segunda-feira, 26 de junho de 2017

Suicídios...

Vendo bem, suicídios até houve, embora não os inventados por João Marques (provedor da Santa Casa da Misericórdia e alegadamente candidato pelo PSD à presidência da Câmara de Pedrógão Grande) e propalados por Passos Coelho (líder do PSD). Os suicídios a que me refiro são os dos dois mencionados sujeitos que, como indivíduos, ainda mexem, mas que, como políticos, estão mesmo mortos.
Dois políticos que, em assunto de tamanha gravidade e de tão grande sensibilidade social e sem curarem de saber da sua veracidade, divulgam informação falsa sobre a existência de casos de suicídio ocorridos na sequência do incêndio de Pedrógão Grande, alegando falta de apoio do Estado, com a evidente e única finalidade de obter ganhos políticos. não são gente em que se possa confiar. E político não merecedor de confiança é  morto político. 
Não é assim ? Se não é, devia ser.

Há limites que não se ultrapassam...

... mas que o irresponsável Passos Coelho ultrapassa com toda a leviandade: "O Estado falhou e está a falhar. Há pessoas que puseram termo à vida".

Perante o cabal desmentido, que tem o irresponsável Coelho a dizer? Provavelmente nada, como é próprio de um charlatão. 
A irresponsabilidade do sujeito não me admira, porque já deu suficientes provas de que não é pessoa confiável. O que continuo a não compreender é como foi possível que tal indivíduo tenha desempenhado as funções de primeiro-ministro do meu país. 

E sim, o que verdadeiramente me admira  é que o partido que ele continua liderar não se apresse a corrrer com ele. Enquanto tal não acontecer, pode afirmar-se que se Passos Coelho é uma vergonha enquanto político, o partido que o tolera não lhe fica atrás.
(ilustração daqui)

Os pirómanos do costume: nós!*

«Temos de alinhar as nossas exigências às condições do nosso tempo. Eu começaria então por aqui: os gestos que nos definem como portugueses, os interesses que nos movem, os hábitos que cultivamos, as pessoas que admiramos, as rotinas que estabelecemos em casa e no bairro onde vivemos, também no emprego para onde vamos todos os dias, as casas que decidimos erguer ou comprar, as árvores que vemos crescer, os políticos que elegemos e como nos relacionamos com eles. As leis que cumprimos e as que optamos por ignorar.

Ao fim de muitos e muitos anos, o que resulta desta soma de escolhas, boas e más, somos nós, os portugueses ao espelho, um povo reflectido na soma de tudo isto. É evidente que há acontecimentos brutais, como os incêndios de há uma semana, que podem ir muito além desta soma de características. Podem ser o resultado da sorte e do azar. Mas pode também dar-se o caso de esta sucessão de eventos trágicos ser a consequência da trajectória que escolhemos percorrer como comunidade, um caminho feito por vontade própria ou então pela mais estúpida das inércias, a motivada pelo desinteresse e desmazelo colectivos.

Chega então o momento da contagem dos mortos e dos hectares destruídos, quase 50 mil, uma barbaridade, e apontamos logo o dedo agressivo aos políticos, evidentemente culpados pela incúria de anos e talvez até pela gestão danosa dos recursos públicos. Têm responsabilidade os políticos, é verdade; nalguns casos têm até culpa, terão de ser os tribunais a julgar, mas antes de olhar para quem nos conduz devíamos olhar para nós próprios e voltar ao início: somar as características que exibimos, cultivamos e favorecemos como povo e daí tirar daí conclusões. Podemos até escolher factos pequenos, coisas sem importância do dia-a-dia, mas que começam por dizer quem somos.

Por exemplo, é proibido levar os cães para as praias concessionadas. E no entanto é vê-los a andar pelo areal, fazendo o que os animais fazem quando têm vontade, sem que a polícia faça cumprir a lei. Acontece o mesmo nas ruas de Lisboa, porcaria por toda a parte, um nojo inacreditável, passeios de sujidade medieval. Aceitamos e seguimos em frente, faz parte da paisagem como a floresta desordenada. O problema não são os cães, não é o eucalipto, somos nós. E um dia há uma doença qualquer, uma criança que vai para o hospital, uma daquelas micro calamidades urbanas que estimula o interesse jornalístico e provoca a indignação - geral, genérica, tardia.

Num país sem guerra, a preparação para a época de incêndios deveria ser a nossa guerra, talvez uma e várias, como em tempos o foi a redução da mortalidade infantil. Não há milagres, há anos piores ou melhores que dependem de vários factores, mas a evolução consistente exige esforço, obriga o cumprimento de rotinas de trabalho. Os aviões caem pouco porque há um método que tem de ser seguido pelos pilotos em todos os voos: há uma manual a seguir linha a linha, sem falhas. As mortes por infecção hospitalar diminuem sempre que são cumpridos os protocolos, alguns deles elementares: os médicos lavam as mãos após cada consulta, não passeiam os estetoscópio ao pescoço.

As pessoas, nós, os portugueses, queremos culpar os políticos por causa dos incêndios. Eles têm uma parte central da responsabilidade, mas a desgraça que vivemos é o resultado das nossas escolhas, uma a uma, todas somadas. O ponto é este. Algumas são opções pessoais - os nossos terrenos que não limpamos, os piqueniques que fazemos, os foguetes que lançamos, as práticas perigosas que toleramos, a beata que atiramos pela janela do carro. Outras colectivas, como os políticos que elegemos anos após ano, fruto da apatia generalizada e da cultura de compadrio.

Sim, o SIRESP é um negócio muito suspeito - não vinha com garantia? A ministra da Administração Interna e o Governo foram apanhados desprevenidos, como sempre. A GNR, a Protecção Civil e os bombeiros são tudo menos um corpo coeso. Vamos então apurar responsabilidades, sim, mas é bom que entendamos: hoje somos uma nação de especialistas em incêndios, amanhã voltaremos a ser os pirómanos do costume. (...)»
(André Macedo: "Os pirómanos do costume" . Na íntegra: aqui. Sublinhado meu)

*Digo "nós", porque não quero excluir-me da responsabilização atribuída ao colectivo nacional. Tal não significa, porém, que o "nós" inclua todos os portugueses. Ainda há, felizmente, muitos cidadãos com elevado sentido de responsabilidade.
(ilustração daqui)

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Por terras de Miranda

Por Miranda entenda-se Miranda do Douro (Miranda de L Douro, em mirandês)  cidade desde 1545 e em cujo centro histórico sobressai o imponente edifício da Antiga Sé, monumento nacional que poderá observar em agumas imagens ali obtidas recentemente.



quinta-feira, 15 de junho de 2017

Por terras de Trás-os-Montes: Vimioso




(Não sei se S. Vicente me perdoará,  mas a verdade é que o pormenor que me despertou mais atenção, foi a gárgula, um excelente exercício de imaginação, como acontece, com frequência)

terça-feira, 6 de junho de 2017

domingo, 4 de junho de 2017

O belo e o simples

À vista da Igreja de Nossa Senhora da Alcáçova (no interior do Castelo de Montemor-o-Velho - dentre os que conheço um dos que se encontram em melhor estado de conservação) pergunto-me se os dois conceitos  (belo e simples) não serão coincidentes.









sexta-feira, 2 de junho de 2017

Um paraíso terreal?

Por enquanto, ainda não, mas para lá caminha. A bom ritmo: "Portugal chega ao pódio no Índice Global da Paz"
(Na imagem: Serra da Arrábida)
(Reeditada)

Eufemismo em alta!

Não seria mais apropriado e muito mais económico chamar-lhe simplesmente burro ?
Eu diria que sim, embora compreenda que, nas relações internacionais, o uso de eufemismos tem as suas vantagens. E compreende-se tanto melhor quanto é certo que, por estes dias, o uso de eufemismos está em forte alta. Graças, em primeiro lugar, a Donald Trump, um presidente só imaginável (e mesmo assim dificilmente) num país como os Estados Unidos da América, onde vigora, com razão ou sem ela, um sentimento de elevada  autoestima. Em qualquer outro país, um presidente como Trump seria insuportável. 
(imagem daqui)

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Cegueira ou estupidez?

O impressionante desempenho da economia portuguesa no 1º trimestre deste ano, com o PIB a crescer 2,8% em termos homólogos, muito acima de todas as previsões, mereceu do PSD, pela voz duma deputada da respectiva bancada parlamentar (Inês Domingos), um comentário que não ficará nos anais da política portuguesa, mas que merecia ficar como acabado exemplo de cegueira ou de estupidez.
Congratula-se a senhora deputada com " a recuperação do PIB", mas atribui  tão excelente resultado, por um lado  "à conjuntura internacional e na União Europeia mais favoráveis", e por outro e em primeira mão, "às reformas realizadas pelo anterior Governo". Não se esquece a deputada Inês Domingos de negar qualquer mérito ao actual Governo e, pelo contrário, repetindo a lengalenga do seu partido, insiste que os resultados da economia portuguesa têm surgindo. "apesar de o [actual] Governo (...) ter revertido reformas".
Não se dá conta a muito distraída deputada que este discurso encerra uma contradição insanável. Como é evidente, se as "reformas" do governo anterior foram "revertidas", os bons resultados da economia portuguesa não podem ser atribuídos a reformas que já não existem. 
Há quem diga que reacções como esta, na linha das posições que Passos Coelho tem vindo a tomar desde que muito legitimamente (e felizmente) foi despedido pelo Parlamento das funções de primeiro-ministro, se ficam a dever a pura cegueira. A mim, parece-me que cegueira não será, pois os bons resultados até no PSD os conseguem ver. Estamos sim, julgo eu, perante um caso em que o ressabiamento é tanto que fez perder ao líder do PSD e aos seus apaniguados a noção do real. Quando tal acontece, as posições que se tomam trazem, forçosamente a marca da estupidez. É o caso.
(citações e imagem daqui)

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Nem sei que vos diga, nem que vos conte...

... porque não tenho palavras:" PIB cresce 2,8% no primeiro trimestre" .
Bastante acima das estimativas dos especialistas e muito acima das expectativas. E a milhas das previsões catastróficas de um tal Passos Coelho, o desinfeliz líder do PSD e pobre diabo a quem o mafarrico acabou por trocar as voltas.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Um caso sério!

"INE deverá anunciar melhor trimestre para a economia portuguesa em quase sete anos" (fonte
A confirmar-se a boa notícia, é bem provável que para Passos Coelho, o principal responsável pelo afundanço do PIB entre 2011 e 2014, bem visível no gráfico supra, o caso passe a ser muito sério. 
Uma vez despedido pela maioria existente na Assembleia da República, Passos Coelho (inconformado com o derrube do governo por ele formado por insistência insana do então presidente Cavaco) por mais que uma vez assustou o país com o anúncio da chegada do mafarrico. Provavelmente este fez-lhe ouvidos moucos, mas, se porventura, chegou a vir, tudo indica que o feitiço se virou contra o feiticeiro. Na verdade, Passos Coelho é que nunca mais teve descanso.
Aliás, a continuarem as coisas pelo caminho que levam, é mais que certo que, mais dia menos,  até o bem atarraxado "pin" acabará por lhe saltar da lapela.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

"Rasgo e ambição" ?

"Ou há rasgo, horizonte e ambição para o metro de Lisboa ou os problemas da área metropolitana não se vão resolver (... ) A nossa proposta são 20 novas estações para o metro de Lisboa e espero que possam ser estudadas, planeadas, financiadas e tratadas" (Fonte
Rasgo e ambição? O que salta à vista em tal proposta é demagogia em doses maciças e uma evidente falta de noção do ridículo. Tanta que até dá para perguntar se ainda há no CDS quem leve a sério a presidente do partido.
Olhando para o ar assarapantado do líder parlamentar do CDS que, na imagem, surge ao lado de Assunção Cristas até parece que não.
(imagem daqui)

terça-feira, 2 de maio de 2017

Peregrinando por terras do Ribatejo (1)

Até Tomar
Dois registos fotográficos de outros tantos monumentos nacionais:

Em primeiro plano, vista parcial da Igreja de S. João Baptista.

Convento de Cristo. Na imagem, vista parcial do jardim e o exterior da Charola.

"Caça ao homem"

Se não é, não lhe falta parecença. Ora vejam:

«De "especial complexidade", dizem. Bom, como discordar? Provar que a terra é plana é de especial complexidade. Provar a quadratura do círculo coloca igualmente um problema de especial complexidade. As provas no Processo Marquês são também de especial complexidade , pela razão de que é impossível provar o que nunca aconteceu.O nosso código penal não se ocupa da especial complexidade deste tipo de verdade material : será a terra plana? Mas não se esqueceu de prever a possibilidade de haver especial complexidade em inquérito criminal - quando ela é invocada os prazos duplicam. Todavia, mesmo com especial complexidade, a lei fixa um prazo, a que chamou máximo, de inquérito (artigo 276 do Código de Processo Penal). Este prazo tem, em qualquer circunstância e englobando já todas as especiais complexidades possíveis, um limite superior de 18 meses. O Processo Marquês dura há 45 meses e acaba de ser adiado pela sexta vez.

Prazos. A primeira pergunta a fazer talvez seja esta: em que área da justiça precisamos de mais segurança e de mais certeza jurídica? Julgo que não é preciso um excessivo espírito liberal para responder que é aquela em que está em causa a liberdade - a área penal. Aí, entre o indivíduo e o Estado, só há um poderoso: o que tem o monopólio do uso da força, o que pode prender e deter... e, sei-o agora, também insultar. Parece, então, legítimo perguntar por que que razão é esta a única área da justiça em que se pretende que os prazos - garantias da decência do Estado e dos direitos individuais - sejam, como dizem, indicativos? E, já agora, se são indicativos, eles indicam exatamente o quê? Mistério. Na verdade, nada indicam e nada valem porque a verdadeira intenção é justamente a de poder conduzir o inquérito sem respeitar prazo nenhum.

Prazos, de novo. Mas, afinal, porque é que estamos a discutir prazos? A resposta sabem-na todos, porque tudo isto tem decorrido à frente de todos: só estamos a discutir prazos porque o Ministério Público deteve, prendeu, promoveu ele próprio uma formidável campanha de difamação e, ao fim de quatro anos de inquérito, não apresentou nem as provas nem a acusação. Neste processo, o Ministério Público exibiu despudoradamente uma das especialidades que vem cultivando há décadas: promover covardemente - e criminosamente - campanhas de difamação nos jornais, por forma a transformar a presunção de inocência em presunção pública de culpabilidade. Não haver prazo nenhum ajuda a tal tarefa.

Prazos, ainda. Na verdade, nada disto tem que ver com nenhuma teoria da justiça ou com qualquer procura de arbitragem entre valores jurídicos de verdade material ou de direitos individuais - isto tem apenas que ver com poder. O poder do Ministério Público. Ao pretender que no inquérito penal não haja, na prática, prazos obrigatórios, o Ministério Público não está a interpretar a lei mas a mudar a lei. Acontece que essa é uma competência da Assembleia da República, não é dos senhores procuradores: esse poder não é legítimo, é usurpado.

Ouço por aí dois argumentos, ambos tão deploráveis, que não resisto a dizer, com a brevidade possível, alguma coisa sobre eles. O primeiro corre no essencial assim: bom, agora é que isto tem de ir até ao fim. Se a questão é a corrupção e a política, então tudo deve ser válido em nome desse combate, incluindo insultar, denegrir e humilhar quem está inocente. O que isto quer dizer é basicamente que, se violaram os meus direitos individuais, paciência, agora é preciso violá-los ainda um pouco mais. No fundo, a mesma e velha ideia de que os fins justificam os meios, como se a corrupção dos meios não corrompesse também os fins. O código penal que o Ministério Público está a usar no Processo Marquês não é o da República Portuguesa, mas o "código penal do inimigo." A sua lógica não é a do Estado de direito, mas a do conflito radical .

Outros dizem, piedosamente, que se deve respeitar a presunção de inocência mas que nem por isso deixam de ter as suas convicções. A presunção de inocência, portanto, como formalidade jurídica. Mas ela é muito mais do que isso, ela constitui um princípio moral estruturante das relações sociais numa comunidade decente. Os que assim procedem sabem bem o que estão a fazer e quem estão a ajudar - quem quer condenar sem julgamento e, já agora, condenar negando sequer o elementar direito a conhecer a acusação. Para isso, a inexistência de prazos é também muito conveniente.

O Processo Marquês nunca foi uma investigação a um crime, mas a perseguição a um alvo. Ele tem 45 meses de inquérito e, dizem, 32 funcionários a trabalhar, entre polícias e procuradores. Há muito que deixou de ser um inquérito para se transformar num departamento estatal de caça ao homem.
(José Sócrates - "O direito penal do inimigo". Daqui)