domingo, 22 de março de 2015

"Lógica pastoril"

"Segundo a comunicação social, o acórdão da Relação de Lisboa sobre o caso Sócrates resumiu a sua convicção sobre os indícios fortes de crimes de corrupção através do provérbio "quem cabras não tem e cabritos vende de algum lado lhe vêm". Tal lógica, própria de uma sociedade tradicional, manifesta-se deficitária numa sociedade de conhecimento, em que as causas dos fenómenos se podem revelar mais complexas.

É falacioso o argumento (...) Pode haver quem não tenha cabras mas tenha crédito, como já aconteceu a Portugal e aos portugueses. Por outro lado, não julgo que um tribunal possa invocar um dia o provérbio "com um olho no burro, outro no cigano" para justificar medidas especiais de vigilância sobre pessoas de determinada etnia. Baste a quem basta o provérbio e não creio que baste ao Direito.

A lógica pastoril revela que há indícios de que Sócrates praticou atos de corrupção, mercadejando as funções públicas, ou apenas que o dinheiro envolvido teria de ser seu e não pode ter sido dado ou emprestado? Essa lógica pode apontar para indícios, mas especifica um crime. É adequada à investigação mas insuficiente para formular a acusação. 

Talvez tal lógica fosse suficiente para um crime que pressupusesse a inversão do "ónus da prova", como o famoso enriquecimento injustificado, inexistente no momento da prática dos factos. 

No crime de corrupção, cabe ao Ministério Público demonstrar que o dinheiro foi recebido para uma certa disponibilização dos poderes públicos. Os princípios da presunção de inocência e ‘in dubio pro reo’ assim o impõem.

Vender cabritos sem ter cabras não prova por inferência a prática de crimes de corrupção, salvo se entendermos que o vendedor não pode ter deixado de receber os cabritos para praticar atos ou omissões contrários aos deveres do cargo, no conjunto de mundos possíveis. (...)

(Fernanda Palma - Professora Catedrática de Direito Penal.  Na íntegra: aqui)

3 comentários:

Anónimo disse...

Chicamigo

As palavras da Professora Fernanda Paula, da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa têm muito peso. Lecciona mas também escreve artigos que, pela categoria e autoridade da autora devem ser tomados em consideração.

Espanta-me que o pasquim CM tenha publicado este, pois, apesar de Portugal ser uma terra de espantos, o "jornal" (???) tem sido o campeão do clube anti-Sócrates.

Mas tenho de felicitar a autora pelo que escreveu e também tu que continuas a defender a Liberdade democrática. Bem hajas

Abç

Majo disse...

~
~ ~ É uma ignomínia manterem uma pessoa presa por essa...
~ ''lógica pastoril''...

~~~~~~ Grata pela partilha. ~~~~~

~ Venha uma semana primaveril! ~
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

Anónimo disse...

Até o Rodrigo Moita de Deus se atirou aos juizes!