terça-feira, 4 de novembro de 2014

Quem é que errou? Quem é que é preguiçoso?

Para Passos Coelho, 
«...fácil foi lançar a toda e cada pessoa que o criticou o desafio de "assumir que errou, que foi preguiçosa, que não leu, que não estudou, que não comparou, que não se interessou".

A haver alguma verdade naquela frase - e há - é exactamente o oposto do que pretendia dizer Passos Coelho. Um português, qualquer um, não é preciso ser comentador nem jornalista, só pode tolerar tão pacatamente os sucessivos erros, hesitações, equívocos e efabulações a que tem sido sujeito não tanto porque não lê, não estuda, não compara mas, acima de tudo, porque não se interessa o suficiente.
(...)
 Bom, a ignorância pode ser uma bênção. Sempre nos poupa a irritação. Porque se nos pomos a querer saber corremos riscos importantes.

Podemos descobrir que Fundo de Resolução, por força do artigo 153.º-B do RGIC (é googlar) é uma pessoa colectiva de direito público e que, portanto o Fundo é do Estado, mesmo. Sim, fomos nós que salvámos o BES. Podemos descobrir que a proposta de um tecto para as prestações, assente na ideia de que temos tantas e tão generosas prestações sociais, desde logo o RSI, que desincentivam o trabalho esbarra nos números: os dados da segurança social, de inícios de 2013, apontam para valores de 84,53€ por pessoa por mês. Uma vergonha, e muito abaixo do limiar da pobreza.

Ou podemos descobrir que, como explica o INE, a despesa em saúde caiu em termos gerais, e essa queda resultou, acima de tudo, de um recuo do Estado, excepto nas transferências para os hospitais privados onde a despesa subiu consideravelmente. Ou, então, que uma suposta reforma do IRS supostamente pensada durante meses é alterada quatro vezes em dois dias, ao ponto de o responsável técnico pela mesma falar de uma "salganhada" e que a probabilidade de se cumprir a promessa de devolução da sobretaxa em 2016 não é, nas palavras de Eduardo Catroga, "muito grande".

Exemplos, apenas. Se nos interessamos damos com o óbvio. Que quem tem de "assumir que errou, que foi preguiçosa, que não leu, que não estudou, que não comparou, que não se interessou" não é a população, é quem a desgoverna. (...).»

(Marco Capitão Ferreira; "E se nos interessamos?". Na íntegra: aqui. Destaque meu).

2 comentários:

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

O problema é que muitos desses erros foram premeditados. Pelo menos é a impressão que me dá...

Majo disse...

~
~ ~ Muito bem sublinhado, Francisco.

~ Mas o artigo não deixa de ser deprimente.

~ Quando será que o povo se levanta e faz um veemente e fortíssimo protesto de tal modo que destrone o aldrabão- mor e seus acólitos?!!