quarta-feira, 20 de maio de 2015

Gótico em Santarém: Igreja de S. João de Alporão





É monumento nacional, mas encontra-se em mau estado de conservação. Construída numa época de transição, a igreja apresenta elementos carecterísticos dos dois estilos; românico e gótico.
Nele funciona (?)  o Núcleo Museológico de Arte e Arqueologia Medievais do Museu Municipal de Santarém.
(E com estas imagens me despeço por uns dias. Até mais ver!)

segunda-feira, 18 de maio de 2015

A TAP vendida por tuta e meia

Manuela Ferreira Leite, durante uma entrevista à TVI 24, ao comentar palavras de Passos Coelho que iam nesse sentido. confessava não perceber "como é que é o Governo (...) minimiza[va] o valor da TAP".
Passos Coelho tinha, de facto, afirmado anteriormente que dar dinheiro para que alguém lhe ficasse com a TAP, não dava, mas, na mesma altura, deu claramente a entender que estava disposto a desfazer-se da TAP por tuta e meia.
Manuela Ferreira Leite tinha toda a razão para se mostrar surpreendida, pois o caso não é para menos. Na verdade,  onde é que, antes de Passos Coelho, já se tinha visto alguém, apostado em vender algo, aparecer a desvalorizar a "mercadoria", dias antes da apresentação das propostas pelos compradores ?
É, deveras, um caso nunca visto e a carecer duma explicação, tanto mais que, conhecidas que são, em termos gerais, as propostas dos concorrentes à privatização da TAP, tudo indica que Passos Coelho vai mesmo vender a TAP ao desbarato. Não por tuta e meia, mas por meia tuta. Ou nem isso, porque ainda não é claro quem assume o passivo da companhia.
(imagem daqui)

Quando a mentira faz parte do ADN

Antecipo que estou a escrever sobre Passos Coelho, mas poderia escrever o mesmo em relação ao seu parceiro de coligação, o irrevogável-mas-pouco Paulo Portas.

Ainda ontem, escrevi neste espaço  que a prática deste governo, ao longo de toda a legislatura, tem sido um continuum de mentiras, prática que a comunicação social e, em certa medida, até as forças políticas têm deixado passar sem reparo de maior.
Palavras ainda mal eram escritas e já Passos Coelho nos estava a brindar com um dos seus habituais "números" de vendedor de banha da cobra. Nada que seja motivo para admiração, dir-se-á, pois está mais que visto que a mentira faz parte do seu ADN. Todavia, desta vez, o número"  não passou despercebido, pelo menos aos olhos do "Público" que, numa só fala do "artista", detectou, não uma, mas duas redondas mentiras.

Primeira falsidade: o governo de Passos, em relação ao défice de 2015, ainda não conseguiu, obviamente, coisíssima nenhuma e não falta quem preveja que não vai conseguir aquele objectivo, a começar pela Comissão Europeia. Consiga ou não, mentira é ter conseguido: não consegui. Mas adiante...
Segunda falsidade: escreve o "Público" que o "défice abaixo dos 3% já foi alcançado, não uma mas sete vezes".
Sete vezes, repito eu, para que fique bem clara a desfaçatez do sujeito.
É claro que fazendo a mentira parte do ADN do próprio e da coligação, não é de esperar que Passos e o seu parceiro venham, alguma vez, a optar por falar verdade. Toda a esperança nesse sentido será vã, mas não é impossível que o exemplo do "Público" possa vir a ser replicado noutros órgãos de comunicação social. Pelo menos faço votos para que assim seja, porque tal é, antes de tudo o mais, uma exigência de um regime democrático digno desse nome.
Se a mentira sistemática destes farsantes for também sistematicamente questionada e posta em causa, maior será a probabilidade de a troika caseira ser derrotada nas urnas. A restauração da esperança e da confiança neste país que, ao longo destes quatro anos, foi sendo destruído, depende dessa derrota. Assim tenhamos todos consciência disso.
Todos ou, pelo menos, uma ampla maioria.

"Missão cumprida?"

«(...)

Antes de tudo, o facto de ter sido necessário um resgate em 2011, na sequência de um período de governação socialista, não confere qualquer selo de qualidade automático à ação da coligação PSD/CDS nos quatro anos que se seguiram. São coisas diferentes e o discurso do regresso ao passado mais não é do que o recurso a uma forma básica de alarmismo. Mas vamos aos números. Ao grito de "missão cumprida" da coligação deveria corresponder o cumprimento do cenário macroeconómico estabelecido no memorando de entendimento. Ou a ultrapassagem dessas metas, como chegou a vaticinar o primeiro- ministro.

Tomando como referência o ano de 2014, o crescimento do PIB ficou pelos 0,9% quando a meta era 2,5%; o défice atingiu os 3,7% quando o previsto eram 2,3%; a dívida ascendeu a 130% do PIB quando deveria estar já nos 115%; e o desemprego andou bem acima dos 13% (apesar da emigração e dos estágios), quando se projetavam apenas 12%. Por outras palavras, o Governo da missão cumprida falhou todas as metas da troika, apesar do brutal aumento de impostos.

Há ainda uma bandeira de que a coligação se apropriou: o regresso aos mercados. Sem dúvida muito positivo para o país, que reentrou assim na normalidade do financiamento da sua dívida, com taxas de juro comportáveis. Mas também aqui importa repor a verdade dos factos. O obreiro deste feito dá pelo nome de Mário Draghi. Foi o presidente do BCE que, contra a vontade da ortodoxia germânica tão elogiada por Pedro Passos Coelho, deixou claro aos mercados que compraria dívida na quantidade necessária para impedir a escalada dos juros. O resultado foi a queda das taxas para níveis historicamente baixos em toda a Europa, o que beneficiou também Portugal.

Numa iniciativa do presidente da República, foi apresentado na sexta-feira um estudo que revela que 70% dos jovens com idades entre 15 e 24 anos admitem deixar o país para progredirem nas suas vidas. Missão cumprida?!»


José Mendes (na imagem): "Missão cumprida?". Na íntegra: aqui. Destaques meus)

domingo, 17 de maio de 2015

Os "ultras" da "troika"

Há um provérbio português segundo o qual, "Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade", provérbio que Passos Coelho e o seu governo conhecem muito bem, porque lhes tem servido de lema durante toda a governação.
Vêm estas considerações a propósito de um comentário de Nicolau Santos (in Caderno de Economia do "Expresso" do passado sábado, acessível por esta via ) onde o conhecido jornalista admite que "Passos ganhou a batalha ideológica". 
Admitindo que haja uma boa dose de verdade na tese defendida por Nicolau Santos, falta dizer que Passos alcançou um tal objectivo levando a "verdade" do ditado à letra e sem desfalecimentos.
De facto, a prática deste governo, ao longo de toda a legislatura, é um continuum de mentiras, com início ainda durante a campanha eleitoral, prática que a comunicação social e, em certa medida, até as forças políticas têm deixado passar sem reparo de maior, o que não deixa de ser surpreendente. Quem é que, com a mesma frequência com que Passos Coelho e Portas nos enchem os ouvidos com patranhas, aparece na comunicação social a denunciá-las ?
Pondo de parte, porque bem conhecidos, os (negados e logo depois efectuados) cortes de pensões, salários e subsídios, e as (negadas e a seguir concretizadas) subidas de impostos, deixo. a título de exemplo, a patranha que, por estes dias, vem sendo a mais usada e repetida pela dupla Passos/Portas. Um e o outro têm ultimamente repetido até à exaustão, a pontos de causar enjoo, a versão de que os dois nada tiveram a ver com a vinda da troika, e de que não lhes cabe qualquer responsabilidade nas medidas inscritas no memorando. Ora, faz parte da história que se houve forças políticas que advogaram a vinda da troika e que, em boa verdade, tudo fizeram para que a sua entrada no país se concretizasse foram o PSD de Coelho e o partido de Portas. O ponto está historicamente bem documentado, pois as assinaturas dos dois partidos figuram no memorando, mas mesmo que assim não fosse, nem por um momento se poderia duvidar da sua responsabilidade. É que o Governo de então, presidido por José Sócrates, era um Governo demissionário e como tal não tinha legitimidade para assinar aquele documento, uma vez que a sua competência estava limitada à gestão corrente da res pública. Ao derrubarem o Governo de José Sócrates, Cavaco, o PSD e o CDS, sabiam já que estavam a forçar a vinda da troika e que a intervenção de todos eles, Cavaco incluído, era, duma forma ou de outra, imprescindível para haver acordo, pois a troika, também não anda(va) a dormir. Era imprescindível, como foi.
Aqui chegados, é altura para nos interrogarmos sobre se a verdade ainda tem possibilidade de sair vitoriosa da contenda. Eu tendo a apostar que sim, desde que, sem desfalecimento e a toda a hora, se contraponha a verdade à mentira e desde que, na defesa da verdade, se ponha o mesmo empenho que a direita usa na propaganda da mentira.
Algumas recentes intervenções de António Costa parecem-me ir nesse sentido. Venham mais tiradas como esta: “Os portugueses só festejarão a saída da troika quando este Governo sair, porque este Governo é pior que a troika”.
Verdade! 
De facto, a afirmação de António Costa não belisca minimamente a verdade, pois limita-se a fazer eco de afirmações do próprio Passos Coelho que proclamou, por várias vezes, que, em matéria de austeridade, pretendia ir além da troika.  E foi. Se Passos Coelho e o seu governo na sua actuação procedem como ultras da troika, há que afirmá-lo e reafirmá-lo as vezes que for preciso.

Ao que a justiça chegou !

«A 22 de abril, o juiz dr. Carlos Alexandre e o procurador-geral-adjunto dr. Rosário Teixeira, acompanhados de polícias diversos, iniciaram buscas de dois dias, nos escritórios do Grupo Lena. Terminada a cerimónia, um administrador do Grupo foi detido, constituído arguido, interrogado e sujeitado a prisão preventiva, logo convolada em prisão domiciliária.

De pronto, jornais - de referência e de preferência - relataram as diligências, com detalhes em tudo e em todos coincidentes: marcas e número de computadores e gigabytes apreendidos; quantidade de pastas e de papéis; suspeitas, conclusões, alusões, e até pensamentos, do Ministério Público.

Depois, as informações recolhidas, sobre contas e movimentos bancários, ilustradas com datas, quantias, gráficos, a desembocarem em nomes. E, setas corridas, sem nenhuma relação com o que constasse das contas, o nome de José Sócrates, a causa, afinal, de toda aquela agitação.

Tratava-se, dizia-se, de diligências no seguimento da resposta das autoridades suíças, formalmente recebidas em fevereiro de 2015, a uma carta rogatória, urgente, de novembro de 2013, do Ministério Público, mais de um ano depois do envio da carta e de ter sido comunicada, ainda em novembro de 2013, a disponibilidade nas autoridades suíças da informação rogada. A pedido do Ministério Público, as autoridades suíças suspenderam o procedimento rogatório por mais de um ano, causando o alargamento, por vários meses, do prazo máximo de duração do inquérito, com influência sobre a planeada, já na altura e para a altura, prisão de José Sócrates.

E certo é que as informações recebidas desmentem a teoria de que o dinheiro de Carlos Santos Silva pertence a José Sócrates: depois de tanta busca, de tantas detenções, de tantos interrogatórios, de tantas apreensões, o nome dele continua teimosamente ausente, tanto quanto distante José Sócrates está dos negócios, das contas e do mais de que ali se tratava.

Por isso, chamá-lo ao assunto, como beneficiário de transações, sem correspondência com a informação recebida, mais do que especulação, é uma falsificação grosseira, uma mentira, como são outras tantas mentiras as novas vias inventadas de cambulhada para a investigação.

Não ressaltando das notícias que a comitiva para buscas integrasse repórteres (já lá chegámos), é de concluir que aquela tanta informação, toda ela coincidente nos seus detalhes e unânime nas conclusões, foi transmitida pela investigação, por responsabilidade do senhor juiz, do senhor procurador, ou de ambos, que a ambos cabe a guarda do processo.

Ficam, assim, sepultados os restos do "segredo de justiça" (salvo para esconder de José Sócrates os inexistentes factos da sua culpa). Confortados pelos arquivamentos, por colegas deles, dos processos de violação do segredo, animados pela inércia da procuradora-geral, protegidos da censura social por uma Imprensa acrítica ou conivente e pelo geral amedrontamento, os magistrados entraram em roda livre, num exercício de vale tudo, mesmo, ou sobretudo, tirar olhos.

Entretanto, fica a saber-se que os 23 milhões que, diz o Ministério Público, o Grupo Lena gastou para obter "contratos de adjudicação" de 200 milhões, caíram para 17, sendo o Grupo Lena substituído por personagens novinhas em folha, incluindo um holandês, que ainda não tinha entrado na história.

A par de tanta novidade, só falta dizer o que José Sócrates reclama: quem o corrompeu; para quê; onde; e como. Sem esse esclarecimento, de direito e de decência, o que este foguetório não esconde é o beco sem saída da história da corrupção.

Eis ao que a Justiça chegou: uma prisão sem factos e sem provas; diligências essenciais proteladas; a busca da verdade substituída pelo alarido mediático cirurgicamente alimentado; a difamação, a calúnia, o sofisma, em lugar de imputações claras, sérias e honestas.

No princípio disto tudo, José Sócrates denunciou a hipocrisia e a indiferença daqueles a que, por cargo ou por função, o país pode exigir voz. Falta denunciar a cobardia de tantos e a pequenina ambição de alguns. E a estupidez dos que pensam que os crocodilos poupam ao jantar os que os deixaram almoçar em paz.»
(João Araújo, advogado (na imagem): Segredo de Justiça sepultado. destaque meu)

Exames aldrabados?

A pergunta em título parece do domínio do absurdo, mas é inteiramente justificada se atentarmos no que vem hoje publicado em editorial do "Público" onde se transcrevem algumas declarações do presidente do Conselho Científico do Iave, segundo o qual «o Ministério da Educação (MEC) tem feito “a encomenda dos exames nacionais” com a indicação de que se deve “manter a estabilidade nos resultados” dos alunos “em relação aos anos anteriores, porque socialmente é difícil de explicar que as notas tenham grandes variações”, tendo acrescentado haver forma de alterar os resultados finais com recurso a pequenos “truques” técnicos, exemplificando: “Hoje temos um historial de cinco mil itens a Português, por exemplo. Se quero que haja notas altas é muito fácil. Pego numa ou em duas perguntas, substituo-as por outras, aparentemente semelhantes, e a minha expectativa em relação aos resultados dá um salto de cinco valores” e insistindo: “não é segredo para ninguém que as equipas do Iave que realizam os exames fazem uma estimativa de que resultados, em média, cada exame vai ter”. E não só “acertam em 95 % dos casos” como “conseguem fazer um exame para a nota que querem”. 
O editorialista do "Público" não vai além da suspeita, mas se a suspeita vier a confirmar-se, não veria nesse facto motivo para grande admiração.  Tudo o venha deste governo, sejam exames aldrabados, sejam aldrabices de qualquer outra natureza, já nada consegue surpreender-me.

"Somos o que os alemães deixarem"

«Chegou-me às mãos a biografia de Passos Coelho, "Somos o que escolhemos ser", uma obra literária que abre novos caminhos ao realismo pós-pindérico. Não é uma biografia, é uma notícia do Correio da Manhã com muitas páginas.
"Somos o que escolhemos ser" é um pensamento de Miss. Porque, a verdade é que não é bem assim. Aposto que há muita gente que não escolheu estar sem emprego. Ou não escolheu ter de sair do país ou não escolheu ser enganada pelo BES. "Somos o que escolhemos ser" só funciona se tivermos um padrinho como o Ângelo. Mas, caso fosse verdade e pudéssemos escolher o que queremos ser, nós já sabemos o que o nosso PM escolheria ser. Passos Coelho escolheria ser um Dias Loureiro, por diversas razões, nas quais podemos incluir o razoável cabelo para a idade. Portanto, o livro podia intitular-se: "Escolho ser um Dias Loureiro".
(...)
"Somos o que queremos ser" só faz sentido quando podemos escolher alguém do nosso partido para ser nossa biógrafa. Aposto que a autora não escolheu ser biógrafa do Passos. Foram-na chamar. Se eu fosse o Passos, não perdia tempo com a biografia de uma pessoa tão sem história como ele. Se eu fosse o Pedro, pedia à biógrafa que escrevesse a do Dias Loureiro. Depois podiam pôr lá pelo meio um suplemento fininho com a minha, mas, a fazer, era a do Dias. Tudo o que Dias Loureiro tem feito dava um calhamaço, basta ir consultar os arquivos da judiciária.
Conclusão, Passos lava louça, fica bem no sofá, só tinha um colchão, faz papos de anjo, salva a mulher do cancro e bebe vinho enquanto ouve Aznavour - depois deste livro, só queria a nossa dívida indexada à noção do ridículo do nosso PM.»

(João Quadros (na imagem): "Somos o que os alemães deixarem". Na íntegra: aqui. Destaque meu)

sábado, 16 de maio de 2015

Gótico em Santarém: Convento de S. Francisco






Monumento nacional com a designação de Igreja e Claustro do extinto Convento de São Francisco

Pobres de espírito *

«A Expo 2015, em Milão, é dedicada às arrecadas de ouro de Viana do Castelo, ao cavaquinho e ao Licor Beirão. Já é surpreendente que o quase centenário Gabinete Internacional de Exposições tenha decidido fazer uma Exposição Universal com assuntos tão portugueses. Mas o mais extraordinário é que o apelo pelos valores lusos acabou por ser acolhido por 142 países. Dão-se conta? O pavilhão das Seychelles a mostrar renda de bilros, o da República Islâmica do Irão a distribuir cálices de ginjinha e no dia da Finlândia vai ouvir-se um lapão a cantar o fado... Grande Portugal, quanto das tuas coisas típicas é orgulho universal!

Eu minto, mas só um pouco. O interesse da Expo 2015 não é pelas pequeninas coisas avulsas portuguesas. Não é por Belém (o pastel), é pelo fantástico que Belém (a Torre) significa na História Universal. A minha pequena mentira do primeiro parágrafo esconde a verdade grandiosa da Expo de Milão: ali se saúda (e é esse o seu lema) "a alimentação no mundo", isto é, as coisas de comer passeando por aí. E que é isso senão Portugal? O daqui para ali da cana-de-açúcar e do abacateiro, a história do viajante amendoim, o milho turista, o cacaueiro que partiu e a pimenteira que chegou, a peregrina palmeira de dendém e o excursionista café... Não, não foi Portugal que os inventou, mas foi Portugal que os apresentou ao mundo.

Porém, nesse lugar - Milão, hoje - onde o mundo glorifica a comida, Portugal não está presente. Não tem pavilhão, nem banca, nem um simples papelinho distribuído à entrada: "Olá, vocês não se lembram, mas já nos conhecemos. Foi Portugal que vos apresentou a/o [e aí o folheto diria o nome dum tubérculo, dum fruto, dum cereal]..." Aos brasileiros deu o café para conversar; à China e à Índia, a batata; e vindo dos Andes, o chili pepper, o jindungo que, passando pelo Brasil, deu sentido às sopas tailandesas e coreanas. Reparem, nem falo da paprica húngara - só reivindico as entregas diretas. A Budapeste, o picante só chegou depois de passar pela Turquia, trazido da Índia, onde, em Goa, os portugueses tinham metido o jindungo novindaloo. Leiam alto e descubram a origem da palavra: "vinha-d"alho"... O vindaloo encontrei-o, também deturpado, em Trindade e Tobago e no Havai.

Em 1972, o americano Alfred W. Crosby publicou The Columbian Exchange (A Troca Colombiana), sobre uma mudança-chave da história, quando o Velho Mundo se encontrou com as Américas. Nesses anos, 1492, com Colombo, e 1500, com Pedro Álvares Cabral, o planeta começou a ser pintado redondo. Global, como hoje se diz. No maravilhoso A Aventura das Plantas e os Descobrimentos Portugueses, de 1992, José Mendes Ferrão explicou essa contribuição portuguesa. O mais comum prato angolano, o funje, é acompanhado por fuba de milho ou por fuba de mandioca. O milho e a mandioca vieram do Brasil. E não se espalharam só pelas antigas colónias portuguesas, são as duas farinhas mais comidas em toda a África. O molho desses pratos é feito com óleo de palma, do coconote, que foi levado pelos portugueses da Índia (Goa) e Sudeste da Ásia (Malaca) para África e Brasil. Quem come moqueca em Salvador da Bahia, saboreia Goa, sem que a agência portuguesa de viagens cobre taxas. No Nordeste brasileiro, chama canjica ao mingau de milho, ou munguzá, se for sem tempero e sal. Os nomes vêm do quimbundo angolano, kanjika e mukunza. Quer dizer, a viagem das plantas não foi feita calada, uniu povos, para lá do palato.

A cana-de-açúcar tem origem na Índia e chegou a Pernambuco, o café é da Arábia e chegou a São Paulo. "E quem levou?", perguntaria o folheto que devíamos levar a Milão, já que não temos pavilhão. Os portugueses conhecem o ananás desde 1500, do Brasil. Levaram-no para estações de aclimatação, para os Açores, para o tornar de outro mundo (como levaram o cacau para São Tomé). Durante décadas, o Havai foi o maior produtor de mundial de ananás, mas só o começou a produzir em 1886, oito anos após o Reino do Havai, graças a um acordo de emigração com Portugal, já ter camponeses de São Miguel, Açores...

O pavilhão da Santa Sé, na Expo 2015, diz que a comida é também assunto de rituais e símbolos. Claro. E os portugueses foram apóstolos do valor sagrado do pão, espalharam-lhe a palavra e os sabores. O governo português diz que não temos pavilhão porque não temos dinheiro. É falso. Não estamos lá porque quem decidiu é pobre de espírito. Não merece Portugal

(Ferreira Fernandes: "Sim, não fomos à Expo 2015 por pobreza. De espírito". Destaque meu)

* Como se prova, uma vez mais.

Ainda não é caso para deitar foguetes...


... mas só o facto de verificar que a intenção de voto na rapaziada do "pote" está em maré baixa, já me enche de satisfação. Não digo grande, porque grande, enorme, será no dia em que os votos os empurrem para fora do palco. Infelizmente, esse dia, graças a Cavaco, ainda vem longe. Hélas!

sexta-feira, 15 de maio de 2015

A empobrecer, subitamente ficámos ricos!

Tão desconcertante e súbita  descoberta é da autoria de Passos Coelho, o paladino da austeridade "custe o que custar", o tal que garantia que Portugal e os portugueses tinham que empobrecer e o mesmo que ao longo dos últimos quatro anos tudo fez para atingir tal objectivo
Por alguma razão lhe chamam aldrabão e pantomineiro. Por que razão será?

Cavaco, tarde piaste!

Cavaco, o patrocinador e indefectível apoiante deste desgraçado governo que é o responsável pela criação de condições que forçaram a emigrar, centenas de milhares de portugueses, na sua grande maioria, jóvens, números que só têm comparação com os da emigração nos tempos de Salazar e Caetano, vem agora proclamar que "Portugal não pode desperdiçar o imenso capital humano dos seus jovens. É essencial criarmos condições para atrair aqueles que, por diversos motivos, optaram por fixar-se no estrangeiro"
Por onde andou Cavaco durante os últimos quatro anos e o que fez para evitar tamanho "desperdício"?
Para que alguém, com as responsabilidades de Cavaco, se atreva a fazer uma tal proclamação, é preciso uma grande dose de descaramento! A Cavaco, pelos vistos, é coisa que não falta.
E, infelizmente para o país e para todos os que foram forçados a emigrar, pouco mais se lhe pode dizer que não seja: " muito tarde piaste!"

Passos, o curandeiro e a banha da cobra

Em artigo de opinião publicado no Económico. intitulado "Veneno disfarçado de remédio", João Dias não podia usar de maior clareza: "Se Portugal fosse confrontado hoje com a turbulência dos mercados de 2011 estaria a negociar outro resgate." E justifica a afirmação com não menor rigor, pois, de facto, é como diz: «nem a doença (dívida) foi vencida, nem o doente (economia) tem mais defesas. Apenas o ambiente (mercados) se tornou menos infeccioso. Passos e Portas vendem-nos um veneno (austeridade de "cofres cheios" de dívida) disfarçado de remédio ("o maior e mais ambicioso programa de reformas das últimas décadas")
O quadro traçado, ainda que baseado nos dados disponibilizados pelas entidades nacionais competentes (BdP e INE) e pelas autoridades internacionais (UE, OCDE e FMI) contraria frontalmente a narrativa posta a correr por Passos Coelho e pelo resto da pandilha que com ele faz coro. 
Sabendo-se o que a casa gasta, não é de excluir que o discurso de Passos Coelho centrado em negar a evidência, tenha origem na sua inegável propensão para a aldrabice. Admito, porém, que, a par desta, possa existir uma outra justificação. Sabendo-se que Passos Coelho andou a tentar "fazer" de médico, quando nem sequer tem condições para ser curandeiro, provavelmente confundiu remédios com banha da cobra e o resultado é o que está à vista.
Ora, digam-me lá qual é o curandeiro que admite que errou? Por que motivo é que o curandeiro Passos havia de ser excepção?
(Imagem daqui)

quinta-feira, 14 de maio de 2015

"Uma reforma amiga da família"

Em crónica, cuja leitura se recomenda, hoje publicada no Jornal de Notícias, Rafael Barbosa escreve que no Portal do Governo se encontra inscrita esta frase: "A reforma do IRS foi um importante passo para reduzir a burocracia e aliviar as famílias, sobretudo as que têm mais encargos. É, sem dúvida, uma reforma amiga da família."
Custa  a acreditar que o governo que ultrapassou todos os antecedentes e todos os limites no que respeita a aumentos de impostos e. designadamente, em sede de IRS, ouse fazer uma tal afirmação, mas a verdade é que, tal como escreve  Rafael Barbosa, a frase estava lá e ainda está, como acabei de confirmar.
Como explicar um tal descaramento? Já se sabe que a vergonha desta pandilha é nenhuma, mas uma afirmação deste teor, sabendo-se que é uma redonda mentira, ultrapassa tudo o que se poderia imaginar. Pela minha parte confesso que só vejo uma explicação: estes farsantes acham que os portugueses são todos parvos e depois de esfolarem os contribuintes, roubarem os funcionários e os pensionistas, ainda se dão ao luxo de rir na cara de todos nós.
E não é que o farsante-mor está mesmo a rir-se na página do portal onde se encontra a dita frase ? 
Não acredita? Veja: