segunda-feira, 2 de maio de 2011

O caminho da vergonha

O ataque aéreo das forças da NATO dirigido contra um edifício em Tripoli onde se encontrava Muammar Khadafi, a mulher e parte da sua família, ataque de que resultou a morte de um dos filhos do líder líbio e de três dos seus netos, não tem, obviamente, cobertura legal do ponto de vista da resolução aprovada pelas Nações Unidas que, recorda-se, apenas autorizou uma intervenção aérea para assegurar a proteção de civis face à violência desencadeada pelas forças de Khadafi contra os que o contestavam nas ruas. Não só não tem cobertura legal, como só pode ser visto como um ataque desencadeado por dementes, tão graves são as suas consequências. 
Khadafi é, sem dúvida, um ditador cruel, mas quem ordena e autoriza operações deste tipo também não olha a meios para atingir os seus fins. Fica, aliás, demonstrado, perante mais este ataque, que os objectivos prosseguidos pelas forças envolvidas nas operações desencadeadas pela NATO não são, seguramente, os que foram invocados para alcançar a aprovação do Conselho de Segurança da ONU. O argumento da proteção de civis já há muito tinha deixado de ter validade, perante as acções entretanto desenvolvidas. Não é, de facto, segredo para ninguém que o que ocorre, actualmente, na  Líbia é uma guerra civil entre Khadafi e as forças militares ao seu serviço, por um lado,  e os rebeldes armados que se lhe opõem, por outro, rebeldes que são apoiados nas suas acções pelas forças da NATO e pelas potências ocidentais envolvidas, designadamente, pelos Estados Unidos, a França e o Reino Unido que os reconheceram, não se sabe como, nem porquê, como legítimos representantes do povo líbio. Em razão do voto popular, não foi, tanto quanto é sabido. Talvez  em razão do petróleo, quem sabe ?
Como em qualquer outra guerra civil, é verdade que quem mais sofre são os civis encurralados entre os dois contendores, mas, numa tal situação, não há bons, por um lado, e maus, por outro, pois as culpas são repartidas entre as forças em confronto. A própria notícia oferece dados que permitem concluir que, no caso, não há que fazer qualquer distinção. Na verdade, basta ler na notícia  que "na cidade de Bengasi, bastião dos rebeldes líbios, ouviram-se tiros festejando o anúncio da morte dos familiares de Khadafi", para concluir que os que se  opõem a Khadafi, em matéria de crueldade, não lhe ficam atrás.
Falta acrescentar que o ataque em causa não se reveste de menor gravidade do que qualquer outro dirigido por um país estrangeiro contra a Casa Branca, o nº 10 de Downing Street, ou o Palácio do Eliseu. O que diriam os americanos, ingleses e franceses, num caso desses ?
Deixo a pergunta. Americanos, ingleses e franceses que respondam.
Pela minha parte direi apenas que a NATO e os países envolvidos na operação vão por muito mau caminho. O caminho da vergonha, provavelmente, em direcção ao atoleiro.

3 comentários:

aires disse...

Mas...

na America, Inglaterra, França, com todos seus defeitos,

oprimem-se, prendem-se, matam-se pessoas

só pelo que pensam, acreditam, fazem em termos de organização democratica????

Kaddafy teve um papel importante quando lutou e deitou abaixo uma monarquia troglodita

mas depois ha evolução, conceito progressista,

e ele não a acompanhou, combateu-a, evolução, ficou preso teias historia sua...

tornou-se quase igual aos que derrubou...

infelizmente, eu ja vivi isso de perto, em paises "novos",

até com amigos e camaradas meus no poder, e posso-lhe dizer que é mui triste constatar that...


abraço amigo

Anónimo disse...

Exactamente, não faças aos outros o que não gostas que te façam a ti.

MFerrer disse...

Completamente de acordo Aires!
E Francisco, fiz o respectivo link para o meu Facebook.
Este é apenas mais um atropelo a qq resquício de legalidade internacional. Não se respeitam tratados, fronteiras, países amigos ou inimigos e, finalmente, manda-se usar a lei de Linch!
Uma trampa este mundo!