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sexta-feira, 29 de junho de 2012

Pior era difícil

Graças à austeridade do tipo "custe o que custar", o governo de Passos/Coelho conseguiu fechar os três primeiros meses do ano com um défice de 7,9% do PIB, acima do registado no período homólogo de 2011, muito longe, portanto, da meta dos 4,5% previstos para este ano. São números que os últimos dados conhecidos da execução orçamental já permitiam antecipar, com as receitas fiscais a cair 3,5%, até maio, quando no Orçamento do Estado rectificativo, o Executivo de Coelho, Gaspar, Portas & Cª previa um crescimento de 2,6% para o conjunto do ano. E a verdade é que estes números nem sequer são verdadeiros, pois são bem piores. De facto, os números da execução orçamental, pelo menos pelo lado da receita,  estão mascarados através da "habilidade" de os reembolsos do IRS não estarem a ser feitos atempadamente e através do expediente traduzido no agravamento das tabelas de retenção do IRS, agravamento que se traduz na retenção do imposto muito para lá do devido, a manterem-se as regras em vigor. Não quero jurar, porque a minha memória já não é o que era, mas, se bem me lembro, o agravamento da retenção, no caso dos pensionistas abrangidos pelo corte dos subsídios de férias e de Natal vai ao ponto de considerar como recebidos tais subsídios para cálculo da retenção. Mais uma enormidade, convenhamos.
Sendo assim, fazer pior que este governo era difícil. Tudo indica, na verdade, que caminhamos para um desastre de proporções tais que nem os mais pessimistas imaginavam. E tanto assim é que até aos fervorosos apoiantes governamentais já restam poucas dúvidas de que o governo não vai conseguir atingir a meta do défice previsto para este ano, o que, a verificar-se (e estou certo que assim será) significa que este governo de fundamentalistas austeritários  nem sequer vai conseguir a sua principal aposta que era a consolidação orçamental.
Por alguma razão, de Coelho, não rezam  as crónicas sobre a reunião dos líderes da UE. De facto, ao fiel lacaio da senhora Merkel, numa altura em que, por pressão da Itália, da França e da Espanha,se tomam decisões em contrário ás opiniões da dita senhora, só resta ficar calado e "meter o rabinho entre as pernas", à espera que, em devido tempo, lhe "passem a mão pelo pêlo". Tempo que já não vem longe, pois no final do ano se confirmará que a política de austeridade "para além da troika" vai traduzir-se num completo desastre, não restando a Coelho outra alternativa que não seja a de vestir a pele de pedinte de novas ajudas. Falta saber se a senhora Merkel, apesar do servilismo do pedinte, estará pelos ajustes.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

"À espera de um milagre"

"A Zona Euro e a própria União Europeia estão no fio da navalha. A incompetência e falta de visão estratégica da gente que governa este velho continente produziram os seus frutos envenenados. Agora é só esperar que eles tombem da árvore para ver em que país se iniciará uma reação em cadeia de efeitos destrutivos, que ninguém pode avaliar antecipadamente. Os recursos que a Zona Euro tem no bolso para enfrentar a catadupa de desafios das próximas 4 ou 5 semanas são os meros "trocos" que sobram do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF) (perto de 250 mil milhões de euros). Se a Grécia se estatelar para fora do Euro, no mínimo haverá perdas quase imediatas de 800 mil milhões de euros. A juntar a isso, a Espanha tem um sistema bancário completamente desacreditado. Só o crédito malparado será no mínimo no montante de 180 mil milhões de euros. Como ninguém acredita na engenharia contabilística dos banqueiros do país vizinho, tudo indica que a Espanha vai seguir o destino da Irlanda, endividando-se o Estado até ao tutano para salvar a sua banca com dinheiro público. A terceira desgraça é a loucura do mercado da dívida pública. Enquanto a Alemanha recebe o dinheiro de aforradores aterrorizados, que lhe pagam por cima para guardar as poupanças, a Espanha e a Itália estão cada vez mais perto da taxa mortífera dos 7% para os juros das obrigações a 10 anos. Na Europa, chegou o tempo de rezar com fervor. No mês de junho só um milagre nos poderá salvar."
(Viriato Soromenho Marques: in DN)

domingo, 27 de maio de 2012

A galinha de ovos de oiro e o camaleão

Com a Alemanha a financiar-se quase a custo zero, porque a ela afluem os fundos que desertam das praças dos países da UE mais endividados da UE, como Portugal, países que, por essa razão e em contrapartida, continuam a ver subir os custos dos financiamentos a que têm de recorrer cada vez mais, não admira que a senhora Merkel não queira prescindir da galinha de ovos de oiro que, para a Alemanha, outra coisa não tem sido a actual crise das dívidas soberanas. Por isso também se compreende perfeitamente que a senhora continue a opor-se firmemente à criação de eurobonds como forma de mutualizar a dívida dos países do euro, porque assim matava a galinha.
O que já não se compreende é que alguém, como Passos/Coelho chefe do "governo" dum dos países da zona Euro com a corda na garganta, continue a alinhar nas teses da senhora Merkel, ao defender decididamente que "as eurobonds não são uma resposta para a situação actual", contrariando as teses do primeiro-ministro italiano Mario Monti (para quem elas "são necessárias e (...) devem ser implementadas num futuro próximo") ou do presidente francês François Hollande que, depois de eleito e empossado, já "reiterou a sua proposta de emissão de títulos europeus da dívida pública, os chamados 'eurobonds'".
Curiosamente, Passos/Coelho, após ter mantido, durante a Cimeira da Nato, em Chicago, um encontro com o presidente francês, veio declarar, no seguimento, que foi estabelecida uma "boa base de trabalho". Não se vê como, com posições tão divergentes sobre a questão central da criação das eurobonds, como forma de resolver a crise europeia.
O que me leva a crer que Passos/Coelho, para além de "náufrago e suicida" também não recuse vestir a pele do camaleão. Não tem esta espécie a capacidade de mudar de aspecto consoante o ambiente ? E não tem Passos/Coelho, como parece, a capacidade de adaptar o discurso consoante o interlocutor?
(ilustração daqui)

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Para lá dos malefícios da crise

A persistência da crise, para lá do cortejo de malefícios dela resultantes, teve, pelo menos, a par, o mérito de demonstrar que os farsantes que acusavam Sócrates de ser o responsável por todos os males do país (e porque não de toda a humanidade, visto que a crise é geral) são isso mesmo: FARSANTES. E o agravamento das consequências, a que todos os dias estamos a assistir, prova outrossim que além de farsantes, também são INCOMPETENTES.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

"As bolsas europeias estão hoje em alta e eu não sei porquê"

Paul Krugman, prémo Nobel da Economia de 2008, não acredita que as decisões da cimeira europeia venham a resolver a crise da dívida.
Leia-se o que ele diz aqui.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

AhAhAh!

Com este panorama, não me espantaria muito se o triplo A, se transformasse, num dia destes, em AhAhAh!
É claro que Portugal não tem razões para rir, com os CDS a atingirem 1.105,39 pontos (mais 30 pontos), mas é evidente que isto só acontece, porque o Moedas ainda não teve tempo de falar com os "mercados". 
(Já que não temos razões para rir com esta situação, deixem-me, ao menos, rir com as fanfarronadas/parvoíces do Moedas!)

sábado, 12 de novembro de 2011

Um sádico

Quando numerosos e conceituados economistas nacionais e internacionais consideram que a ultrapassagem da crise das dívidas soberanas e a salvação do euro passa pela atribuição ao BCE de poderes para se assumir como credor de última instância, tese que até já é defendida por Cavaco Silva, o primeiro-ministro de Portugal (ou será da Alemanha?) entende, muito pelo contrário, que se o BCE tivesse por função resolver o problema dos países indisciplinados, imprimindo mais euros, pura e simplesmente esse seria um péssimo sinal”. 
Numa altura em que os mercados financeiros estão a forçar a substituição de governantes eleitos, por tecnocratas, como já aconteceu na Grécia com Papademos e está em vias de  se verificar na Itália, com a demissão, hoje anunciada, de Berlusconi, temos de convir, perante as citadas declarações de Passos Coelho, que em Portugal os mercados financeiros não necessitam de se preocupar. É verdade que não têm à frente do governo português um tecnocrata, pois Passos Coelho nem isso é, mas não estão pior servidos. Pelo contrário: não dispõem dum tecnocrata, mas têm alguém capaz de desempenhar muito melhor o papel dos tecnocratas: um sádico que considera que, havendo países indisciplinados (e sê-lo-ão?), o único remédio é punir o povo, impondo-lhe sacrifícios usque ad absurdum. A senhora Merkel não diria melhor.
(publicado também aqui)