segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Austeridade revista e aumentada

"Numa galáxia demasiado perto de si, um novo pacote de austeridade não representa nova austeridade, mas apenas austeridade que, por ter sido (em parte) anunciada numa carta de Passos Coelho à ‘troika' em Maio, não é nova. Denunciar este embuste é, nas palavras do primeiro-ministro, criar um "choque negativo de expectativas" que pode comprometer o sucesso do programa de ajustamento português. Para Passos, não são os cortes nas pensões, nos salários, na saúde, na educação e em tudo o que mexe que são negativos. Negativo, diz-nos, é a reação dos portugueses a mais este pacote de choque e pavor. Passos sente-se injustiçado. Aparentemente, o primeiro-ministro esperava que os portugueses, ufanos, estivessem a celebrar o seu próprio sacrifício.
Todo o discurso sobre o "novo ciclo" resume-se, afinal, ao seguinte: o "novo ciclo" é igual ao anterior, mas em pior. Em pior por duas razões: porque estas medidas vão fazer regressar a espiral recessiva e agravar a situação no mercado de trabalho; e porque, nesta "nova" fase, o governo reforçou o clima de autofagia nacional. Ao invés de mobilizar os seus cidadãos contra uma política que condena o País à servidão, o Governo prefere fomentar um clima de guerra civil: pobres contra remediados, pobres e remediados contra a classe média, trabalhadores contra pensionistas, público contra privado, novos contra velhos, etc. É a luta de classes, mas ao contrário: não constrói laços entre as pessoas, corrói os que existem; não aproxima ninguém, antes explora o ressentimento e a inveja. Aconteça o que acontecer, uma coisa é certa: não se reforça uma comunidade por esta via.
Numa altura em que Comissão Europeia, BCE, FMI, Barroso e fontes anónimas do Eurogrupo chantageiam o Tribunal Constitucional, responsabilizando-o pelo falhanço deste maravilhoso programa de ajustamento, o que se espera de um governo eleito pelos portugueses é que defenda Portugal. Pedir isto não é pedir demais, porque ser um Estado de Direito Democrático não é um luxo; é o que somos, é o que não podemos deixar de ser e, já agora, é (ou era) uma condição necessária para pertencer à União Europeia.
(...)"
(João Galamba; "Eterno retorno do mesmo"; na íntegra: aqui)