domingo, 14 de outubro de 2012

Bate, bate, levemente...


"Do rol das já habituais promessas eleitorais por cumprir em que qualquer Governo é exímio, há uma em que Passos Coelho ultrapassou todos os limites: a que garantia que o PSD estava preparado para governar e sabia qual era a real situação do País. Não estava e não sabia. Melhor: não está e não sabe. Mesmo descontando os buracos escondidos entre a Madeira, a área da saúde e algumas autarquias, ou as consequências da crise europeia, está mais do que provado que não existia um caminho claramente traçado com base em números e factos e muito menos pessoas identificadas e capazes para o executar. Não havia ministros sombra preparados para assumir pastas essenciais. Não havia nada. Foi tudo feito em cima do joelho e agora, na feliz expressão de Belmiro de Azevedo - uma voz sempre insuspeita, tanto mais que saiu da sua habitual posição neutral para apoiar o atual PM -, navega-se à bolina. Vai-se andando e recuando ao sabor dos acontecimentos. Da cartola de Gaspar aparecem e desaparecem por magia não coelhos mas medidas avulsas, da genial TSU ao IMI, que têm objetivos e resultados que depois já não servem para nada. O País sofre assim de dupla experimentação, como se estivesse à mercê de dois cientistas loucos. Por um lado, aplica as ideias falíveis que a Europa vai inventando para acudir aos países periféricos e se safar a si própria da desagregação económica. Por outro, testa ainda novas equações e acrescenta ingredientes inspirados sabe-se lá por quê, por quem e com que intenção. O resultado, como se está a ver, além de absolutamente ineficaz é explosivo. Só que neste caso a criatura há de não só matar o criador como deixar à volta tudo moribundo. E só com direito a metade do subsídio de ajuda para o funeral.
... à desorientação...
Quando o ministro das Finanças de um país fica desacreditado, é grave. Quando isso acontece ao ministro de um país como Portugal, que vive uma das maiores crises de sempre e cujas soluções e medidas passam por esse ministro, é trágico. O anúncio do nome de Vítor Gaspar como o tecnocrata escolhido para a pasta - alegadamente depois das recusas de Vítor Bento e Eduardo Catroga - convenceu pelo domínio dos números, as relações junto das instâncias europeias e o discurso lento e seguro. Apenas quinze meses depois, o ministro está cercado. Errou todos os números - os do défice, do desemprego e das receitas fiscais. Inventou as mais inábeis medidas sociais e políticas - a TSU e o IMI. Foi obrigado a recuos colossais - e a desistir em vez de modelar e mitigar. Há números, como os das dispensas dos contratados do Estado, avançados num dia por um gabinete e desmentidos no dia seguinte por outro. Há versões contraditórias sobre a proposta de Orçamento. Há uma desorientação absoluta no Governo. Ainda gostava de pensar que todo este estardalhaço, mesmo deixando o País à beira de um ataque de nervos, tinha sido pensado, que a intenção era agora fazer que uma leve suavização gerasse um enorme suspiro de alívio. Mas não creio. Nem acredito que queiram tramar politicamente o ministro. Mas Vítor Gaspar chegou a tal ponto que foi possível a Miguel Relvas renascer das cinzas e reaparecer nas tribunas. E tornar-se tão remodelável quanto este."
(...)
(Filomena Martins; Da impreparação...; Na íntegra: aqui)

Se bem que concordando, parcialmente, com a análise de Filomena Martins, parece-me que ela só conta da missa, a metade, porque, como é evidente, quer Passos, tratado por Filomena Martins como o "impreparado", quer Gaspar, qualificado como o "desorientado" sofrem os dois dos mesmos males. Será que  não é verdade que a desorientação é filha da impreparação e que Passos não é o primeiro responsável pelo governo desorientado?

1 comentário:

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Claro que PPC é o primeiro culpado e, estranhamente, na homilia desta noite Marcelo repetiu-o várias vezes...