governo comprovadamente não tem.

Até os macacos, Pedro!



"As manifestações de dia 15 vieram dizer que o limite para a iniquidade foi ultrapassado há muito

No passado sábado, horas antes das ruas portuguesas se encherem com os gritos de indignação de centenas de milhares de manifestantes, o futurólogo americano Andrew Zolli fazia no Centro Cultural de Belém uma conferência no âmbito do encontro “Presente no Futuro - Os portugueses em 2030”.
Zolli mencionou um estudo hoje clássico do primatólogo holandês Frans de Waal, onde dois macacos, em jaulas contíguas, são treinados para realizar uma dada tarefa, recebendo como recompensa um pedaço de pepino. Os macacos fazem a tarefa repetidamente sem problema. A dada altura, a recompensa muda: um dos macacos recebe na mesma um pedaço de pepino, mas o outro recebe uma uva, um alimento que estes macacos capuchinhos adoram. A reacção do outro macaco é de espanto e agitação e acaba por atirar ao tratador com raiva o pedaço de pepino que lhe é dado. Quando a cena se repete, o macaco pura e simplesmente entra em greve e deixa de realizar a tarefa, recusando o pepino, furioso com o tratamento desigual.

A experiência, que teve um enorme impacto no mundo da biologia e das ciências sociais, sugere que o sentimento de justiça, de equidade, é um sentimento natural, extremamente poderoso e com raízes muito anteriores às que a civilização, a cultura ou a religião possam ter criado. Talvez mais espantosamente ainda, em certas repetições desta experiência há casos em que o próprio macaco que recebe as uvas se recusa a trabalhar se não houver equidade no tratamento - numa demonstração de empatia e solidariedade que não pode deixar de nos fazer pensar. E que poderia fazer pensar Pedro Passos Coelho ou Vítor Gaspar para além dos seus clichés, caso o exercício os motivasse.

(...)

As manifestações de dia 15 vieram sem dúvida dizer que há um limite para os sacrifícios e que ele já foi atingido. Mas vieram principalmente dizer que o limite para a iniquidade foi ultrapassado há muito. Há situações onde as sociedades conseguem levar os seus sacrifícios a extremos muito mais dolorosos do que os que vivemos hoje em Portugal, mas quando conseguem fazer isso é porque o fazem em nome de um objectivo definido e partilhado por todos, é com base num princípio de solidariedade que não admite excepções, é quando existe uma confiança total na justiça da distribuição dos sacrifícios. 

(...)
Esquecer que existe um forte e animal sentimento de justiça em todos os homens e mulheres é apenas um dos seus pecados. O pecado que todos os fanáticos como Vítor Gaspar cometem, o pecado que todos os políticos servis como Pedro Passos Coelho cometem, porque pensam que a força dos fortes os protegerá sempre da fúria dos fracos. Mas isso nunca acontece para sempre. "

(José Vítor Malheiros; É a injustiça, estúpido! ; Na íntegra: aqui)

Não são só os "macacos" que se apercebem da injustiça e da iniquidade e as rejeitam. Aperceber-se delas até alguns ministros conseguem.
Só Pedro e Gaspar, embora tendo olhos e não sendo cegos, as não vêem.

"Esta história não acaba assim"

"É muito revelador que o PSD tenha sido lesto a convocar a Comissão Política para reagir às declarações de Paulo Portas de domingo e tenha ficado mudo e quedo ante as manifestações de Sábado. O medo usado pelo Governo foi devolvido pelo povo. Quando o país desparalisou, paralisou o Governo.

Os erros de Pedro Passos Coelho estão listados. É dele e só dele a responsabilidade da crise política que desaba. É dele e só dele o romper abrupto da estabilidade social que acumulava quinze meses de austeridade tolerada. Passos Coelho errou em tudo. No que decidiu, no que comunicou, no que não fez, até na atitude desleal demonstrada na sua última oportunidade. Na entrevista à RTP, os portugueses quiseram ouvi-lo – foi das entrevistas com mais audiência dos últimos anos. Mas o primeiro-ministro voltou a exibir insensibilidade e incoerência, ao culpar os portugueses pela recessão, tinham consumido menos do que era esperado. Como aqui escreveu Manuel Esteves, somos agora acusados de viver abaixo das nossas possibilidades. Como sintetizou Teresa de Sousa, Passos disse que, afinal, o Governo cumpriu, os portugueses não. 

As manifestações de Sábado foram muito mais do que numerosas. A tensão e raiva que lá se sentia fizeram das manifestações do 12 de Março (há um ano e meio) uma caminhada pela paz e amor. Nestas, pedia-se justiça, demissões, convulsões. Cada pessoa a quem se perguntava "por que razão está aqui?" respondia com o seu próprio drama. Muitas de lágrimas dos olhos. E agora?

"E agora?" é uma das perguntas que os cépticos das manifestações, e alguns amnésicos sobre o que é a sociedade, costumam perguntar no fim. Como se uma manifestação tivesse apenas dois propósitos: enrolar as bandeiras ou usá-las para partir montras. Errado. Os manifestantes é que perguntam, exigem, "e agora?". É Passos Coelho quem tem agora de responder. 

O Governo responde com ameaça de cisão. Paulo Portas respondeu com cinismo a Passos Coelho, dando sequência ao processo de autodestruição da coligação. O pior cenário que temos pela frente é o de eleições, mas deixar apodrecer um Governo de traidores é como usar uma máscara de farinha ao vento. É altura de Cavaco Silva intervir. E resolver.

Passos Coelho já perdeu esta luta porque já perdeu todas. A própria "chamada" de Cavaco Silva a Vítor Gaspar ao Conselho de Estado, tornada pública, é um atestado de menoridade e um insulto ao primeiro-ministro. Cavaco chamou "quem sabe" e quem sabe é Gaspar. É esta a mensagem.

Da manifestação de 15 de Setembro à apresentação da proposta do Orçamento do Estado decorrerá precisamente um mês. Já não é possível reconstituir o que havia colando os cacos, mas é preciso reerguer algo. O aumento da taxa social única para os trabalhadores tem de cair. Até porque, como disse ontem Maria João Rodrigues, há alternativas. Mesmo sendo alternativas de austeridade.

Este é o principal dano provocado pelo Governo: ter destruído a disponibilidade para a dor que existia, porque vigorava o sentimento de que este era um caminho duro mas de injustiça justamente distribuída. Esse selo foi quebrado, irremediavelmente. Como perguntou José Gomes Ferreira, como vão ser agora aceites as próximas medidas de austeridade, que obviamente surgirão daqui até 15 de Outubro? Porque disso não nos livramos. Depois das medidas extraordinárias deste ano (que incluem a concessão da ANA, em vez de privatização), há um ror de austeridade para 2013 que não poderemos evitar. Os cortes na Função Pública e nos pensionistas, os impostos para trabalhadores. 

Na delirante mensagem que deixou vai para dez dias no Facebook, o amigo, cidadão e pai Pedro escreveu uma frase certa: "Esta história não acaba assim". Pois não. Acabará de outra maneira. Acaba mal para Passos Coelho. Mas não pode acabar mal para o País."

(Pedro Santos Guerreiro in jornal de negócios)

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

"O amor do sacrifício é uma doença"

"Conheci teologias que apresentavam e justificavam divindades que exigiam sacrifícios. Algumas atreveram-se a fazer da própria crucifixão de Jesus Cristo - um crime político preparado por instâncias religiosas -, uma exigência de pagamento da infinita dívida a Deus contraída pelos pecados dos seres humanos.
Jesus mandou às urtigas essas teologias macabras. O seu Deus não quer sacrifícios humanos. É amigo da vida e só quer justiça e misericórdia. A conversão cristã consiste numa reorientação da existência pessoal, guiada pelo primado do dom, fruto do amor.
Agora, Vítor Gaspar, ministro das Finanças, não se importa muito com as suas contas mal feitas, pois "a disponibilidade dos portugueses  para fazer sacrifícios é muito grande" (DN, 12.09.2012). Conta, também, com Passos Coelho, mais troikista do que a troika: quem não gostar que emigre e nada de lamechices. Se é pelos frutos que se conhece a árvore estamos aviados: 89% dos portugueses dizem-se pessoalmente afectados pela crise e 90% pensam que a maioria dos benefícios deste sistema só vai para alguns, alargando o abismo entre pobres e ricos. André Macedo, director de Dinheiro Vivo, pergunta: "Onde é que isto vai acabar? Impostos altíssimos, desemprego explosivo, um governo possuído por modelos económicos de alto risco e que, agora, até na gestão da tesouraria das empresas se intromete. Porquê esta loucura'" (DN, 12. 09. 2012)
(...)
São perversas as teologias e as políticas sacrificiais. O amor do sacrifício é uma doença."

(Frei Bento Domingues ; Política sacrificial; in "Público", edição impressa de ontem)

Um milagre só ao alcance de Nossa Senhora da Nazaré

Passos e Portas para evitarem que o governo de coligação formado pelos partidos por eles liderados  se despenhe estrondosamente e duma vez por todas, só têm uma solução: pedir um milagre a Nossa Senhora da Nazaré, grande milagreira que já conta com experiência em situações de semelhante aflição. Pelo menos, é o que conta a Lenda da Nazaré sobre o milagre que salvou D. Fuas Roupinho de se despenhar do alto da falésia no Sitio da Nazaré. O  milagre até está "documentado" (imagem infra)


O local onde se devem dirigir* é o Santuário de Nossa da Nazaré ( imagem infra)


 Nossa Senhora da Nazaré já está  à espera  no altar-mor (imagem infra)**


(* É de toda a conveniência que Passos e Portas se dirijam ao local em veículos separados não vá dar-se o caso de, durante o trajecto, se engalfinharem um com outro, correndo o risco de chegarem ao Santuário em tão más condições que já não tenham forças para subir a escadaria. O governo dispõe, aliás, de veículos suficientes para que a duplicação de meios de transporte não constitua problema. Passos Coelho, só à sua conta, tem 31 veículos à disposição. Portas que gosta mais de viajar pelo ar, até pode optar por um helicóptero. O avião, meio de transporte mais do seu agrado, não sei se tem no local condições para aterrar. Pela configuração do Sítio da Nazaré, diria que não.
** A oração já com provas dadas até é muito simples: " Senhora, Valei-me!". 
Terá, no caso do ambicionado novo milagre, de sofrer as necessárias adaptações, como é óbvio. Estou seguro que uma prece do tipo: "Senhora, Valei ao governo!" resulta por certo, desde que a prece seja proferida em simultâneo e com ar de aflição q.b. 
"Senhora, Valei-nos! também é capaz de servir. E por via das dúvidas até é mais seguro usar as duas fórmulas.   Se apesar disso, o milagre não acontecer não imputem responsabilidades à Santa. Se a(s) prece(s) não resultar(em), Passos e Portas só se poderão queixar de si próprios e da sua falta de convicção.
(Reeditado)

O ridículo não mata

Há quem tenha olhos, não seja cego e, mesmo assim, não veja e, ao mesmo tempo, tendo ouvidos e, não sendo surdo, não ouça.
Estou a referir-me a quem ? A Passos Coelho ?
O dito, na verdade, também se lhe aplica, mas, neste caso, estou a referir-me a estes dois senhores: ao autor da peça e ao divulgador.
Os cavalheiros, pelos vistos, não receiam o ridículo. Ainda bem: quem lá esteve, viu e ouviu, sempre aproveita para se rir.

O "patriotismo" de Portas


Se se atentar nas vezes que usa a palavra "patriotismo", Paulo Portas é, sem margem para dúvidas, um grande "patriota". Trata-se, no entanto dum "patriotismo" muito peculiar.
Tanto dá para provocar uma crise política cujas consequências estamos a sofrer e vamos continuar  a suportar por largos anos, ao rejeitar o PEC IV, com a justificação de ser inaceitável pedir mais sacrifícios aos portugueses,  como dá para, logo a seguir, integrar um governo que, contrariando todas as promessa eleitorais, outra coisa não tem feito senão aumentar impostos, para já não falar de roubos de subsídios e salários, com violação descarada da lei e da Constituição da República.
O "patriotismo" de Portas está mesmo a atingir o máximo do paroxismo: o homem, por "patriotismo", não só calou o que lhe vai na alma contra as últimas medidas de austeridade anunciadas por Coelho, seu parceiro de governo, para não prejudicar as negociações com a troika, como, para permanecer no governo, como acaba de anunciar, vai engolir a "revolta" contra as alterações na TSU que põem os trabalhadores a financiar os patrões. 
O "patriotismo" de Portas até dá para, como ministro-dos-negócios-no-estrangeiro, continuar a passear de avião, em classe executiva, por esse mundo fora, o que lhe desagrada profundamente, como é sabido, suportando com estoicismo, por "patriotismo",  imensos incómodos.
O "patriotismo" de Portas, dá, pois, para tudo e ainda mais alguma coisa. Só não dá para crer.
No entanto, se trocarmos "patriotismo" por "oportunismo", tudo passa a fazer sentido.
(Ilustração daqui)

domingo, 16 de setembro de 2012

Juntos no governo sim, mas à batatada

"Não bloqueei a decisão da Taxa Social Única porque conduziria ao caos";  "Faremos tudo o que pudermos para o país não se dividir perigosamente. Farei tudo para que o sentido de responsabilidade permaneça" (Paulo Portas)



Ó Portas, se isto não é o caos, o que será?

É assim que se trata um "bom aluno"?



Muito mal agradecida a troika, a crer no cada vez menos luminoso SOL*. Um bom aluno não se empurra desta forma. Será que a troika não viu que com este suposto empurrão, o "bom aluno" ia bater com as ventas no chão?  
(* A versão da troika não é bem esta, mas a versão do SOL é muito mais adequada a uma pitada de humor.Ou isso.)