segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

E que tal "um banho de realidade" nas eleições europeias*?

"Olli Rehn falou mesmo numa "derrota das Cassandras", que andaram três anos a criticar a via austeritária, aparentemente sem razão:

Os défices externos da periferia ou estão a cair ou já se transformaram em excedentes, os défices públicos idem, o desemprego deixou de subir de forma galopante e, cereja em cima do bolo, a Europa saiu da recessão e os juros estão em queda.

Não será o melhor de todos os mundos, mas, tendo em conta o calvário dos últimos tempos, chegou a hora de celebrar e cantar vitória.

Confesso que não percebo o entusiasmo. Os EUA só tiveram recessão de 2009 e o desemprego, embora a níveis historicamente elevados, tem vindo sempre a cair. Também não consta que os EUA, ao contrário da Europa, tenham terraplanado a economia e a sociedade dos seus Estados mais vulneráveis. Três anos de destruição de emprego, de recessão, de emigração (na prática) forçada e de corte de rendimentos permitiram à Europa ter um desemprego 50% superior ao americano e uma taxa de crescimento do PIB que é, na melhor das hipóteses, metade da americana. Se isto é um sucesso, não consigo imaginar o que possa ser um fracasso.

Economicamente a Europa está de rastos. Algo que Olli Rehn e companhia nunca dizem é que a economia europeia só saiu da recessão no ano em que a Comissão e o Conselho permitiram uma suavização da austeridade, flexibilizando as metas dos défices. Não se percebe em que medida é que uma saída da recessão que assenta na travagem da austeridade pode constituir uma prova do sucesso dessa mesma austeridade, que, mais ou menos suave, está institucionalizada e é para manter. 

Em termos financeiros a coisa não está muito melhor: a dívida pública cresceu 50% e os juros só começaram a baixar depois da intervenção do BCE - e não por via de uma austeridade geradora de confiança - e mantêm-se baixos porque não há oportunidades de investimento real e porque a Europa aproxima-se perigosamente da deflação económica. O principal objetivo da união bancária - o de separar os bancos dos soberanos - não foi atingido, nem se vislumbra que alguma vez venha a ser. 

Mas o pior é mesmo o ambiente político. Os cidadãos europeus, diz-nos o Eurobarómetro, olham para a Europa com desconfiança crescente: os dos países devedores deixaram de ver a Europa como um espaço de solidariedade, coesão e desenvolvimento; os dos países credores cada vez menos acreditam na bondade de emprestar dinheiro para que países mais pobres vergastem a sua economia e a vida dos seus cidadãos. Entre Estados membros a situação não é melhor, porque, desde a viragem austeritária de maio de 2010, a União deixou de ser um projeto de iguais para institucionalizar a desigualdade entre devedores e credores, o que, num certo sentido, é a negação do projeto europeu.

A atual euforia tem uma única explicação: eleições europeias. Não é seguramente criando uma bolha discursiva, sem qualquer correspondência com a realidade e com a experiência dos cidadãos europeus, que se inverte e corrige a destruição dos últimos anos. Em Maio, no dia a seguir as eleições, Olli Rehn e companhia podem muito bem levar um banho de realidade. Pode ser que acordem."

(* Nem imaginam o bem que lhes fazia) 

1 comentário:

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Olá Francisco
Até 25 de Maio vão encher-nos de promessas de recuperação e enganar muito papalvo. O pior vai ser o dia seguinte...
Abraço