segunda-feira, 14 de novembro de 2011

A grande cabazada

Desde que o actual "árbitro" tomou conta do apito, o factor trabalho ainda não averbou um único ponto sequer no confronto com o factor capital.
Na sobretaxa extraordinária inventada, sob o pretexto do "desvio colossal" = colossal embuste, a cobrar este ano, com o corte de 50% do subsídio de Natal, toda a factura incide sobre os rendimentos do trabalho (Capital: 1- Trabalho: 0);
Para aumentar a "produtividade" da economia:
- aumenta-se o horário de trabalho em meia hora por dia, sem qualquer contrapartida por parte dos empregadores (Capital: 2 - Trabalho: 0 );
- eliminam-se quatro feriados, aumentando em igual número os dias de trabalho à borla (Capital: 3 - Trabalho: 0);
- diminui-se o montante e o período de duração do subsídio de desemprego (Capital: 4 - Trabalho 0);
A inflação aumenta (já é superior a 3%), mas o salário mínimo não senhor, porque, diz este "tipinho" que   "em temos relativos e em relação ao salário médio, o salário mínimo [€485]  não é baixo". Se não é, ele que experimente viver com ele (Capital: 5 - Trabalho: 0);


São só alguns exemplos, mas como o "árbitro" nem sequer tem a preocupação de disfarçar a sua parcialidade, como se pode ver por este despacho "do secretário de Estado dos Assuntos Fiscais (SEAF), Paulo Núncio, sobre a tributação dos dividendos dos grupos económicos [que] deu mais vantagens às empresas do que apontava o parecer sobre o mesmo assunto do Centro de Estudos Fiscais (CEF) do Ministério das Finanças", é evidente que a cabazada não vai ficar por aqui.

A (pouca) lógica da Associação Sindical dos Juízes Portugueses

A Associação Sindical dos Juízes Portugueses (ASJP) emitiu um parecer onde defende (e bem) que são  "ilegais e inconstitucionais" a redução de remunerações e a suspensão do pagamento dos subsídios de férias e de Natal previstas na proposta na Lei do Orçamento do Estado  para 2012, alegando (bem, novamente) que aquelas reduções de remunerações constituem um verdadeiro confisco que só pode ser feito pela via do imposto, da expropriação ou da nacionalização, para além de se tratar de medidas violadoras do princípio da igualdade. 
Mas, por outro lado, manifesta "frontal oposição a uma alteração ao estatuto da jubilação, actualmente consagrado, que é no sentido de a pensão do juiz jubilado dever ser calculada em função de todas as remunerações sobre que incidiu o desconto, devendo tal pensão ser igual à remuneração do juiz no activo de categoria idêntica, descontadas as quotas para a Caixa Geral de Aposentações", tomando, nesta passagem, uma posição que claramente contradiz o alegado princípio da igualdade. De facto, como justificar, em termos de justiça e de equidade, o direito de um juiz jubilado receber uma pensão igual à do juiz no activo, quando todos os demais funcionários e agentes do Estado recebem a pensão fixada no momento da aposentação?
É caso para dizer que, para a ASJP, o princípio da igualdade não sofre qualquer entorse, se os juízes forem mais iguais do que os outros, posição que, evidentemente, só enfraquece o parecer no ponto em que lhe assiste razão.
Estranho é que a ASJP não se dê conta disso.

A palavra aos "artistas"

"2012 irá certamente marcar o ano de fim da crise" (o "Álvaro" no Parlamento, no mesmo dia em que ficámos a saber que "economia portuguesa se contraiu mais 0,4% no terceiro trimestre face ao segundo, o que levou a uma contracção em 1,7% do PIB face ao mesmo período de 2010", sendo já conhecidas as  previsões do Governo que apontam para uma contracção do PIB, 2012, da ordem dos 2,8%, mesmo assim inferior à prevista pela Comissão Europeia que adianta uma quebra de 3%.)
"Portugal, como os EUA, é uma terra de oportunidades" (Cavaco Silva durante a sua digressão por terras do Tio SAM, onde não deve ter chegado o eco das palavras de Passos Coelho a garantir que com o actual governo que ele ajudou a entronizar, a nossa única "chance" é empobrecer.)
E ninguém se ri?

domingo, 13 de novembro de 2011

Onde é que passarão a ter lugar as reuniões do Conselho de Ministros?

Manifestamente, o "post" anterior  ficou incompleto, pois falta-lhe uma última observação, sob a forma duma dupla interrogação: onde é que passarão a ter lugar as reuniões do Conselho de Ministros? Será numa arena, ou será antes num anfiteatro?

(Ilustração: fotografia do A. do Anfiteatro romano em El Jem - Tunísia)
(clicando na imagem, amplia)

O homem-de-palha

A cena é relatada pelo advogado Magalhães e Silva na sua crónica semanal no CM, nos seguintes termos: "Trata-se de intervenção do ministro da Economia, que estaria a submeter ao colectivo medidas de intervenção na economia. Terminada a exposição, o ministro Vítor Gaspar afirmou seca e cortantemente: "Não há dinheiro". Mas Santos Pereira insistiu; e então o ministro das Finanças retorquiu-lhe apenas: "Qual das três palavras é que não percebeu?". 
E conclui Magalhães e Silva:
"É, efectivamente, um bom número, mas que revela três coisas inquietantes: a pesporrência de Vítor Gaspar, a falta de respeito dele para com o PM e a incapacidade deste para meter na ordem o seu ministro das Finanças."

Diria eu, com a devida vénia, que a cena talvez mereça outro tipo de considerações, a começar por esta: a atitude grosseira de Vítor Gaspar, nas barbas de Passos Coelho, sem  que este tenha sequer franzido os olhos, mostra que Gaspar é quem manda. Mais uma razão, a acrescentar a esta, para que os mercados financeiros não tenham necessidade de se preocupar com Portugal, pois também têm, por cá, um tecnocrata dos seus a mandar. A esta luz, Passos Coelho não passa de um "homem-de-palha" que serve de cobertura a Gaspar, o que o não livra, no entanto, da acusação de sadismo que lhe imputo no "post" "linkado". Por alguma razão, vejo-a agora, Gaspar, precede na vice-presidência do Conselho de Ministros, o líder do CDS, parceiro da coligação que nos desgoverna. A esta luz,  o lugar secundário ocupado por Paulo Portas faz também todo o sentido.
Uma segunda conclusão me parece evidente: o "Álvaro" pode comportar-se nas idas ao parlamento como um grizzly, mas, ao não reagir a uma tal desconsideração, em plena reunião do Conselho de Ministros, revela também que tem um estômago capaz de digerir pedras.
(Imagem daqui)

"Chamem a polícia"

"Noticiou a imprensa que a PJ resgatou quatro portugueses sujeitos a trabalho escravo em Espanha, tendo detido o "gang" suspeito da autoria do crime.
Não se afigura, no entanto, provável que alguma Polícia venha um dia a resgatar os milhões de portugueses a quem o Governo pretende impor meia hora diária de trabalho não remunerado. É que tal medida não constitui tão só uma redução ilegal, por vias travessas, do salário/hora de milhões de trabalhadores, mas verdadeiro trabalho escravo, de acordo com a Convenção n.º 29 da OIT, de 1930, que define trabalho forçado como "todo o trabalho ou serviço exigido de uma pessoa sob a ameaça de sanção e para o qual não se tenha oferecido espontaneamente".
Ora não só a meia hora diária de trabalho será obrigatória, implicando, pois, o seu incumprimento uma sanção, "maxime" o despedimento, como não consta que algum dos visados para ela "se tenha oferecido espontaneamente". Além disso não será remunerada, o que particulariza (as grilhetas caíram em desuso) o trabalho forçado como trabalho escravo e rebaixa a pessoa a mera coisa de que é possível, como o Governo fez, livremente pôr e dispor.
Se, em Portugal, as leis (e a moral) fossem para todos, incluindo o Governo - e não é, como, com a cumplicidade do Tribunal Constitucional, se viu no confisco dos subsídios de Natal e férias -, a PJ já estaria, como no caso ontem noticiado, a bater à porta do ministro Álvaro."

sábado, 12 de novembro de 2011

Um sádico

Quando numerosos e conceituados economistas nacionais e internacionais consideram que a ultrapassagem da crise das dívidas soberanas e a salvação do euro passa pela atribuição ao BCE de poderes para se assumir como credor de última instância, tese que até já é defendida por Cavaco Silva, o primeiro-ministro de Portugal (ou será da Alemanha?) entende, muito pelo contrário, que se o BCE tivesse por função resolver o problema dos países indisciplinados, imprimindo mais euros, pura e simplesmente esse seria um péssimo sinal”. 
Numa altura em que os mercados financeiros estão a forçar a substituição de governantes eleitos, por tecnocratas, como já aconteceu na Grécia com Papademos e está em vias de  se verificar na Itália, com a demissão, hoje anunciada, de Berlusconi, temos de convir, perante as citadas declarações de Passos Coelho, que em Portugal os mercados financeiros não necessitam de se preocupar. É verdade que não têm à frente do governo português um tecnocrata, pois Passos Coelho nem isso é, mas não estão pior servidos. Pelo contrário: não dispõem dum tecnocrata, mas têm alguém capaz de desempenhar muito melhor o papel dos tecnocratas: um sádico que considera que, havendo países indisciplinados (e sê-lo-ão?), o único remédio é punir o povo, impondo-lhe sacrifícios usque ad absurdum. A senhora Merkel não diria melhor.
(publicado também aqui)

Coisas de espantar!

Face a este despacho, das duas, uma: ou secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Paulo de Faria Lince Núncio, anda completamente a leste das decisões tomadas pelo governo e pelo ministério de que faz parte, ou então existe uma lei para filhos (ou boys, se preferirem) e outra para enteados. Num caso ou noutro, certo é que estamos perante coisas de espantar!
(imagem obtida aqui)

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Como sopa no mel

A "abstenção violenta" em relação ao Orçamento de Estado por parte do PS é um facto consumado e pouco mais há a dizer em relação a essa posição para além do que já foi dito: aquela expressão é uma contradição nos termos e, como tal, tem sido, justamente, objecto de irrisão pública; a decisão é absolutamente contraditória com a leitura que o próprio António José Seguro (AJS) fez do Orçamento do qual disse "cobras e lagartos". Logo, incompreensível, pese embora o alegado "interesse nacional" que nada justifica.
Registe-se, no entanto, a "coragem" dos 13 "valentes"* da bancada do PS que ousaram dizer a AJS e ao país que o seu voto de abstenção ficou a dever-se, exclusivamente, à imposição da disciplina partidária. De facto, é bom saber, que "há sempre alguém que resiste". 
A abstenção da bancada do PS na votação da Lei do Orçamento é relativamente irrelevante se considerada apenas do ponto de vista da sua aprovação pela Assembleia da República, visto que aquela estava garantida pela maioria (PSD/CDS) apoiante do governo. Está, porém, muito longe de ser inconsequente e este é o ponto a que quero chegar.
De facto, se as criticas de Cavaco Silva dirigidas publicamente contra o Orçamento, denunciando a sua iniquidade na repartição dos sacrifícios, poderiam ter servido para justificar uma inflexão no sentido do voto por parte do PS, como foi largamente sublinhado, e bem, não é menos verdade que a abstenção do PS tem a grave consequência de tornar altamente improvável que Cavaco Silva venha a requerer ao Tribunal Constitucional a apreciação preventiva da constitucionalidade do diploma: se Cavaco Silva, apesar das suas críticas ao Orçamento, já não tinha tal intenção, como presumo e é o mais provável, a abstenção do PS cai-lhe como sopa no mel; se, pelo contrário, estava disposto a requerê-la, é evidente que, com a abstenção do PS, ficou sem espaço de manobra para o efeito.
Tudo, por obra e graça de António José Seguro. Quem se fica a rir é a direita e o seu governo que, pelo que tenho visto, nem sequer agradecem.

(*Para que conste, aqui ficam os seus nomes: Renato Sampaio, Filipe Neto Brandão, André Figueiredo, Isabel Moreira, José Lello, Sérgio Sousa Pinto, Glória Araújo, Fernando Serrasqueiro, Isabel Santos, Ana Paula Vitorino, Idália Serrão, Rui Santos e Paulo Campos)
(publicado também aqui)

Uma grande besta

"Álvaro Santos Pereira, um 'grizlly' no Parlamento" é o título duma peça assinada por Nuno Sá Lourenço relativa à actuação do ministro da Economia, dos Transportes e do diabo a quatro, durante a discussão na generalidade do Orçamento de Estado, na Assembleia da República.
A expressão "grizlly" no contexto da referida peça só pode ser lida como uma forma abreviada de "grizlly-bear" que, em tradução literal para vernáculo em português, significa urso-pardo, animal que é, como se pode ver na imagem que ilustra este texto, uma besta grande, ou, como prefiro, uma grande besta.
Durante as várias audições do referido ministro em diversas comissões no Parlamento, já tinha ficado com a ideia de que o "Álvaro", para além de uma anedota como ministro, era também, de facto, um "grizlly". A sua intervenção, no plenário da AR, confirma-o.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Vítor (Leite) Gaspar ?

"O ministro das Finanças lançou uma forte acusação ao PCP e ao BE, apontando-os como promotores de acções que pretendem resultar no fracasso do programa de resgate financeiro."
É deste modo  que o "Público" interpreta estas palavras do ministro Vítor Gaspar: Noto, com desgosto, que aqueles que referem a inevitabilidade do fracasso do programa [de assistência financeira] são aqueles que mais dividem os portugueses e favorecem acções e atitudes para um tal desfecho”.
A mim, mais me parece estar a ouvir o eco de palavras de Manuela Ferreira Leite falando de suspensão da democracia. Será que estou a ouvir bem? 

Um mau talhante

É escusado falar sobre a iniquidade do Orçamento do Estado proposto pelo actual governo que hoje começou a ser discutido na Assembleia da República tão evidente ela é, ao cortar forte e feio nas prestações sociais e nas áreas da Saúde e da Educação; ao fazer recair a maior fatia dos sacrifícios sobre os funcionários públicos e sobre os pensionistas  e ao isentar deles os rendimentos de capital. E é-o a tal ponto que até o presidente da República e algumas vozes, com capacidade de independência, dentro do PSD, como Rui Rio, se levantaram para a denunciar.
Hoje, porém, é também claro, face aos números apresentados pelo PS e não contraditados pelo Governo, que os cortes impostos por este Orçamento vão muito além do exigido para cumprimento das metas de consolidação orçamental decorrentes do memorando celebrado com a troyka.
O governo, no entanto, persiste na sua posição, mesmo sabendo que as medidas do Orçamento, indo além do justificado pelos números, vão ter como consequência uma degradação da economia, para lá das previsões governamentais. A própria Comissão Europeia acaba de anunciar que prevê uma recessão de 3% em Portugal, no próximo ano, valor que é superior ao previsto no Orçamento. 
E persiste, porque essa é a sua opção política centrada na redução do Estado social ao Estado mínimo, opção que o governo, no entanto, não assume, seguindo, aliás, a sua prática habitual de alijar responsabilidades, escudando-se, desta vez, com o pretexto da imprevisibilidade do actual contexto da crise ainda ontem utilizado por Passos Coelho.
Como é óbvio, o pretexto alegado por Coelho não passa duma falácia, pois não explica minimamente a injusta repartição dos sacrifícios, nem a profundidade dos cortes se justifica perante os dados divulgados e, repito, não contraditados pelo governo passista.
Perante tudo isto, embora não saiba onde é que Passos Coelho aprendeu o ofício, não me parece difícil concluir que ele é um mau talhante: cortando apenas numa parte do tecido (social) e indo os golpes mais fundo do que o necessário,  é mais que certo que, depois deste exercício, a peça vai sair danificada.
(publicado também aqui)

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Será que não há petróleo no Beato ?


 Hoje não me apetece falar, nem da dívida externa nem da pública, menos ainda da consolidação orçamental e muito menos ainda de cortes e mais cortes que é a especialidade deste governo.
Não, hoje disponho-me a chamar a atenção para os milhões que vêm aí a caminho, pelo menos a crer em recentes notícias postas a correr sobre a exploração de gás e petróleo no Algarve; sobre as minas de Moncorvo, (onde, meus amigos, existem reservas de ferro avaliadas em 58,2 mil milhões de euros e onde o grupo anglo-australiano Rio Tinto pretende (?) investir mil milhões de euros); sobre a exploração de ouro no Alentejo e o mais que adiante se verá, conforme promessa do ministro "Álvaro".
Com a economia a definhar, mesmo sendo certo que algumas destas "novidades" já têm "barbas"; que não sabe quais os investimentos que se irão concretizar e menos ainda quais os benefícios que o país vai receber dos eventuais futuros investimentos, sempre são boas notícias e o ministro "Álvaro" faz muito bem em pô-las a circular. Que mais não seja, é de louvar a sua pretensão em minorar os efeitos da depressão em que anda o país, fruto das contínuas notícias sobre o mau estado da economia portuguesa que o ministro da dita cuja se mostra incapaz de dinamizar. É que, reduzindo os efeitos da depressão, sempre se pode poupar alguma coisa em ansiolíticos e, num tempo de tantos cortes, toda a poupança é ganho.
Bem haja, senhor ministro. "Super-ministro", queria eu dizer.
(imagem daqui)  

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Grandes lesmas!


Alberto João Jardim não podia encontrar melhor maneira de insultar os funcionários públicos da Madeira do que dar-lhes três horas (!) para se sentarem no sofá para o verem, pela televisão, pela enésima vez, a tomar posse como soba da Região.
De facto, se o seu despacho concedendo aos funcionários tolerância de ponto a partir das 14 horas para  assistirem à posse do governo regional, marcada para as 17horas, não é um insulto, não estou a ver bem que outra coisa poderá ser.
A não ser que ele julgue que estamos na época do Carnaval e esta seja mais uma forma de gozar com quem lhe paga o salário e a pensão. E, se calhar, é.
(Publicado também aqui)

Saberá o "Álvaro" às quantas anda?

- "Temos de minimizar o impacto" [da greve no sector dos transportes] diz o "Álvaro". 
(E muito bem, digo eu, pois, na medida do possível, há que facilitar a vida de quem necessita de recorrer aos transportes públicos.)
- Mas como? 
"a muito breve trecho saberão" (é, de novo, o "Álvaro", em resposta típica de quem não sabe minimamente às quantas anda.)

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Secretário de Estado da Juventude já era

Digo alegadamente, porque parece impossível que um secretário de Estado da Juventude, em vez de se empenhar a defender e a promover a criação de postos de trabalho para a juventude deste país (a mais preparada de sempre, segundo se diz) esteja a empurrar os nossos jovens para os caminhos da emigração.
Mas a ser verdadeira a imputação das afirmações, o mais indicado para o tal Mestre era pô-lo a trabalhar numa agência de emigração. E já ia com sorte, pois não lhe faltava a "zona de conforto".
Secretário de Estado da Juventude é que já não era.

Morrer da cura

Manchete do "Público" na sua edição de hoje: Crise na construção ameaça levar desemprego para os 20 por cento. 
O tema, que é também abordado na edição on line, é mais amplamente desenvolvido nas páginas interiores (16 e 17) da edição impressa. 
Parece evidente que, caso se confirme aquela previsão, estaremos perante uma verdadeira catástrofe social de consequências imprevisíveis.
Não pondo em dúvida que a situação dramática a que se chegou na área em questão tem a ver, antes de mais, com opções que vêm do anterior, imputáveis em primeira mão ao próprio sector, eventualmente pouco ponderadas, até porque imprevisíveis numa altura em que ninguém suspeitava da crise económica mundial, com origem nos Estados Unidos, nem da crise das dívidas soberanas, desencadeada a partir da dívida grega, não é menos verdade que ela resulta também em grande medida das opções do actual governo. 
Ninguém discute, suponho, a necessidade de medidas de austeridade, mas é perfeitamente questionável a opção do governo em querer ser mais papista do que o Papa e em querer ir mais longe do que as exigências da troika.
O governo Passos, Gaspar, Portas & Cª, com o complexo do "bom aluno", indo além da "justa medida", arrisca-se a que o "doente" que não morreu da doença, venha, com o excesso de "remédios", a morrer da cura. 
A confirmarem-se algumas previsões que apontam para uma queda do produto da ordem dos 5% já no próximo ano, consequência, em primeira linha, da austeridade excessiva imposta pelos fundamentalistas da direita no poder e que leva, por arrasto, à diminuição do investimento público, à quebra do consumo e do investimento privado, bem pode o governo começar a preparar-se para um funeral a curto prazo.
(Publicado também aqui)

domingo, 6 de novembro de 2011

Procura-se oposição credível

António José Seguro é, quer se queira, quer não, uma inesgotável fonte de surpresas. Hoje saiu-se com esta: "A abstenção do PS vai ser violenta mas construtiva". 
Não fora a adversativa, a estas horas ainda estaria a tremer perante a "violência" da abstenção anunciada por Seguro!
A afirmação é a tal ponto ridícula que é caso para que alguém o aconselhe a que se abstenha de fazer afirmações como esta, porque não vejo como é que, trilhando este caminho, pode o PS chegar a parte alguma. 
Se, como Seguro diz (e é verdade) o Orçamento contém "medidas violentas e profundamente injustas" e se ele já decidiu que o PS se vai abster, obtenha ou não ganho de causa em relação às propostas que o PS vai apresentar, o melhor que tem a fazer é ficar calado, porque a retórica usada como justificação "Este não é o meu orçamento mas os interesses de Portugal estão primeiro" não só não tem ponta por onde se lhe pegue, como revela que Seguro está equivocado sobre os interesses do país. 
É que não estando em causa a aprovação do Orçamento, porque o executivo dispõe duma maioria no Parlamento que lhe garante a aprovação, o interesse do país passa por ter uma oposição activa e não amorfa à moda de Seguro. 
Uma abstenção condicionada à aceitação de algumas propostas que minorassem a injustiça deste orçamento, até poderia fazer algum sentido. Seguro, porém, é tão inábil que nem sequer soube aproveitar a inesperada ajuda de Cavaco que, por uma vez, ergueu a voz para chamar a atenção sobre a iniquidade deste orçamento.
Seguro é, seguramente, um caso perdido, o que, em boa verdade, não me preocupa. O que lamento  sinceramente é que, com ele a liderar o PS, o país nem sequer dispõe duma oposição credível. Isto, na altura em que mais falta fazia.

sábado, 5 de novembro de 2011

"Não passa pela cabeça de ninguém"

De regresso à base, depois dum intervalo para outros afazeres, respigo da entrevista dada por António José Seguro ao "Expresso" de hoje, a resposta a esta pergunta:
"Como encarou o anúncio do referendo grego?"
"Do ponto de vista interno grego, vi um primeiro-ministro a lutar pelo seu país, a fazer o possível e o impossível, e chega a Atenas e defronta-se com uma oposição irresponsável, além de deputados do seu partido e membros do Governo com posições diferentes da sua. O que está em causa não é a atitude dele, é a irresponsabilidade do líder da Nova Democracia que num momento destes quer é eleições! Os políticos pedem sacrifícios e depois não fazem o sacrifício de se entenderem? Não passa pela cabeça de ninguém."

Era aqui ao "Não passa pela cabeça de ninguém" que eu queria chegar, para dizer a António José Seguro que também não passa pela cabeça de ninguém que ele não se lembre que aquilo que ele censura aos dirigentes gregos da Nova Democracia foi exactamente o que fizeram os dirigentes dos partidos portugueses (PSD e CDS) que estão agora no poder e que, pelos vistos, não só não lhe merecem a menor censura, como beneficiam da sua simpatia.
Isto é tanto mais verdade quando é certo que a ele, Seguro e a mais uns quantos dirigentes do PS, passou-lhes pela cabeça abster-se na votação do Orçamento para 2012, quando, ao mesmo tempo, ele próprio considera que estamos perante um Orçamento profundamente injusto.
Para tomar tal decisão bastou-lhe a invocação dum pretenso interesse nacional que não se percebe onde mora, pois é sabido que o Orçamento da direita passaria na AR qualquer que fosse a posição do PS.
Ele e os que o acompanharam na decisão lá saberão as linhas com que se cosem, mas duvido que tenham ponderado bem as consequências, porque o PS vai pagar caro esta colagem à direita mais retrógrada que alguma vez esteve no poder em Portugal, depois do 25 de Abril e ao orçamento mais injusto de quantos já passaram na AR.
Falo por mim, como é óbvio, mas com Seguro como secretário-geral do PS, depois desta absurda decisão, não me passa pela cabeça votar de novo no PS. Serei mais um a engrossar o número dos abstencionistas: não votando PS, também não voto na direita, por princípio e porque não tenho a menor consideração pelos actuais governantes nem pessoal, nem politicamente e também não poderei votar nos ditos partidos da esquerda da esquerda, porque, gritem agora o que gritarem contra o actual governo e contra o Orçamento, são tão responsáveis quanto os partidos da direita pelo derrube do Governo anterior e pela ascensão da direita ao poder.