sábado, 26 de abril de 2014

O empecilho

Por certo que renunciar ao mandato presidencial não passa pela cabeça de Cavaco Silva, mas, a meu ver, uma tal atitude seria (é) a única compatível com o compromisso por ele assumido com o juramento na tomada de posse. 
Direi porquê:
Ao ser investido na função presidencial, Cavaco tomou sobre si a obrigação de velar pelo regular funcionamento das instituições, cumprindo e fazendo cumprir a Constituição da República. Ora, Cavaco, ao longo de todo o actual mandato (não falo do primeiro, porque já lá vai) fez de tudo um pouco, desde conspirar contra o Governo de José Sócrates, até patrocinar a formação do actual governo de que tem sido o mais ardente defensor e o mais forte esteio. De facto, Cavaco fez de tudo um pouco, repito, menos exercer, com imparcialidade, o mandato que lhe foi conferido. Não admira, por isso, que hoje apenas a direita se sinta representada na presidência da República. Cavaco, nunca foi e, por culpa própria, já nunca poderá vir a ser "presidente de todos os portugueses". Em vez da união que lhe competia promover, Cavaco é hoje, um factor de divisão a quem já ninguém reconhece capacidade para desempenhar o papel de mediador de consensos. Nem o bom rapaz que dá pelo nome de António José Seguro, imagine-se!
Cavaco, em vez de representar a unidade nacional, tornou-se ele próprio, um verdadeiro empecilho ao regular funcionamento das instituições.
Só pode ter dúvidas de que Cavaco não tem já condições para exercer o mandato presidencial quem não tenha olhos para ver o silêncio ostensivo com que são acolhidas pelas oposições as palavras que ele profere no hemiciclo de São Bento, ou quem não tenha ouvidos para ouvir as vaias com que é mimoseado o seu nome no Largo do Carmo.

25 de Abril: 40 anos depois (II)

Um balanço, por Augusto Santos Silva.
Altamente positivo, alguém tem dúvidas?

"Falar para o boneco"

É assim que vejo e ouço (em diferido) Cavaco a discursar na cerimónia comemorativa do 25 de Abril na Assembleia da República, apelando pela enésima vez ao compromisso entre os partidos políticos.
Estranho é que  Cavaco, o político com maiores responsabilidades na deterioração do clima político durante o segundo Governo de José Sócrates e o político que, em última análise, esteve na base da recusa por parte do partidos da direita em aceitarem viabilizar o PEC IV, não se dê conta do ridículo da situação. 
Como já escrevi algures, Cavaco, o incendiário, anda a tentar fazer de bombeiro, mas como é evidente, faltando-lhe autoridade moral para apelar a compromissos, Cavaco ao fazer tais apelos, está de facto a "falar para o boneco", pois,  por uma razão ou outra, já ninguém o leva a sério. Em boa verdade, nem o governo de Passos, Portas & Cª.
Estranho é também que Cavaco não se dê conta disso, tanto mais que no hemiciclo de São Bento, tem bem à sua frente evidentes sinais de que uma boa parte da população, a representada pelos deputados da oposição, já nem sequer o ouve. Ou se ouve, faz de conta. 

25 de Abril: 40 anos depois

"(...)
A paz, o pão, a habitação, saúde, educação - todas as reivindicações da canção Liberdade, de Sérgio Godinho, se concretizaram. Tínhamos uma guerra estulta e brutal - 169 mil soldados foram enviados para as colónias, morrendo mais de 8000 - e deixámos de ter. Havia fome - calcula-se que 10% da população portuguesa emigrou nos anos 60, grande parte "a salto", para engrossar bairros de lata nos países de destino - e hoje, persistindo carência, desemprego e exclusão, não há comparação possível. Havia dezenas de milhares de barracas - grande parte das casas eram como barracas - e hoje são uma realidade residual. Havia números de mortalidade infantil africanos, uma rede hospitalar incipiente, e temos hoje um Serviço Nacional de Saúde que ombreia com os melhores e uma mortalidade infantil entre as dez mais baixas do mundo (só entre 1990 e 2011 diminuiu 77%). Em 1970, a taxa de analfabetismo raiava os 30%, hoje é 5%; a taxa de escolarização no secundário era 3,8%, agora é 72,3%; os doutoramentos contavam-se anualmente em dezenas, agora são milhares.
Quem, do PC ao PNR, passando por este Governo de maçães, resume os 40 anos a "desperdício", "corrupção" e "traição" não está bem da cabeça. Outra coisa é dizer que é tudo perfeito, que chegámos ao fim da estrada da canção de Gomes Ferreira (o escritor, não confundir). Aliás, a ideia de que um golpe de Estado nos colocaria, por milagre, na terra do leite e do mel, bastando-nos agradecer a dádiva, comunga da infantilidade amorfa que nos fez, como país, aguentar 48 anos de uma ditadura tacanha. Se há falhanço nestas quatro décadas é esse - o de tanta gente achar que a política é uma coisa que lhe acontece, não algo que se faz. Ter nojo "dos políticos", achando que "são todos iguais", entregando-lhes ao mesmo tempo o destino, é capaz de ser uma grande estupidez - e para isso é que, de certeza, não foi feito o 25 de Abril."
(Fernanda Câncio - "No fim da estrada". Na íntegra: aqui. Realce meu)

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Acordai!



"Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raíz

Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações

Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!

Música: Fernando Lopes Graça
Poema: José Gomes Ferreira
Interpretação: Coro de Câmara Lisboa Cantat"


25 de Abril, sempre!

terça-feira, 22 de abril de 2014

O governo precisa dum check-up?

Desculpe, Paulo Ferreira, mas, desta feita, não posso concordar consigo, pois qualquer diagnóstico é desnecessário. Check-up para quê, se o governo é, ele próprio, não o doente, mas a personificação do mal? Infelizmente, remédio é que, pelos vistos, não há.

domingo, 20 de abril de 2014

"Dar palha ao burro"

Não é exactamente a expressão em título a desencantada na linguagem popular por Manuel Carvalho para caracterizar, em artigo de opinião (Trapalhada, uma receita para o pós-troika) publicado na edição de hoje do Público, a acção deste governo ("calamitoso" e "extremista do ponto de vista ideológico", no dizer de Francisco Assis, em entrevista publicada na mesma edição, opinião que, obviamente, partilho).
Manuel Carvalho prefere antes a expressão "dar palha ao animal" que, embora mais "soft", não me parece ser a genuína. No entanto, seja qual for a verdadeira expressão popular, qualquer das versões serve para traduzir a desorientação que impera neste governo "viciado a reagir por pressão da troika e pouco treinado a pensar pela própria cabeça". 
Tê-la-á?
Justifica-se a pergunta, porque, cabendo ao primeiro-ministro desempenhar a função de pensar e de definir um rumo para a governação,  ele acaba de fazer a cabal demonstração da sua impreparação com a pretensa entrevista dada à SIC, em que ficou claro que não tinha nada para dizer, porque também não sabe o que fazer.
A capacidade de Passos Coelho e, consequentemente, a deste governo esgotou-se na aplicação de medidas de austeridade, seja sob a forma de cortes nos salários dos funcionários públicos e nas pensões, seja pela via do aumento generalizado de impostos, matérias em que, verdade seja dita, até são peritos e em que até são perfeitamente capazes de dar lições à troika
Os últimos desenvolvimentos desta (des)governação estão aliás bem presentes para demonstrar que, para além da capacidade e da insensibilidade para "cortar", o governo é incapaz de definir um rumo, tão evidentes são os sinais de desorientação e as contradições. 
Nestas circunstâncias, resta ao governo "dar palha ao burro", expressão aqui usada no duplo sentido, que ela, a meu ver, comporta e que se traduzem em "enganar tolos", enquanto se vai "encanando a perna à rã". É o que faz quem não sabe o que fazer.E é, claramente, o caso deste (des)governo.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Enganar


Vou um pouco mais longe que o Fernando Madrinha (hoje, no Expresso): a estratégia de comunicação deste governo não se resume a "confundir e baralhar" o que, só por si, já significaria estarmos perante uma estratégia deplorável e reprovável, mas ao "confundir e baralhar" há que acrescentar o "aldrabar". Sem esta componente, o governo não teria o sucesso que tem tido em alcançar o objectivo que prossegue, desde a primeira hora: ENGANAR.

O pensar (?) dum "rapazola" que, por certo, não pensa chegar a velho


As "duas certezas" são reveladas na edição de hoje do "Expresso" pelo jornalista João Garcia.

Uma tragédia ...


... e bem grande!

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Pontos nos is

«Os adversários da reestruturação da dívida pública têm travado o seu combate no plano económico e moral, mas é sobretudo neste último que têm tido mais sucesso. No plano económico, os partidários da reestruturação/renegociação da dívida ganharam de forma inequívoca; mas no plano moral, grande parte deles acabou por se colocar à defesa - ou porque aceitam as premissas da direita, ou porque desistiram de as confrontar.
1. A direita alimenta a ideia da culpa - "a dívida é consequência dos portugueses terem vivido acima das suas possibilidades e do despesismo" - e a esquerda desistiu de explicar as consequências assimétricas do processo de integração europeia, desde a adesão ao euro, até ao alargamento a leste e à liberalização do comércio com a China.
2. A direita defende que, ao contrário deles, a esquerda não quer pagar o que deve; já a esquerda refere poucas vezes que não se trata de nos dividirmos entre os que querem pagar e os que não querem, trata-se sim de fazer uma escolha. E o governo já a fez - para não falhar um único cêntimo com os credores internacionais, decidiu "não pagar" parte dos salários e das pensões aos trabalhadores do sector público e aos pensionistas.
3. A direita fala dos credores como beneméritos, aos quais não é justo imputar perdas; a esquerda não tem explicado que os nossos credores não nos "emprestaram dinheiro", fizeram um investimento financeiro em títulos de dívida pública e que, como qualquer outro investimento com risco, pode correr mal, não porque o povo português seja desonesto, mas porque o país enfrentou uma crise profunda, com consequências incontornáveis na sua capacidade de pagar. Em qualquer investimento que corre mal há perdas para o devedor e para o credor, porque haveria de ser diferente no investimento em títulos de dívida pública?
Como disse o arcebispo Silvano Tomasi, Observador Permanente da Santa Sé junto das Nações Unidas, ainda em 2012: "A dívida externa é só um sintoma da falta de justiça no fluxo de capitais mundiais" e "A riqueza e a dívida devem servir o bem comum. Quando se viola a justiça, a riqueza e a dívida tornam-se instrumentos de exploração"
(Pedro Nuno Santos, deputado do PS - "Dívida: um debate moral". Aqui)

Perguntas por esclarecer

"(...) Findo o Conselho de Ministros, a ministra veio dizer-nos que, apesar de se esperar um crescimento da riqueza que produzimos (PIB) em 1,5% e um decréscimo do desemprego para 14,8%, tudo se mantém na mesma. Vale o mesmo dizer: o "ajustamento interno" é para continuar. Agora com cortes na despesa dos ministérios e redução de funcionários públicos que, por junto, valerão 1400 milhões de euros. Isto e mais uns "peanuts", como a eventual criação de uma taxa a aplicar à indústria farmacêutica e o encarecimento de produtos nocivos para a saúde.
A primeira pergunta que assalta qualquer incauto é: por que motivo só agora o Governo vai "sacar" 1400 milhões aos ministérios? Não era preferível ter feito essa poupança antes de atacar salários e pensões?
A segunda pergunta é: em que medida o corte nos orçamentos dos ministérios prejudicará, ainda mais, os serviços prestados aos portugueses (na saúde, por exemplo)?
A terceira pergunta é: quando é que o Governo nos diz quanto mais teremos que empobrecer (recorde-se: as medidas transitórias passaram a definitivas) até atingirmos excedentes (exportando mais e importando menos) suficientes para pagarmos a dívida? A tragédia social em que isto se sustenta tem prazo para terminar?
A ministra estava muito cansada para nos esclarecer..."
(Paulo Ferreira; "O cansaço da ministra e o nosso". Na íntegra: aqui.)