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quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Dobrado o Cabo das Tormentas

Subscrevo, como não poderia deixar de ser, todas as razões de queixa tão brilhantemente expressas neste texto, cuja leitura se recomenda vivamente, a que o seu autor o Embaixador Francisco Seixas da Costa deu o título "Não lhes perdoo!")
Eu também tenho muita dificuldade em perdoar tanta mentira, tanta insensibilidade social; tanta incompetência e tanta arrogância, mas tenho de reconhecer que a minha alegria pela formação do Governo de gente decente liderado por António Costa não seria a mesma e tão esfuziante se não tivéssemos passado pela dolorosa experiência do mais abominável dos governos pós 25 de Abril, o governo da direita (PSD/CDS) ou, dito de outro modo,  o governo Passos/Portas apadrinhado por Cavaco. 
Apesar dos muitos escolhos que tiveram de ultrapassar, os partidos da esquerda (PS, BE, PCP e PEV) foram capazes de dobrar o Cabo das Tormentas. Se assim foi, justifica-se inteiramente que olhemos para o futuro com esperança. 
Disse.

sexta-feira, 20 de março de 2015

"Esquerda caviar, direita chouriço"

«(...)
Para a direita chouriço tudo o que esteja para lá do limiar da miséria é viver acima das possibilidades. Não pode ser. Há por isso que empobrecer, cortar e impor respeitinho.

Não se pode permitir que um Varoufakis qualquer venha dizer que não é assim, que as ideias políticas e sociais nada têm a ver com a riqueza de cada um. Percebe-se. É que a direita chouriço também vive na miséria. Desde logo mental.

Este preconceito, como tantos, tem pouco a ver com a realidade. A esquerda organiza-se para defender os mais humildes e com menos poder, os descamisados, por imperativo de um pensamento e de uma visão elaborada do mundo. Mais liberdade, mais progresso, em resumo. Na origem das ideias de esquerda estão normalmente homens e mulheres com acesso à educação, algum bem-estar ou mesmo riqueza. Karl Marx nasceu numa família abastada de Trier. O seu parceiro de luta, Friedrich Engels, com quem escreveu o Manifesto Comunista, era rico por via da importante indústria têxtil familiar. O anarquista Mikhail Bakunin tinha ascendência nobre. (...) Álvaro Cunhal, para citar um comunista português, nasceu numa família da alta burguesia. Mário Soares sempre foi rico. Francisco Louçã nunca foi pobre.

São alguns exemplos, aleatórios, mas que demonstram que na origem das ideias de esquerda estão contextos de algum bem-estar que no mínimo permitem estudar e refletir. Daí que a esquerda insista na importância da educação e a direita chouriço a despreze e a reduza a uma mera fábrica de produção de mão-de-obra precária.

A miséria não é favorável ao pensamento. (...) Normalmente [os mais pobres] engrossam as hostes mais torpes da direita chouriço.

Pelo contrário, aqueles que desfruam de alguma riqueza têm condições para lutar pela solução dos desequilíbrios e injustiças sociais. Só mesmo a direita chouriço acha que a pobreza é o destino da humanidade. Qualquer sociedade que se preze deve ambicionar o enriquecimento coletivo, seja sob a forma de oportunidades para todos, seja de bem-estar e felicidade geral. A riqueza não é uma mera acumulação de dinheiro. A riqueza é aquilo que permite à espécie humana evoluir, desde o plano individual ao coletivo. Só a riqueza permite realizar as mais arrojadas ambições humanas. Curar todas as doenças, viver para sempre, conquistar o espaço, imaginar o impossível. Já para não falar de garantir condições de vida digna para todos. Por isso, da mesma forma que ser pobre não é sinónimo de ser de esquerda, ser rico não é sinónimo de ser de direita. Aliás, a esquerda é em si mesmo uma importante riqueza das nossas sociedades. Porque quer mudar o que está mal e se bate pelo bem coletivo. (...)»
(Leonel Moura. Na íntegra: aqui)

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Em desespero de causa

Para ser franco, também teria preferido que António Costa (AC) não tivesse proferido perante a comunidade chinesa, a propósito da celebração do ano novo chinês, a declaração posta a circular pelo eurodeputado Nuno Melo (um melro com frequência armado em esperto).
Digo que teria preferido, não pelo facto de tal declaração ser politicamente infeliz do ponto de vista dos interesses do partido que lidera, mas apenas e tão só porque, dada a sua aparente ambiguidade, permitiu às hostes da direita (e às da chamada "esquerda da esquerda" que, pelos vistos, fazem questão de continuar a seguir o padrão historicamente comprovado de se aliarem à direita contra a esquerda moderada) o seu aproveitamento para dizer que António Costa (AC) teria implictamente reconhecido que a situação do país era, actualmente, melhor do que a verificada em 2011.
Como é evidente, AC, em momento algum, afirma que a situação do país está melhor e, em boa verdade, uma tal declaração não só colidiria com a realidade dos factos, como não faria sentido na boca de quem, não uma, mas repetidas vezes, tem afirmado que a situação do país é, hoje, em quase todos os aspectos, bem pior do que a existente antes do governo desta gentinha ter entrado em funções. 
AC, disse, e sem reparo da minha parte, que a situação do país é "bastante diferente daquela em que estava há quatro anos atrás". Sem reparo da minha parte, insisto, porque a afirmação é inteiramente verdadeira, uma vez que o país  não está hoje com a corda na garganta, no que diz respeito ao acesso aos mercados financeiros e à elevada taxa de juros, taxa que tem, efectivamente, vindo a baixar sucessivamente, devido, não à acção do governo passista/portista/cavaquista que, em tal matéria, não meteu, nem prego nem estopa, mas apenas e tão só devido às medidas que, entretanto, o BCE tem vindo a tomar, ponto que não admite sequer contestação. Na verdade, se atentarmos no facto de que a dívida pública portuguesa tem vindo a aumentar sucessivamente desde que este governo (de aldrabões) entrou em funções, torna-se óbvio que o risco de crédito não só não teria diminuído como teria aumentado, se não existissem os "escudos" criados pelo BCE. Temos, aliás, neste caso, a contraprova. De facto, por alguma razão a notação atribuída pelas principais companhias de rating, continuam a remeter a divida pública portuguesa para a categoria de "lixo", o que significa que, se os "escudos" instalados pelo BCE  forem ao chão, ou se os mercados chegarem à conclusão que tais "escudos" são inoperacionais, as dificuldades de acesso aos mercados financeiros voltarão a galope.
Dizer-se que a situação do país é diferente não significa, pois, que seja melhor. E, de facto, qualquer que seja o ângulo de análise, com a ressalva antes enunciada, todos os indicadores apontam para uma deterioração da situação do país. Os números fornecidos pelas entidades oficiais, (INE e BdP) não deixam margem para dúvidas: a dívida pública, em vez  de baixar, como era suposto, aumentou de 94% em 2010, para 128,7% em 2015;  o desemprego quase duplicou, afectando mais de um milhão de trabalhadores; o PIB é actualmente inferior em pelo menos 5% em relação ao final de 2010, o que significa que a riqueza produzida, em vez de aumentar, como era desejável, tem vindo a decrescer; a emigração, em particular de  pessoas jovens e altamente qualificadas, aumentou exponencialmente, atingindo números alarmantes, pois contam-se já por várias centenas de milhar as pessoas forçadas a sair do país à procura de meios de subsistência no estrangeiro, realidade sem paralelo desde os tempos do salazarismo-caetanismo; a pobreza é hoje uma realidade bem mais dolorosa do que há quatro anos; a desigualdade aumentou (os ricos estão mais ricos e os pobres mais pobres); a classe média foi severamente atacada, com uma boa parte a ser lançada na pobreza.
Perante este factos que demonstram à saciedade que o resultado da acção deste execrável governo se traduziu num verdadeiro desastre nacional, não admira que a direita, em desespero de causa, use em seu proveito, qualquer pretexto real ou inventado, como neste caso, e lance mão de todos os meios para se defender. A direita usa, pois, este e outros expedientes em verdadeiro estado de necessidade, o que se compreende.
Que a "esquerda da esquerda" siga pela mesma via, já me custa um tanto a compreender. Se calhar, é assim, porque a tradição, neste caso, ainda é o que era. Será?

domingo, 9 de setembro de 2012

Pela salvação dum país

Apesar das medidas de austeridade já impostas por Passos Coelho se terem revelado um fracasso completo, porque, para além de terem provocado um nível de desemprego sem paralelo, de estarem na base do agravamento da recessão e de nem sequer terem conseguido que o governo alcançasse o objectivo da consolidação das contas públicas, Passos Coelho não só acaba de anunciar mais do mesmo como se prepara para agravar ainda mais as medidas de austeridade, investindo, sempre e só, contra os trabalhadores por conta de outrem e contra os reformados e pensionistas.
Conhecidos os resultados desastrosos do 1º ano completo de exercício deste governo de direita não é difícil prever, com o agravamento da receita até agora seguida, o que o ano de 2013 nos irá trazer: mais desemprego, mais recessão e, no final, a desagregação dum país.
Não obstante estarmos perante uma perspectiva tão negra, aparentemente a população violentada (a grande maioria) não reage  e permanece apática  como se o futuro dos portugueses não estivesse em causa.
Em grande parte, suponho, tamanha apatia deve-se ao facto de não ser visível uma alternativa à esquerda, capaz de criar um novo ânimo na população. Parece, por isso, imperioso e urgente que se estabeleça uma plataforma mínima de entendimento entre os partidos da esquerda com representação parlamentar. Naturalmente que terá de haver cedências de parte a parte, e grandes, pois as diferenças entre eles não são de pequena monta, mas a hora é de salvação nacional. Quem não alinhar, torna-se cúmplice da direita e da destruição dum país.
Não há outra volta a dar.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

"Nem gregos, nem romanos"

O desenvolvimento não se mede apenas em termos de percentagem do PIB. O tratamento dado por um qualquer país ao "outro" (que não é mais que um "igual") é um bom indicador de progresso civilizacional e de humanidade. A atribuição a Portugal, por parte das Nações Unidas, do primeiro lugar na classificação dos países mais "generosos" em políticas de integração dos imigrantes, é um facto que honra o país e o governo que tomou as medidas que justificaram a atribuição desta distinção. Ser de esquerda também é isto.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

O Bloco de Esquerda e as visões de Manuel Alegre

Manuel Alegre, falando em Coimbra à margem de uma reunião do Conselho de Fundadores do Movimento Intervenção e Cidadania realçou o esforço de "convergência à esquerda" do BE.
É caso para perguntar: Por onde anda o esforço de convergência do BE quando Louçã afirma: «A nossa disputa é com os 45 por cento do Partido Socialista»?
Sejamos honestos: A única convergência que o Bloco de Esquerda aceita é com o próprio Manuel Alegre, se este se demitir do PS e por essa forma arrastar consigo uma parte do eleitorado que vota socialista.
A estratégia do BE é, aliás, claríssima e repetidamente confirmada: Dê por onde der, o importante é impedir a maioria do PS, nas próximas eleições. Para atingir tal objectivo, o Bloco até se aliaria com o diabo. Só não vê quem não quer. É verdade que também há quem tenha visões. Pode ser o caso de Manuel Alegre e, se assim for, nem a ida ao oftalmologista resolve o problema.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Ah sim ? Então com quem ?


A consciência de Sócrates e a convergência à esquerda, dois assuntos bem interessantes e que, a justo título foram objecto da atenção de Jerónimo de Sousa, pessoa especialmente capacitada para tratar de um e de outro.
Para se pronunciar sobre o primeiro, o líder do PCP deve ter dotes que escapam ao comum dos mortais. Há que felicitá-lo por esse facto, a menos que a visão da consciência do "outro" seja o reflexo da percepção da própria. Esta é, aliás, a hipótese mais provável porque até à data ainda não se tinha dado conta de que tal fenómeno fosse possível.
Sobre questões de consciência, digo eu, cada um trata da sua e já não é pouco, pelo menos para quem a tem.
Quanto ao segundo, e uma vez que afasta, desde logo, da convergência a "ala esquerda" do PS e o BE, só posso perguntar: o senhor Jerónimo de Sousa quer convergir com quem ?
Concluindo: Há alturas em que o melhor é, mesmo, ficar calado!
( A imagem foi tirada daqui)