« (...)Um bom ministro das Finanças, como sabemos, nota-se pelo falar lennntooo, nunca pelo sorriso de parvo. Mas, sendo nós gente educada, nunca ninguém fez saber a Mário Centeno que ele tinha sorriso de parvo. Passos Coelho, da primeira vez que o ouviu no Parlamento, ficou com os ombros numa tremideira de riso contido pelo sorriso parvo do outro, mas lá se aguentou. E foi então que uma notícia absurda, mais que fake news, surgiu: Centeno era candidato a presidente do Eurogrupo!!! José Gomes Ferreira topou o desconchavo: "Sendo que este assunto só é notícia em Portugal porque é que só o governo fala disto?" Não liguem à falta de lógica, mas reparem no legítimo desprezo pelo sorriso parvo. Mas foi o candeia nacional Marques Mendes que nos iluminou. Centeno no Eurogrupo? "Mentira de 1.º de Abril... Campanha de autopromoção... É o seu ego... A sua vaidade... Está deslumbrado... Inchado... Muito inchado... Não há uma única alma lá fora que fale de Centeno... É um bocadinho ridículo uma pessoa assim a oferecer-se..." Ontem, Centeno foi eleito presidente do Eurogrupo. O que vai fazer amanhã? Não sei. Mas ontem soube o significado do sorriso parvo: esteve sempre a rir-se dos pedaços de asno.»
(Ferreira Fernandes: "O sorriso de parvo de Centeno". Na íntegra: aqui.)
Mostrar mensagens com a etiqueta Ferreira Fernandes. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ferreira Fernandes. Mostrar todas as mensagens
quarta-feira, 6 de dezembro de 2017
terça-feira, 26 de setembro de 2017
«"Bum!" ou "pfff..."?»
«O "relatório-explosivo", como lhe chamou o Expresso: "Bum!" ou "pfff..."? Sobre o assunto vou fazer um relatório mais seco, não acusarei ninguém, como o relatório original, de "ligeireza, quase imprudente", nem de "declarações arriscadas e de intenções duvidosas", nem de "arrogância cínica". Quando eu faço um relatório, relato, não relaxo. Guardo aquelas palavras para quando fizer um romance manhoso, ou talvez as substitua por palavras como "pernóstico, pancrácio e deliquescência", como sempre sonhei usar num romance manhoso. O que é um romance manhoso? É uma coisa com frases espevitadas, daí o pernóstico, que se colocam num editor simplório, daí o pancrácio, de ficção científica, daí a deliquescência. Esta sendo, como se sabe, a propriedade de alguns corpos de absorver a humidade do ar e nela se dissolverem - como foi o caso do relatório que agora relato. Derreteu-se. Num sábado, nas parangonas; horas depois, escafedeu-se. Ninguém para quem ele relatava o viu! Não deve haver drama maior para um relator - mais do que relatar em vão, relatar para ninguém. Claro, foi em julho, na estação em que tudo se evapora. Regressou a uma semana de eleições, na estação em que tudo surge. Teoria da conspiração? Não, conspiração mesmo. (...)»
(Ferreira Fernandes: "Tudo sobre o relatório de Tancos" Na íntegra: aqui)
Sem dúvida: pfff...!
segunda-feira, 12 de setembro de 2016
"Quem não quer ser lobo, não lhe veste a pele"
Durão Barroso não tem que se queixar se, como escreve o Ferreira Fernandes, Barroso em Bruxelas passa a ser o lóbi mau.
quinta-feira, 12 de maio de 2016
"Um preâmbulo penoso"
"A SIC inaugurou a sua nova fórmula de entrevistas. Recebe longamente o futuro entrevistado e, depois, leva-o para um corredor, para a entrevista. Ontem, entrevistador, José Manuel Mestre, um experimentado jornalista, com microfone na mão; entrevistado, António Costa, primeiro-ministro. Ambos de pé. Ao fundo do corredor, uma acompanhante do primeiro-ministro espreitava, saía e regressava ao cenário. Interessante o elemento inovador: o entrevistado traz um acompanhante e, pela impaciência deste, sabe-se que a entrevista está, ou não, prestes a acabar. Poupa-se em relógios. A conversa, entretanto, flui entre o entrevistador e o entrevistado, o Mestre e o Costa. Aí, a coisa já decorre de forma ortodoxa - um pergunta, o outro responde, como acontece nas entrevistas. O ambiente era de tal modo de conversa que António Costa até se permitiu dizer para o entrevistador, no início da entrevista: "Não quero estimular a concorrência entre si e o José Gomes Ferreira." O entrevistado lembrou, assim, outro insólito nesta variante inovadora da SIC: momentos antes, o tal Ferreira serviu para fazer a transição entre a chegada do entrevistado e a entrevista propriamente dita. Ambos sentados, Ferreira dizia coisas, sorria, com subentendidos que ele lá sabe, e, quando o Costa ia a responder, dizia que não havia tempo e punha nova pergunta. Se a SIC tirar essa parte inicial, penosa e sentada, a nova fórmula de entrevistas de pé até pode ser interessante.
(Ferreira Fernandes: "SIC, um preâmbulo penoso")
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016
"Deve ser duro"
Deve ser e muito, salvo se a vergonha for pouca. Como parece ser o caso da direita raivosa incarnada na coligação PSD/CDS.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016
"Passava lá ele, o Orçamento!"
«(...)
O orçamentista fartou-se de grasnar, este ano. Que não dava. Passava lá ele, o Orçamento! Bruxelas é que lhe ia cortar o pio, à geringonça... A piadeira, com o aproximar do Carnaval, travestiu-se de abutre. O velho abutre de Sophia, que "alisa as suas penas/ A podridão lhe agrada e os seus discursos/ Têm o dom de tornar as almas mais pequenas." O gozo que daria aos orçamentistas que Bruxelas nos fizesse mais pequenos.
Olha, parece que não. Bruxelas faz o seu papel, Portugal faz o seu papel. Até aqui, 50 por cento do que costumava acontecer. Desta vez, estando ambos a cumprir - uma, lá, para cortar, outro, cá, para não deixar ser cortado -, parece que vai chegar-se a acordo, que é o que costuma acontecer a negócios entre iguais. Só cede quem negoceia; só consegue quem tenta. Quem, como antes, ia mais além contra si próprio, era recebido de braços abertos em Bruxelas. Pudera...»
(Ferreira Fernandes: "Passarinhos e passarões, aves de rapina e cucos". Na íntegra: aqui)
sexta-feira, 4 de dezembro de 2015
"O tabu da oposição"
«Primeiro-ministro, a palavra, é o tabu da oposição. Um deputado do PSD que passe por um governante e diga "o amigo é o primeiro ministro que vejo hoje nos corredores", sublinharia logo: "Primeiro ministro sem hífen, atenção!" À direita, a palavra "primeiro-ministro" está tão banida como "bomba" em aeroporto americano. Esta semana, na discussão do programa do Governo, Passos Coelho disse: "Este Governo, assim como o seu chefe..." Kaput ao inominável cargo! Como Portas é só líder secundário da oposição, já pode ser menos radical: "Senhor primeiro-ministro, vírgula, mas senhor primeiro-ministro que o povo não escolheu." E Telmo Correia, ainda mais secundário, também pode dizer o palavrão, já que lhe acrescenta a irrisão: "Primeiro-ministro não eleito." Primeiro-ministro sozinho é que não, é pecado capital, quem o disser denuncia-se como assinante do Avante. Entre a gente bem, dizer "primeiro-ministro" é como dar dois beijinhos na face, sei lá... Um anátema não se explica, diz-se pela boca fora. Telmo Correia - tão contra primeiros-ministros que não são eleitos como tal! -, quando foi ministro (do Turismo), foi com Santana Lopes que, substituindo Durão, saiu da Câmara de Lisboa para ocupar o cargo de primei..., perdão, coiso. E que dizer da semana passada, quando Cavaco empossou o Governo? Vocês julgam ter visto Passos cumprimentar o novo primeiro-ministro, mas não. Dizia-lhe: "Que faz aqui no bairro, António, veio aos pastéis?"»
(Ferreira Fernandes: "A oposição já tem programa: abolir o hífen!")
sexta-feira, 27 de novembro de 2015
"Ontem, Cavaco tomou posse da sua ida embora"
«O tom intratável não foi bonito porque o assunto era nosso, país em crise e confuso que merecia cortesia. Mas o tom tinha justificações e ele próprio as deu: este governo eu não o quero, só o tolero porque não tenho alternativa e vou tê-lo debaixo de olho! Eis o Presidente, ontem. Compreende-se a indisposição. Mas de quem a culpa de não procurar novo governo? Dele, pois os prazos estão esgotados para marcar novas eleições... Então, porque não pensou nisso quando marcou as anteriores tão tarde e sem tempo de retificar com outra ida às urnas? É que o resultado geral de 4 de outubro nem foi surpresa, foi mesmo o mais provável: nenhum dos dois candidatos a governar, Passos e Costa, teve maioria absoluta. Decorria desse facto esperado que seria prudente arranjar uma almofada à crise. António Costa perante a tal probabilidade de não haver maioria absoluta, já antes da campanha eleitoral foi dizendo que não desdenhava alianças com ninguém - e, de facto, ele procurava alternativa ao beco. Já Cavaco Silva meteu-nos a todos num problema - e com ele sem mestria para o resolver. Costa assume-me político e talvez seja bom porque encontrou uma solução para Portugal. Cavaco diz sempre que não é político, mas é-o, há 35 anos, e mau, e comprou uma azia para ele. Agora estrebucha com arreganhos que são só conversa. A política às vezes é como a natureza que gosta de simetria: a dois meses sem governo vão seguir-se dois meses sem Presidente.»
segunda-feira, 26 de outubro de 2015
Golpe de estado, sem aspas
«As notícias do "golpe de Estado em Portugal" foram manifestamente exageradas. Daí os jornais, ontem, não terem dado por tanques nas ruas. Mas, então, como é que as notícias exageraram e os jornais se calaram? Ora, ora, o admirável mundo novo responde: o Twitter encarregou-se de anunciar as barricadas. Antes, alguns jornais, portugueses e estrangeiros, tinham comentado, com espanto natural, o discurso do Presidente português, de quinta-feira. Não as nossas bizarrias constitucionais, não, cada país tem as suas. Mas excluir do governo, sem mas nem meio mas, dois partidos legais e (muito) votados, essa ideia peregrina de Cavaco, foi considerado abuso por algumas opiniões. Foram estas que levaram uns piadistas nacionais a esticar a crítica para, exagerando-a, lhe retirar a eficácia. Ah, Cavaco abusou? Façamo-lo, então, general Alcazar! E foi assim que, no fim de semana, o Twitter inventou um "golpe de Estado em Portugal". Toca de publicar fotos de procissão na Cova da Iria e maratona no tabuleiro da Ponte 25 de Abril, com legenda: "Protestos gigantescos". Mais fotos: velhas manifestações de polícias e a bandeira nacional içada ao contrário mostrando o país descontrolado. E o 0-3 na Luz confirmando mais um atentado aos grandes símbolos nacionais... Ok, piadas, é giro. Mas, atenção, se aquelas palavras de Cavaco se aplicarem num ato político, tirem as aspas ao "golpe de Estado em Portugal."(...)»
(Ferreira Fernandes; As aspas do "golpe de Estado em Portugal". Na íntegra: aqui)
sábado, 24 de outubro de 2015
"O processo de apagamento em curso"
«(...)
E com a convicção de que uma imagem vale mais do que cinco pareceres de constitucionalistas mostrou-nos os dois finos buracos em retângulo: os comunistas e os bloquistas tinham sido abolidos da democracia portuguesa. Eu estava num café quando ouvi o senhor Presidente da República. Olhei à volta e foi terrível. Percebi que as pessoas agora nem por gestos entendiam Aníbal Cavaco Silva. Aquilo era um olhar alucinado e poucos viram isso.
Saí do café a matutar na velha e desiludida ideia de que as pessoas só entendem quando lhes batem à própria porta. O abuso cometido, por enquanto, é só um problema "deles", os do PCE e do BE, só 996 872 portugueses, só 18,44% dos votantes, a quem acenaram com um direito que depois rasuraram, mas só a eles. Ninguém, para lá dos comunistas e dos bloquistas, pensou: e se amanhã outro alucinado também me quiser apagar?»
(Por Ferreira Fernandes. Na íntegra: aqui)
(Disse alucinado? Disse bem.)
segunda-feira, 21 de setembro de 2015
Um recado oportuno (com dedicatória)
"Ao contrário dos seus camaradas portugueses, o Bloco de Esquerda, os gregos radicais cresceram porque souberam ser mais do que profissionais do protesto, souberam mostrar-se candidatos a governantes."
sexta-feira, 18 de setembro de 2015
"Na mão de tacanhos"
A começar pelos de cá, digo eu, mas o melhor é passar, desde já, a palavra ao Ferreira Fernandes, que de crónicas, bem como desta e de outras matérias, percebe muitíssimo mais do que eu:
«Foi agorinha, acabámos de ver fechada a fronteira da Croácia com a Sérvia, e mais à frente a fronteira da Eslovénia que se fechou, porque os que estão lá dentro já não entram na fechada Áustria... Querem investir? Façam-no na Chaves do Areeiro ou no cimento para muros ou nos fardamentos, que os polícias e militares vão ser mais nas alfândegas dos que eram os guardas-fiscais. Tirem as estrelinhas da bandeira da UE, ponham aloquetes. Não é crítica, é expressão dos factos: é assim porque tem de ser assim. Já tivemos o nosso breve período Facebook, like, like, polegar generoso, mas a verdade é esta: nenhuma sociedade humana pode ter a porta toda aberta (nem mesmo a da sede do Partido Libertário Mundial). A crise humanitária síria devia ser tratada não pela autogestão das vítimas, mas por uma política centralizada europeia. Por a questão ser grave a Europa devia ser clara e pensada - e uma. E aqui chegamos à fórmula de ironia grosseira com que abri a crónica: "Foi agorinha..." Não foi! O primeiro barco de refugiados (duma África agónica) chegou à siciliana Lampedusa em 1992. Malta, em 2007, explodia de imigrantes pelas costuras. Calais é um gueto há anos... A Europa tratou disso vesga, como na crise financeira. Nesta, ao menos tiveram jeito para alguns, a Alemanha safou-se. Mas, agora, até ela vai na enxurrada, fechou a fronteira e sente-se cercada. Choramos o fim da livre circulação porque deixámos a Europa na mão de tacanhos.»
(Quando voltamos a parar em Vilar Formoso?)»
quinta-feira, 10 de setembro de 2015
"Passos puxou pelo fantasma e saiu-lhe Costa"
«(...)Portugal precisa de ser governado e ontem havia dois homens que tentavam convencer os portugueses de que podem ser o próximo primeiro-ministro. E acontece que esses dois eram, são, os únicos que o podem ser. E acontece, ainda, que ontem foi o único dia que os dois tinham para se combater - dando a cara e as ideias. Alguém a intrometer-se estaria sempre a mais. Os portugueses só precisavam de que as televisões lhes dessem câmaras, luzes e microfones para que o duelo lhes chegasse a casa. A haver alguém a mais só seria necessário quem soubesse como funciona um relógio, para repartir o tempo a meio. Mais nada. Ontem, porém, meteram no estúdio três jornalistas que cumpriram a mesma função intrusiva e desnecessária dos pés de microfone que, nos corredores, pedem a opinião daqueles que, um minuto antes, estiveram no estúdio a dizer o que queriam. Com um agravante: os três de ontem, porque importunavam, não deixaram que se visse, como completamente devia ter sido visto, a coça que Passos Coelho levou. Primeiro, de si próprio, porque medíocre. Segundo, de si próprio, porque sonso (inventando um adversário que não o que tinha à frente). E, terceiro, de si próprio, porque manifestamente inferior a António Costa.»
(Ferreira Fernandes. Na íntegra aqui. Destaque meu)
quarta-feira, 10 de junho de 2015
A mim, também
"Interpelando os jornalistas, ontem, outra vez: "Já conseguiram descobrir uma frase minha em que convido os portugueses a emigrar?", perguntou Passos Coelho. Jornais e telejornais tinham passado o dia a desenterrar frases explícitas sobre aquele convite. Em outubro de 2011, Alexandre Mestre, um secretário de Estado de Passos, convidou os jovens a emigrar. Dois meses depois, o próprio Passos propôs a professores desempregados que emigrassem. As palavras de ambos estão gravadas. E eram a expressão da política de Passos. No ano seguinte, 2012, os portugueses emigraram mais do que em 1966, quando do pico da ida para França. Quando aquelas tolices, de Mestre e de Passos, foram ditas, escrevi a razão que as fazia tolice. Não era lembrarem que havia uma coisa chamada emigração. O meu avô, o meu pai, eu próprio e a minha filha trabalhámos em terra que não nos viu nascer - somos portugueses comuns, sabemos que emigrar está-nos no ADN. A decisão de partir é um direito, e tanto o usarmos só prova que os portugueses sabem ser livres, mesmo em situações adversas. A questão é: aos governantes cabe propor aos portugueses o que fazer cá dentro, não anunciar-lhes que há alternativas lá fora. Um convite a partir é um insulto, é um empurrar para longe do nosso. Mas eis que Passos tomou a iniciativa de voltar ao assunto. Parece que a sua tática eleitoral é mostrar que vai em frente com a pertinácia dos que não têm vergonha. A mim convenceu-me."
(Ferreira Fernandes; "A mim, Passos Coelho convenceu". Daqui)
A mim, também. Há muito.
sábado, 16 de maio de 2015
Pobres de espírito *
«A Expo 2015, em Milão, é dedicada às arrecadas de ouro de Viana do Castelo, ao cavaquinho e ao Licor Beirão. Já é surpreendente que o quase centenário Gabinete Internacional de Exposições tenha decidido fazer uma Exposição Universal com assuntos tão portugueses. Mas o mais extraordinário é que o apelo pelos valores lusos acabou por ser acolhido por 142 países. Dão-se conta? O pavilhão das Seychelles a mostrar renda de bilros, o da República Islâmica do Irão a distribuir cálices de ginjinha e no dia da Finlândia vai ouvir-se um lapão a cantar o fado... Grande Portugal, quanto das tuas coisas típicas é orgulho universal!
Eu minto, mas só um pouco. O interesse da Expo 2015 não é pelas pequeninas coisas avulsas portuguesas. Não é por Belém (o pastel), é pelo fantástico que Belém (a Torre) significa na História Universal. A minha pequena mentira do primeiro parágrafo esconde a verdade grandiosa da Expo de Milão: ali se saúda (e é esse o seu lema) "a alimentação no mundo", isto é, as coisas de comer passeando por aí. E que é isso senão Portugal? O daqui para ali da cana-de-açúcar e do abacateiro, a história do viajante amendoim, o milho turista, o cacaueiro que partiu e a pimenteira que chegou, a peregrina palmeira de dendém e o excursionista café... Não, não foi Portugal que os inventou, mas foi Portugal que os apresentou ao mundo.
Porém, nesse lugar - Milão, hoje - onde o mundo glorifica a comida, Portugal não está presente. Não tem pavilhão, nem banca, nem um simples papelinho distribuído à entrada: "Olá, vocês não se lembram, mas já nos conhecemos. Foi Portugal que vos apresentou a/o [e aí o folheto diria o nome dum tubérculo, dum fruto, dum cereal]..." Aos brasileiros deu o café para conversar; à China e à Índia, a batata; e vindo dos Andes, o chili pepper, o jindungo que, passando pelo Brasil, deu sentido às sopas tailandesas e coreanas. Reparem, nem falo da paprica húngara - só reivindico as entregas diretas. A Budapeste, o picante só chegou depois de passar pela Turquia, trazido da Índia, onde, em Goa, os portugueses tinham metido o jindungo novindaloo. Leiam alto e descubram a origem da palavra: "vinha-d"alho"... O vindaloo encontrei-o, também deturpado, em Trindade e Tobago e no Havai.
Em 1972, o americano Alfred W. Crosby publicou The Columbian Exchange (A Troca Colombiana), sobre uma mudança-chave da história, quando o Velho Mundo se encontrou com as Américas. Nesses anos, 1492, com Colombo, e 1500, com Pedro Álvares Cabral, o planeta começou a ser pintado redondo. Global, como hoje se diz. No maravilhoso A Aventura das Plantas e os Descobrimentos Portugueses, de 1992, José Mendes Ferrão explicou essa contribuição portuguesa. O mais comum prato angolano, o funje, é acompanhado por fuba de milho ou por fuba de mandioca. O milho e a mandioca vieram do Brasil. E não se espalharam só pelas antigas colónias portuguesas, são as duas farinhas mais comidas em toda a África. O molho desses pratos é feito com óleo de palma, do coconote, que foi levado pelos portugueses da Índia (Goa) e Sudeste da Ásia (Malaca) para África e Brasil. Quem come moqueca em Salvador da Bahia, saboreia Goa, sem que a agência portuguesa de viagens cobre taxas. No Nordeste brasileiro, chama canjica ao mingau de milho, ou munguzá, se for sem tempero e sal. Os nomes vêm do quimbundo angolano, kanjika e mukunza. Quer dizer, a viagem das plantas não foi feita calada, uniu povos, para lá do palato.
A cana-de-açúcar tem origem na Índia e chegou a Pernambuco, o café é da Arábia e chegou a São Paulo. "E quem levou?", perguntaria o folheto que devíamos levar a Milão, já que não temos pavilhão. Os portugueses conhecem o ananás desde 1500, do Brasil. Levaram-no para estações de aclimatação, para os Açores, para o tornar de outro mundo (como levaram o cacau para São Tomé). Durante décadas, o Havai foi o maior produtor de mundial de ananás, mas só o começou a produzir em 1886, oito anos após o Reino do Havai, graças a um acordo de emigração com Portugal, já ter camponeses de São Miguel, Açores...
O pavilhão da Santa Sé, na Expo 2015, diz que a comida é também assunto de rituais e símbolos. Claro. E os portugueses foram apóstolos do valor sagrado do pão, espalharam-lhe a palavra e os sabores. O governo português diz que não temos pavilhão porque não temos dinheiro. É falso. Não estamos lá porque quem decidiu é pobre de espírito. Não merece Portugal.»
* Como se prova, uma vez mais.
segunda-feira, 20 de abril de 2015
"Patamar impensável"
"Há coisas, como ensina a gaguez, que só lá vão cantando. Cantemos, então: "És sempre para mim a mais bonita/ Apesar de enrugado esse teu rosto..." Já percebeu, Passos Coelho? Era o que eu dizia, cantando até você vai lá. Aquele "apesar de" é uma locução prepositiva, ajuda a expor uma ideia que não impede o contrário... A mãe estar velhinha não impede que o filho continue a gostar dela, diz um fado simplório. Este chama-se "Amor de Mãe", o mesmo nome do cantado por Marceneiro, mas esse é outro patamar. Fui buscar um fado simplório para que você entenda a necessidade de dar um saltinho. Que diabo, o Passos Coelho é nosso primeiro-ministro! A uma mãe, num fado simplório, pode dizer-se que está enrugada e isso ser o menos. Mas numa declaração de primeiro-ministro sobre um ministro falecido não se diz "apesar de..." Era o Mariano Gago coxo? Ou mesmo gago? Estúpido? Socialista? Mesmo sendo-o, há que calar os pequenos defeitos do morto. Como ontem, neste jornal, o Nuno Saraiva lhe explicou, o seu "apesar de ter servido em governos do Partido Socialista..." é de presunçoso sectário. Mas foi mauzinho, o Nuno Saraiva, falar de política consigo. Também é patamar a mais. Eu fui para o faduncho "Amor de Mãe", porque gostava de o ouvir a falar português. Só. Repare, não fui para o "Apesar de Você", do Chico Buarque, que não, não é um arrufo de namorados - é política escrita com inteligência. Esse, então, era patamar impensável."
(Ferreira Fernandes; "Letra de faduncho para Passos chegar lá". Daqui)
terça-feira, 3 de março de 2015
As explicações de Passos Coelho só têm sentido num filme de ficção científica *
«Eli Gold é homem-sombra de políticos. Sabido e sabedor, põe as mais difíceis perguntas às personalidades que serve - e estas deixam-se conduzir por ele. Se Passos Coelho tivesse um Eli Gold não teria dito: "Não tinha consciência de que essa obrigação era devida..." E isso quando essa tal obrigação é conhecida, e cumprida, pelos portugueses médios. E isso quando se é Passos Coelho, o português que faz gala, sobretudo lá fora, em mandar os portugueses cumprir obrigações. Não, Passos não diria essas asneiras. Mas, diga--se, também não podia ter Eli Gold a servi-lo: Gold é um personagem de série televisiva (The Good Wife, na Fox Life). Nesta temporada 6 de The Good Wife, ele propõe à protagonista, Alicia Florrick, que se candidate a procuradora-geral, o que na América é cargo eleito. Tendo ela aceitado, Eli ensinou-a a combater os esqueletos no armário (e que ela até desconhecia): o aborto que o filho dela ajudara a namorada menor a fazer, o irmão que tem um caso com um gay de filmes porno, a mãe que esbofeteara um garoto malcriado numa loja... Se bem repararam, The Good Wife alinhou segredos vulgares. É o que dá força às séries americanas: o respeito pela verosimilhança. Não cabia na cabeça de um guionista americano emprestar a um candidato a cargo público a condição de não ter pago a Segurança Social durante cinco anos. E, depois de eleito, dizer que não sabia que era obrigatório, só mesmo em ficção científica.»
(Ferreira Fernandes- "Passos Coelho devia ver mais séries de TV"- Aqui)
(*Um titulo que teve a pretensão de resumir mais um excelente texto de Ferreira Fernandes, no DN)
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015
"Mas ela (ele) fez o quê?"
«Como não sou um latinista reputado para dizer que delatar e dedo têm a mesma origem, o que me daria jeito, sirvo-me da palavra dedo-duro. Os brasileiros, que são quem melhor manuseia a nossa língua, inventaram dedo-duro para dizer denunciante. Olhem o gesto: aponta quem, mas não diz o quê... E isso é importante? É, faz-nos andar para trás. Quando os deuses fizeram os seres vivos, dos lobos aos homens, deram-lhes ganas para fazer o que lhes apetecia, machucar e matar. Era bom, exceto, claro, para os que eram mortos segundo nos apetecia. Mas andámos, andámos e chegámos à lei, que acabou com o lobisomem. A lei, sancionando, permitiu que fosse metido na ordem quem ia contra as regras determinadas pela aldeia e pelo Tribunal Europeu de Justiça (estou a saltar etapas, mas a crónica é curta). Grosso modo, a lei funciona respondendo a esta pergunta: "O que há de errado, se há, no que foi feito e por quem?" Repararam na filosofia implícita da fórmula? Primeiro, verifica-se se houve crime e, havendo, vemos quem o cometeu para o castigar. Foi isso que nos levou a chegar a civilizados. Ora, esta civilização que tem sido combatida há séculos, por estes dias é-o por esta fórmula: "O que havemos de fazer com esta pessoa, apesar de não sabermos o que ela fez?" É a fórmula do dedo-duro. Por exemplo, a popular lista do banco suíço: "Olha a D. Sílvia, de Vila Real, a portuguesa dos 200 e tal milhões!!!"... Sim, mas ela fez o quê?»
(Ferreira Fernandes; "Tudo sobre a portuguesa dos muitos milhões!". Daqui)
sexta-feira, 31 de outubro de 2014
É um supor?
Mas não só, acrescento eu. Para um pantomineiro, como Passos, tudo é um supor. Espanto é que ainda haja por aí quem suponha que Passos é indivíduo para levar a sério.
quarta-feira, 10 de setembro de 2014
"Não vou discutir a baixa do IVA, não"
"Há dias, saía eu do Hospital de Santa Maria para apanhar táxi, quando ouvi: "Olá, amigo!" De um carro estacionado, um jovem estendia-me a mão. "Há quanto tempo... Não me está a reconhecer...", disse ele. Continuei dubitativo. E ele, tirando o boné: "Está a ver? Sou a cara chapada do meu pai, você ia tanta vez lanchar com ele! O Pereira... Pereira da Silva, talvez o conhecesse como Silva. Já se lembra?" E eu: "Não me lembro. Bom-dia!"... Já fui mais rápido a reagir ao conto do vigário em fase preparatória. Um dia, no Leblon, íamos eu e a minha filha, ainda garota, felizes no primeiro dia dela no Rio. Um vendedor de lotaria deixou cair no passeio, de forma dissimulada, um bilhete de lotaria. A miúda ia apanhá-lo e devolver, quando a impedi. Chamei o dono, mostrei--lhe o bilhete e cortei o começo de conversa que já ia na oferta de alguma coisa pela minha simpatia... Sei porque me lembro disto agora, ouvi o debate, ontem, das primárias no PS. Ouvi Seguro a dizer: "E sabes porquê, António?" E dizer: "Naquele tempo havia solidariedade!" E: "O que fizeste ao PS?" Já aqui o disse: não gosto de Seguro. Não é por esta ou aquela linha política. E nem é por essa coisa que salta nos políticos quando falta, o carisma. É pela cara mesmo. O falso afeto. Isto é, por uma razão política maior. (...)"
(Ferreira Fernandes. Na íntegra: aqui. Destaque meu.)
Subscrever:
Mensagens (Atom)